Por outras palavras

Antonio Tabucchi

 

Enquanto não termino o texto que estou a escrever, escrevo sobre o que estou a ler. Leio com vontade de não chegar ao fim, prolongando os momentos em que paro e mergulho nas viagens escritas de Antonio Tabucchi, em Viagens e outras viagens (Dom Quixote, maio de 2013). Isto porque cada texto, geralmente muito curto, mas intenso em experiências nómadas, é capaz de me levar para fora do imediato e das minhas circunstâncias. Em cada capítulo o autor orienta a sua escrita por coordenadas do mundo maior que tanto o fascina. E palavra a palavra, frase a frase, vai construindo um mapa muito pessoal.

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     Na nota inicial que abre o livro, o autor expõe as razões deste volume de textos e também diz: «(…)Reuni-los foi como fazer de todos eles uma única embarcação, uma canoa, um barquinho; calafetar as fendas da quilha, e a partir das correntes a que tinham sido confiados encaminhá-los numa única direcção: a viagem de um livro.(…)»(p.9)

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(Foto: il journal, Italia)
(Foto: il journal, Itália)

     Fica-se a conhecer melhor o autor enquanto viajante, cujas viagens se anteviam em contos e romances, mas aqui constituem o foco principal da atenção do escritor. Sem nunca perder de vista o que delas se traz e como cada viagem nos transforma, se a soubermos viver interiormente.

     «(…)E a verdade, no fim de contas, é que viajei muito, admito: visitei e vivi em muitos lugares. E sinto-o como um enorme privilégio, porque pousar os pés no mesmo chão durante toda a vida pode originar um perigoso equívoco, o de fazer-nos crer que essa terra nos pertence, como se não a tivéssemos por empréstimo, como por empréstimo temos tudo na vida. Konstantinos Kavafis disse-o num extraordinário poema intitulado “Ítaca”: a viagem encontra sentido só em si própria, no facto de ser viagem. E isto é uma grande lição se soubermos captar o seu verdadeiro significado: é como a nossa existência, cujo principal sentido é o de ser vivida.(…)»(pp.9,10).

     Ainda não acabei, ainda não cheguei ao fim das viagens, no entanto não resisti à tentação de saltar etapas no itinerário proposto, de antecipar lugares, pessoas ou encontros. Porque este livro também é disso que trata: de pessoas, de encontros felizes, de momentos únicos e que se deseja repetir. Nos primeiros textos que li, encontrei-me com Pessoa (“No café com Pessoa”, pp.166-168) e Sophia de Mello Breyner (“Na Grécia com Sophia”, pp.197-204). Comecei pela parte denominada “Por interposta pessoa”, que reúne palavras e lugares (re)visitados pelo autor depois de os conhecer pelos olhos de outros. E, tratando-se de escritores, os seus olhos são palavras.

     «(…)Quando fui à Grécia pela primeira vez, há muitos anos, compreendi imediatamente que nunca deixaria aquele país, voltei lá todos os anos. Levava para a Grécia a “minha” Grécia, a que tinha estudado na universidade, a filosofia sobre a qual tinha moldado o meu pensamento, os mitos fundadores do Ocidente, as personagens da História, a ideia da perfeição de Fídias que a imagem do Cristo crucificado irremediavelmente rompeu, a ideia do trágico revisitada por Nietzsche, a Vénus numa concha de Botticelli, as “sagradas margens” de Foscolo. Se Sigmund Freud recolheu tudo isto para elaborar uma magnífica teoria científica que ainda nos alimenta, eu tinha necessidade de vê-la “aplicada” à geografia, de platónica torná-la aristotélica, para que assim pertencesse à minha experiência.

     Depois, pouco a pouco, a minha Grécia tornou-se a Grécia de Sophia de Mello Breyner. À “pedregosa Ítaca” a que Ulisses foscolianamente regressou, tinha-se sobreposto não só a Ítaca de Kavafis, mas a Ítaca de Sophia, com um Ulisses que já não é só um navegante que sulca as ondas, mas que sabe também sulcar os torrões da terra, e esta é a sua verdadeira grandeza.

     “A civilização em que estamos é tão errada que/ Nela o pensamento se desligou da mão/Ulisses rei de Ítaca carpinteirou o seu barco /E gabava-se também de saber conduzir/ Num campo a direito o sulco do arado” (O rei de Ítaca). (…)

     Por tudo isto vou hoje à Grécia com Sophia. O meu Guide Bleu que me seguia sempre fica na escrivaninha, prefiro consultá-lo no regresso. Em viagem levo os poemas de Sophia: são leves, sei-os de cor. Depois, quando volto a casa, traduzo-os para a minha língua. » (pp.203, 204).

    Depois quis ir até à Brasileira e sentei-me ao lado de Pessoa, como Tabuchi sugere, na secção “Oh, Portugal!”, toda ela dedicada aos lugares do país que ele adotou como seu, depois de se cruzar com as palavras de Álvaro de Campos, na sua “Tabacaria”. Depois de com ele se encontrar, rumou a Portugal, para melhor conhecer o universo anunciado no poema e a língua que lhe dá forma.

      Diz Tabucchi numa entrevista (ver mais à frente) que nunca foi a Buenos Aires. Entenda-se, nunca pisou o chão desta cidade, mas, segundo ele, percorreu as suas ruas pelas palavras de Borges. É disso que nos fala num capítulo dedicado à cidade e ao poeta argentino (“Com Borges nas ruas de Buenos Aires”,pp.216-218). Diz ainda nesta entrevista que viajou graças aos livros de outros. Como eu. Tantas e tantas vezes. E depois, um dia, o acaso leva-nos a esses lugares e então revisitamo-los e o itinerário mais não é que um exercício de memória ou então sentimo-nos dentro do sonho que já foi nosso. E tudo se mistura, o lido, o sonhado, o projetado e o ainda por viver.

