Entre textos

Marrocos e Portugal

       Acontece muitas vezes: ter um texto na cabeça, com a estrutura mais ou menos definida e, a juntar a isto, muita vontade de recordar a viagem que lhe deu origem. Entretanto, o mergulho nas inúmeras fotos que lhe posso associar e a difícil escolha. Hesito muitas vezes, com pena de deixar de fora muitas mais do que aquelas que depois vão ficar a ele coladas. Deixo então para outro dia, na esperança de uma maior capacidade de escolha, de momentos mais justos nessa seleção sempre tão redutora. O mesmo acontece com as palavras do texto que irá nascer. O receio de não conseguir fazer corresponder a memória tecida de sensações, impressões e deslumbramentos ao que vai ser lido e reconstruído por outros olhos leva a adiamentos sucessivos. No entanto, o desejo de voltar aos lugares que ficaram longe permanece. Para além dele, as viagens com novos mapas sucedem-se ou programam-se para breve.

       Também pode acontecer a viagem continuar depois do regresso , mas noutros moldes, porque se entranhou na vida de todos os dias e isso é ainda melhor e torna-a muito especial. Foi o que aconteceu com a viagem a Marrocos. Ainda tenho textos e imagens para a dizer e entretanto ela foi revivida. Em vários momentos, depois de ter escrito pela primeira vez sobre ela ( aqui: https://cartografiapessoal.wordpress.com/2013/04/07/um-pais-que-se-entranha/ ).

        Primeiro quando alguns viajantes que nela participaram se reencontraram a pretexto de um almoço seguido de um concerto em Lisboa. Depois no Porto, quando nos juntámos de novo, desta vez para assistir à apresentação do livro do nosso guia da viagem (Carlos Carneiro -http://www.nomad.pt/lider/carlos-carneiro ) e para um jantar. No seu livro «Nunca é tarde» Marrocos também está presente, num relato de uma viagem de um ano de pai e filho por África numa 4L (mais conhecida como Catrela; ver aqui http://www.nuncaetarde.com/ ). Um Marrocos vivido por ambos muito antes desta minha primeira vez no continente africano. É uma volta a África que fazemos nas palavras e fotografias do livro, da qual fiquei a conhecer algumas histórias de viva voz sob o sol marroquino durante aquela semana de março. Em ambos os reencontros a cumplicidade construída no solo quente de Marrocos facilmente se recriou, nas conversas ao som dos risos, dos recontos das aventuras comuns e nos silêncios onde moram as saudades da viagem.

       Entre textos e no meio de palavras e fotografias com cores que ainda se confundem nos olhos quando me lembro de Marrocos, aconteceu um amigo marroquino enviar-me uma chaleira e uns copos para o chá, para ser bebido cá em casa de acordo com o ritual tão caloroso e aromático que eu testemunhei nas cidades, nas aldeias e nas areias douradas do deserto. No souk de Marraquexe, depois de uma longa negociação, escolhi um bule para trazer comigo. Já os copos ficaram lá, com grande pena minha, pois receei parti-los na viagem de regresso. Os copos para o chá são frágeis e pequenos. São de vidro, podem ter muitas cores, relevos vários e outros pormenores que lembram sempre o lugar de onde vieram. Apesar disso, eu queria uns simples e com o formato típico. Foi isso que recebi, juntamente com uma chaleira de uso diário e ainda um pacotinho de chá para dar mais uma razão de ser a este conjunto. Que é muito mais do que isso sempre que olho para ele (shukran, A.!).

       Voltei a deixar-me envolver pelas memórias quando no último fim de semana viajei no tempo até ao reinado de Afonso II. Foi fácil. Este castelo e o seu enquadramento dão o ambiente perfeito para esta viagem.

Entre_textos F1 id1O castelo de Santa Maria da Feira

Vi gente apeada ou a cavalo, nobres, tratadores de cavalos, guerreiros, vendedores, artesãos, visitantes, clérigos, turistas, pessoas com poderes extraordinários que prometiam um futuro mais radioso que o presente, curiosos com câmaras de filmar e telemóveis nas mãos, gente do povo, técnicos de som, da luz, músicos de sons sem tempo, voluntários, crianças, jovens, adultos, cavaleiros, damas da corte, famílias de pais, filhos, avós e netos, rei e emir, lançadores de arco e flecha, falcoeiros…

Entre_textos F2 id1             Tudo isto num cenário a lembrar os dos livros de História, em que as personagens não se mexem, não se lhes conhece a voz nem o rosto com as emoções dos momentos. Ali não. É tudo muito autêntico, numa atmosfera em que a precisão temporal marcada nos relógios se torna um pormenor sem importância.

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       Também por isso quando cheguei ao mercado árabe me senti no souk de Fez ou de Marraquexe.

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       Havia também um restaurante árabe, cuja decoração se parecia muito com a da sala de jantar do hotel em Tamgroute e uma sala de chá onde este era servido nos copinhos das minhas gratas recordações, acompanhado dos bolinhos que comi depois de um jantar na praça Jemaa el-Fna…No reino de Afonso II, escolhi um bolinho de amêndoa e mel que parecia perfumado de flores. E o aroma do incenso misturado com o dos sabonetes artesanais milagrosos, que se vendiam ali bem perto da salinha de chá apinhada de gente e de almofadas coloridas, avivou-me a memória e a vontade de escrever sobre Marrocos. Assim como a breve conversa com um vendedor de artesanato marroquino que, pela sua djellaba azul, imaginei berbere. Não me enganei, como me confirmou nessa conversa na qual me disse ainda que era natural de Merzouga, onde eu estivera, muito próxima no tempo e no espaço da noite passada no deserto. Agora estava ali, debaixo daquela luz que dava ainda mais cores aos artigos em pele, malas, mochilas, babuchas e brilho às lanternas, brincos, pulseiras, colares, tapetes…

       Neste intervalo, algumas escolhas que se aproximam das definitivas para o próximo texto sobre Marrocos: para já as imagens, à espera da cor e das palavras. Começarei por Fez, a primeira cidade que conheci, depois de ter aterrado em Casablanca. Não me poderei esquecer de mencionar o caminho até ela, de tão imprevisto que foi. Já sei que me vou demorar na medina e nas suas cores e cheiros; na sua história; nos rostos que pode ter a várias horas do dia e da noite; nos primeiros sabores destes dias. Vou com certeza parar em algumas das ruas e das praças. E vou permanecer nesta cidade até ao fim do texto. O próximo.

Entre_textos F6 id1Imagens da cidade de Fez

– Sobre a “Viagem medieval” em Santa Maria da Feira: http://www.viagemmedieval.com/

ASM

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