2 – 3.4.11

+ do que 1

“Porque se todo o verdadeiro caso amoroso puder ter o sabor de uma viagem a um país estrangeiro, onde não sabemos falar a língua e não sabemos para onde vamos e somos puxados cada vez mais para dentro da sedutora escuridão, toda a viagem a um país estrangeiro pode ser um caso amoroso em que ficamos a pensar quem somos e por quem nos apaixonamos(…). Todas as viagens têm que ver, como o amor, com sermos tirados de dentro de nós próprios e depositados no meio do terror e do espanto.”

– Pico Iyer, “Why we travel”, Salon

Algarismos para assinalar uma data. Isto porque comecei aqui há dois anos. Num dos primeiros dias de abril. Depois de muitas dúvidas e algumas hesitações. O tempo que passou levou-me a ter muitas certezas. Por exemplo, a de querer ser aqui também. Cada vez mais. Um espaço que nasceu para revisitar tempos que vivi noutros lugares. E ainda para lembrar pessoas, paisagens, cores e tudo o que aprendi e me fez ter vontade de saber mais. Ainda bem que me decidi e que nesse dia aconteceu.

Desde esse dia, aconteceram-me pessoas, novos países, lugares mais pequenos que países… que encontrei porque decidi viajar aqui também. Com o tempo e por causa desta cartografia partilhada conheci pessoas novas, redescobri muitas outras e percebi que os silêncios, o não escrito, também tem lugar aqui neste sítio. Como quando viajo – o invisível e o que não se ouve também têm o seu espaço. Muito obrigada pelos olhos que por aqui passam e ficam por uns tempos para depois voltarem. Alguns desses olhos transformam-se em voz e eu leio-as, sempre muito feliz por isso, nos comentários. Ou ouço-as, quando coincidem com aqueles que me estão próximos.

O que aqui deixo é a parte mais visível das minhas viagens. Nos intervalos entre os textos (que surgem muito espaçadamente, lentamente, a um ritmo vagaroso…) penso nos próximos, revisito as memórias que trago comigo, com uma urgência por vezes diária. E tento trazer para esta cartografia o que vejo, ainda sinto, lembro. E estar aqui é regressar às ilhas que podem ser as viagens. Ilhas dentro de nós.

É como diz a canção de Björk, “Jóga”. As paisagens dentro de nós. Depois de as olharmos com olhos de primeira vez, elas podem integrar-se em nós para sempre. E por elas ansiamos quando não estamos. E sentimos a falta delas. Ou de um detalhe, significativo porque vivido. Momentos em que nos integramos nelas e em que percebemos que as amamos. Algumas de imediato e nem sabemos bem porquê. Outras porque associamos a uma nossa idade mais feliz, à companhia com quem partilhámos as emoções primeiras, ou ainda porque já amávamos as imagens que vimos de cidades, vilas, montanhas, lagos, mares…

A mim acontece-me quase sempre isto: amar os lugares. Amar quase sempre. Não me lembro de verdadeiros desamores. Em lugar nenhum. Há sempre alguma coisa que me fascina, que me faz apaixonar. Pode não ser imediato, mas nem por isso menos verdadeiro ou intenso. Às vezes torna-se um amor tardio, só percetível porque a saudade explica que amamos e não sabíamos quanto. Todas as viagens têm para mim o sabor de um caso amoroso, daí a epígrafe que escolhi para este aniversário celebrado com palavras.

No vídeo desta música de Björk, a cantora aparece numa paisagem da sua ilha natal, a Islândia. A natureza islandesa fragmenta-se, explode em si mesma e depois dentro de Björk. Uma dentro da outra. Na imagem final, a cantora aparece com os seus lugares dentro do peito. Muito próximos do coração, portanto. Assim comigo também e com eles ando para todo o lado. Nos dias todos, pequenos sinais lembram-me esses sítios longe dos olhos. Então viro-os para dentro e lá estão as praças, as igrejas, as escadarias, as fachadas, as torres, os rios, as montanhas, os lagos, o deserto… Há lugar ainda para o que não é lugar: as lembranças das pessoas, de um aroma, de um sabor, de uma música, de sons que não são música, mas que se fazem ouvir e quase que são…

JÓGA, Björk

«All these accidents,

That happen,

Follow the dot,

Coincidence,

Makes sense,

Only with you,

You don’t have to speak,

I feel.

Emotional landscapes,

They puzzle me,

Then the riddle gets solved,

And you push me up to this

State of emergency,

How beautiful to be,

State of emergency,

Is where I want to be.

All that no-one sees,

You see,

What’s inside of me,

Every nerve that hurts,

You heal,

Deep inside of me, oo-oohh,

You don’t have to speak,

I feel.(…)»

Do álbum Homogenic, 1997

O meu mais recente caso amoroso – Marrocos. Já comecei a dizê-lo, mas o “estado de emergência” faz-me querer lá voltar com mais textos…

Marrocos 2 - F1 id1

ASM

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s