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(Foto: il journal, Italia)
(Foto: il journal, Itália )

     Com a leitura de três textos sobre Creta (“Dez anos de Creta”, “Creta. Um hotel, uma aldeia.” E “Entre ervas e montes”), sonhei com a Grécia, tantas vezes o espaço dos meus sonhos andarilhos. Sonhos deliciosos, que aqui também têm cores, aromas das oliveiras que desenho na minha memória por viver e que Tabucchi diz conhecer tão bem – «(…)Conheço todos os olivais de Creta. E as oliveiras mais vetustas, das quais tenho dezenas de fotografias.(…)»(p.67). Os aromas são também os das ervas, das plantas que depois se acrescentam aos pratos da cozinha mediterrânica, a juntar ao azeite…Em “Entre ervas e montes”, o escritor traça um mapa de colinas, picos e gargantas cretenses, para depois, ao longo do caminho/texto descrever as plantas e os seus benefícios para a saúde, terminando com as suas maravilhas para a mesa.

     No Egito, no Cairo, Tabucchi sentiu vontade de trazer consigo os aromas dos dias naquela cidade imensa, sobretudo aqueles que permanecem no bazar de Kahn el-Khalili. Este desejo também eu já tive muitas vezes (na Provença, na fábrica de perfumes em Eze, no mercado de Nice, ou mais recentemente no souk de Marraquexe).

     «(…)Uma tarde no bazar de Khan el-Khalili proporciona muitas descobertas e maravilhas, mas também causa um enorme cansaço. Ficamos um tanto aturdidos pelas vozes, os sons, as cores e os perfumes infinitos das especiarias expostas em grandes sacos de algodão, as mais variadas especiarias: cinamomo, açafrão, gengibre, paprica, cravinho e outras especiarias desconhecidas, com nomes árabes indecifráveis. Temos vontade de as comprar todas, mas onde vamos metê-las? Uma ideia um tanto extravagante é comprar um cofrezinho de cedro com embutidos de madrepérola (são bonitos e a um preço muito razoável) e enchê-lo de especiarias ao nosso gosto. E em seguida agitá-lo para fazer um cocktail absolutamente pessoal que podemos levar connosco para deixar escapar o perfume de vez em quando.(…)»(pp.78, 79).

     Ao ler-se este livro fica-se com vontade de chegar a outros e de começar com eles outras viagens. Com “Barcelona. A praça do Diamante”(pp.56-58) apeteceu-me ler o livro de Mercè Rodoreda que tem o nome dessa praça. Isto depois de ter revisitado um dos bairros de Barcelona, Gracia. Um romance sobre a guerra civil de Espanha. Já na minha lista dos livros a ler, portanto. A iniciar a secção dedicada à Índia, Tabucchi começa por percorrer as diversas ideias acerca deste país, presentes em autores como Marco Polo, Luís de Camões, Pierre Loti, Fernando Pessoa, Guido Gozzano, Hermann Hesse e Alberto Moravia, entre outros. Termina com Pier Paolo Pasolini que, segundo Tabucchi, empreendeu uma viagem dos sentidos, vendo a Índia como nenhum outro, deixando para trás os olhos ocidentais. Deixou-me muito curiosa o seu O cheiro da Índia (1962).

     No final de Viagens e outras viagens, há três tipos de índices: o mais previsível de todos diz-nos que o livro tem seis partes, a saber: “A caminho”, “Viagens com objectivo”, “Na Índia” (precisamente onde me encontro agora), “Caderno australiano”, “Oh, Portugal!” e “Por interposta pessoa”. Antes de tudo, e depois da nota inicial do autor que já mencionei, excertos de uma conversa sobre viagens, viajantes e um tio do autor e da importância da sua voz no seu imaginário. Os outros dois índices ajudam o leitor a situar-se no espaço e nos livros dentro do livro. Então um mapa do mundo, com os locais revestidos de palavras e a sua distribuição nas páginas, primeiro; “Os livros deste livro” uma bibliografia que é um mapa, dado que nos levaram até aos pontos diversos do mundo de Tabucchi.

     A viagem que é este livro começa em Florença e nas memórias mais antigas do autor, na companhia de um tio e de nomes que para a criança Antonio «eram mágicos»: Beato Angelico, Giotto, Caravaggio, Paolo Uccello. Mágica e sagrada tornou-se então Florença, onde repousam as obras destes últimos.

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(Florença, Italia)
(Florença, Itália)

     Ainda não cheguei ao fim do livro, como já disse. E não tenho pressa de chegar, mas muita vontade de permanecer. Como me acontece em qualquer viagem geográfica que faço. Uma certeza partilho com o autor: «Mas talvez faltem as viagens mais extraordinárias. São as que não fiz, as que nunca poderei fazer. Ficam por escrever, ou encerradas no seu próprio alfabeto secreto debaixo das pálpebras, à noite. Depois chega o sono, e levantamos a âncora.»(p.10)

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O livro pelo seu autor:

ASM

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2 thoughts on “Por outras palavras

  1. O teu texto deixou-me com aquele sorriso nos lábios e por alguns minutos transportou-me para outros lugares, para outros momentos – perfeito!

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