Por outras palavras

Nuno Júdice.

Voltar às palavras dele mais uma vez. Àquelas que me levaram a chamar a este espaço uma espécie de cartografia. Como expliquei no início, para justificar uma necessidade cada vez mais premente – https://cartografiapessoal.wordpress.com/about-2/ . E como nunca me esqueço de cada vez que aqui estou. Uma presença familiar, a dos seus poemas. Aos quais não me canso de voltar. Onde regresso com o maravilhamento da primeira vez. Como me acontece com os lugares.

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Ainda que não tivesse acontecido, provavelmente iria selecionar alguns dos seus poemas para trazer para aqui. A propósito de um destino, de uma emoção associada, de uma saudade depois do regresso. E não ia ser nada fácil escolher. Mas aconteceu o prémio Rainha Sofia de Poesia (ver notícia aqui:

http://cultura.elpais.com/cultura/2013/05/16/actualidad/1368703749_282000.html e aqui http://www.publico.pt/cultura/noticia/nuno-judice-vence-premio-rainha-sofia-de-poesia-iberoamericana-1594604 ) .

Nuno_Júdice_F2(Foto: http://visao.sapo.pt/imv/0/31/675/judice1-d7c5.jpg)

Escolhi então um poema para assinalar. Como não o fazer, se os seus textos fazem parte desta ideia desde as primeiras linhas? E ainda porque me reencontro quando os leio, já que as respostas para muitas das minhas perguntas passam pelos seus versos.

Agora, o tempo para o poema.

 

Exercício de cartografia

Não sei por que é que nos lembramos de certos lugares,

às vezes, à noite; nem por que é que sentimos a falta

desses lugares – a não ser que seja que algo da nossa vida,

de súbito, nos falte. Sim: é quando a noite se começa a pôr,

quando um sentimento antigo cai com o sol no horizonte,

quando os olhos deixam de ver o presente, a luz do dia,

o rosto que nos interroga, que certas imagens descem

talvez da memória, talvez do esquecimento que a substitui,

e formam essa paisagem que, parece, espera apenas um

movimento para se animar; e nada faço, e ela desaparece.

 

Que país assim saltou do mapa; e se desfez num atlas

subjectivo onde as fronteiras não exigem mais do que o passa-

porte que a vida nos passa? Despareceu comigo lá dentro;

e eu próprio não sei se fico ou se fujo nessa terra de ninguém,

perseguido por uma sombra que se confunde comigo. Não

a olho; nem ouço o aviso que me impede de alcançar a outra

margem, onde me esperas, como se hoje fosse ontem,

ou o vento tivesse deixado de soprar na primavera obscura

que herdei da tua morte. Habito a cor inacessível desses

livros fechados; e convivo com azuis, verdes, castanhos,

roubados à terra pelos olhos que perdi no teu rosto ausente.

 

Sobretudo, perdi a noção das distâncias: entre ti e mim, entre

o teu tempo e este tempo em que acordo, com restos de

nuvens no ar e o ruído de uma cidade habitual. Ainda se este

vazio que aperto nas mãos fosse um resto da tua passagem…

ou se a água negra do rio nocturno fosse a mesma em cujo

olhar coincidimos…Porém, liberto-me de ti sob o tampo

da manhã; e dou comigo a desenhar as linhas da mão,

mesmo as que se interrompem no limite dos dedos.

– Nuno Júdice, Poesia Reunida (1967-2000), Dom Quixote

ASM

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