L’Oltrarno

Florença, Itália

 Há um ano, por estes dias de julho, estava a regressar de Florença. Uma viagem muito especial e única. O pretexto foi assinalar o meu aniversário, que acontece num mês particularmente frio, cinzento e marcado por inúmeros afazeres profissionais. Nascida no início de dezembro, dificilmente posso ausentar-me para longe. Como se tratava de um aniversário marcado por um número redondo, havia que ir. Apesar de ter sido no verão seguinte, esse intervalo entre a decisão e a partida foi particularmente saboroso. A antecipação de uma viagem inteiramente imaginada, planeada, determinada por mim permitiu-me conhecer ainda melhor uma cidade onde já tinha estado duas vezes. Em duas idades diferentes. Três dias, mais precisamente. Desta vez seria uma semana. Queria ainda percorrer as ruas de Siena, San Gimignano e de outras vilas e aldeias que fazem a paisagem toscana. Acabou por acontecer quase tudo o que tinha imaginado. E ainda mais, o que não estava nas notas, indicações de amigos, recomendações de guias, memórias de livros e de poemas. Houve tempo para tudo. E ficou tempo em mim para lá voltar. Uma cidade que não me canso de conhecer, uma cidade com as medidas exatas das minhas preferências.

Já escrevi sobre Florença aqui, em forma de postais, como se fosse possível dizer todo o vivido, sentido, pensado e lembrado. Não é, não pode ser. Apenas pequenas notas, registos sentidos, fotografias avulsas, mas que procuram sempre uma narrativa possível, escrita com doses desequilibradas de saudade, alegria, fascínio, encantamento e alguma melancolia

Desta vez, com as palavras que aqui trago vou tentar reconstruir os caminhos de Oltrarno, o equivalente à Rive Gauche ou ao Trastevere, em Paris e Roma, respetivamente. O outro lado do rio Arno, a sul. Tratava-se, durante aqueles dias, de me entregar à descoberta deste lado do Arno, que não conhecia, do qual apenas me recordava de um ponto de referência: o Palácio Pitti. Na margem oposta concentra-se a maior parte dos ícones florentinos: Palazzo Vecchio, Piazza della Signoria, Galleria dell `Accademia, a catedral com o seu campanário e batistério, a igreja de Santa Croce e a de Santa Maria Novella. Ainda mais duas igrejas: a da Santíssima Annunziata e a de San Lorenzo, com a fabulosa capela Medicee e a Biblioteca Medicea Laurenziana, projetada por Miguel Ângelo. Era aliás com a vista da cúpula da capela da família Medici que eu acordava todos os dias bem cedo.

Florença F1 id1(Cúpula da Capela Medicea, desde a janela do quarto do hotel.)

        Para chegar a Oltrarno, havia que passar pela igreja e mercado de San Lorenzo, a caminho da praça da Signoria, percorrer o corredor dos Uffizi e encaminhar-me para a Ponte Vecchio (era o meu percurso favorito, confesso, embora haja muitas outras alternativas). Atravessá-la devagar, sem pressa, era imperioso, pois pela manhã cedo era o momento ideal com a luz matinal e com muito poucas pessoas em trânsito. Logo a seguir, uma das antecâmaras para Oltrarno, com indicações várias de direções para praças, bairros, igrejas…

Oltrarno F2 id1(Oltrarno desde a outra margem e vista parcial da ponte Vecchio.)

Oltrano F3 id1(Para saber para onde ir…)

       Deste lado do rio são muito os pontos de interesse. É aqui que podemos visitar, entre outras, as igrejas de Santa Maria del Carmine, de Santo Spirito e de San Miniato al Monte. Próxima desta última fica o Piazzale Michelangelo, muito procurado por todos, pois só dali se tem vista para um dos mais belos postais de Florença, sobretudo à hora do tramonto, ou seja, o momento do sol se pôr, sob as colinas toscanas.

Oltrarno F4 id1       Turistas à espera do instante perfeito do tramonto florentino, naquela praça que se parece muito com uma varanda sobre a cidade.

Oltrarno F5 id1       Depois de se estar na praça, tendo a estátua de Miguel Ângelo por companhia, há que esperar. Deixar correr o tempo e a luz sobre a cidade.

Oltrarno F6 id1(Il tramonto…)

       Também eu permaneci ali, gravando na retina as fases da chegada da noite sobre a cidade.

       As incursões pelo Oltrarno repetiram-se durante estes dias e tinha outros pontos marcados no mapa dos meus desejos. Um deles era a Piazza de Santo Spirito. A única com árvores. Aquela que tem uma igreja com o mesmo nome. Esta igreja foi projetada por Brunelleschi, um dos nomes maiores da arquitetura renascentista, mas não foi durante a sua vida que foi terminado o projeto.

Oltrarno F7 id1(Igreja de Santo Spirito, na praça com o mesmo nome.)

       A fachada principal da igreja é belíssima na sua sobriedade. A cor que tem é a cor terra de Siena, tom claro. Nela não encontramos os mármores branco, rosa ou verde, de muitas igrejas florentinas, nem as estátuas esculpidas ou os nichos desenhados a porcelana. Uma igreja diferente, cujo interior guarda obras de artistas como Filipino Lippi, Domenico Ghirlandaio ou Miguel Ângelo.

Almocei nesta praça por duas vezes. Encontram-se simpáticos restaurantes com esplanadas e um ambiente muito tranquilo, se comparado com o bulício que diariamente marca o ritmo da outra margem do rio…

Oltrarno F8 id1

       A minha primeira pizza em Florença aconteceu na praça Santo Spirito, com vista para esta árvore:

Oltrarno F9 id1

       Antes deste almoço concretizou-se um dos meus desejos: visitar o Palácio Pitti, com o seu museu e jardins. O nome Pitti lembra o seu primeiro proprietário, Luca Pitti. Posteriormente, o palácio foi vendido à família Medici, que acrescentou o corredor (de Giorgio Vasari, daí Corridoio Vasariano) que liga o edifício à outra margem da cidade, através da ponte Vecchio e acabando no Palazzo Vecchio, sede do poder. Agradou-me sobretudo a Galleria Palatina e as suas salas com nomes de deuses romanos. Ao reler as minhas notas dessa manhã cruzo-me com o que mais me impressionou: as obras de Tiziano, sobretudo a “sua” Madalena, todo o Raffaello Sanzio, Filippo Lippi e a “Madonna con Gesù bambino”, Botticelli com “Ritratto Muliebre”; as salas com o mobiliário, os tetos, as portas… Nomeadamente as salas de Saturno, de Júpiter, de Marte, de Apolo e a de Vénus. Ainda as salas de Ulisses e a da Ilíada. Na primeira, inscrito no teto, o regresso do herói a Ítaca, com a companhia, nos quatro cantos de mesmo, das representações de Hércules, Apolo, Fidelidade e Fortaleza. Na sala inspirada na Ilíada, todos os deuses do Olimpo em reunião magna… Para compreender o Renascimento na pintura, há que passar também por estas salas.

       Dos jardins Boboli, com os seus lagos, grutas inventadas, árvores e flores, temos uma imagem de Florença a não perder de vista. Estava muito calor nesse dia e o jardim, que sobe por uma colina acima, exigiu um esforço suplementar…Que foi devidamente recompensado, claro.

Oltrarno F10 id1(Florença vista dos jardins Boboli.)

Oltrarno F11 id1

        A hora desta fotografia coincidiu com o repicar dos sinos do Campanário ao meio-dia. Três marcos importantes de Florença, da esquerda para a direita: o Campanário, a cúpula da catedral e a torre do Palazzo Vecchio.

Oltrarno F12 id1(O teto de uma das grutas inventadas, à saída do palácio.)

       Após esta manhã e o já referido almoço, um passeio pelos bairros de Oltrarno. Bairros residenciais discretos, com muitos edifícios que foram, a seu tempo, palácios de um luxo reservado ao interior. Alguns desses antigos palácios são hoje sede de instituições públicas, algumas escolas e galerias de arte ou antiquários. Percorrer a via Maggio dá a exata noção disso mesmo.

Oltrarno F13 id1

Oltrarno F14 id1(Fachada do Palazzo di Bianca Capello, mandado construir por Francisco I de Medici(1579). Apaixonado por Bianca Capello, uma bela veneziana, a sua história de amor marcou a história da cidade. Hoje este edifício alberga os arquivos e laboratório de conservação e restauro de livros.)

Oltrarno F15 id1        Também se veem ainda antigas casas torre, que na Firenze antiga cresciam consoante o poder económico e prestígio social dos seus moradores. Muitas dessas torres renovadas são nos nossos dias hotéis ou condomínios com apartamentos.

       Do ponto de vista histórico, esta parte da cidade foi desde há muito a casa dos artesãos, dos mestres em ofícios vários: transformadores de matérias-primas como barro, peles, metais preciosos ou madeira em verdadeiras obras de arte. Por isso com um olhar atento, enquanto se percorrem as ruas estreitas de Oltrarno, descobrem-se muitos ateliers que sobreviveram à passagem do tempo e que ainda permanecem nas mãos de descendentes das primeiras famílias de artesãos. Há ainda oficinas e escolas de restauro de mobiliário. Ruas que são lugares de arte e dos seus fazedores.

Oltrarno F16 id1       Caminhar por estas artérias é recuar no tempo da cidade, até à época em que este lado se separava do outro por muralhas altas. Ainda lá estão vestígios delas, assim como de algumas portas de entrada para esta parte de Florença. As pontes que atravessam o rio são também portas. Atravessei esta no fim de um dia em Oltrarno:

Oltrarno F17 id1(Ponte alla Carraia.)

ASM

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