Um país que se entranha

Marrocos

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Detalhe do palácio real em Fez

Um país que se entranha…Não encontro melhor formulação para começar a dizer Marrocos. Regressei de lá há pouco tempo e por isso ainda tenho em mim memórias muito vivas do que em Marrocos é mais óbvio e imediato: cores, linhas, aromas, sons, calor…

Enquanto lá estive, começando pelo norte (Fez, mais precisamente) e descendo, calmamente, para uma cidade mais a sul (Marraquexe), pude sentir o calor do deserto e das aldeias pouco povoadas, das planícies cortadas por pistas e pontuadas por árvores raras para os meus olhos. Nunca o meu rosto esteve sempre tão quente como naqueles dias. Nunca os meus lábios estiveram tão secos e gretados, a pedir hidratante. O mesmo com a pele, que ansiava por água. O calor entranhava-se, assim como o ar do deserto. As areias chegaram aos cabelos e aos olhos. Sobretudo durante aquela noite no deserto do Sara, depois de testemunhar um pôr do sol nas dunas de um dourado ondulante…Nunca o meu cabelo esteve tão seco e áspero. Ao tocar-lhe como que sentia o chão que pisava. Lenços ou chapéu eram usados com caráter de urgência, como nunca tinha feito (gosto pouco de cobrir a cabeça…). No entanto, tinha de ser. E que bom que assim tenha sido. Para poder sentir em mim a terra, com tudo o que a faz. Não foi um mero cenário, onde eu, por acaso, estava. Foi muito mais do que isso, foi muito melhor. Foram os cinco sentidos atentos a este país.

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Dunas do deserto do Sara, ao amanhecer

Marrocos penetra facilmente em nós com as suas cores e linhas: dos azulejos que decoram as fachadas dos templos, madraças e palácios, dos tapetes e lenços que as mulheres usam ou das djellabas que muitos homens envergam. Era a minha primeira vez em África e ansiava por conhecer as suas latitudes. Comecei por estas coordenadas, marcadas pelo aroma das laranjas e da hortelã. As laranjas, grandes e sumarentas, marcaram presença à mesa de todas refeições, dado que muitos pequenos-almoços incluíam o sumo e almoços e jantares podiam terminar com uma sobremesa em que este fruto tinha um papel de relevo. 1País_F3 id

O primeiro pequeno-almoço, em Fez.

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Vinda então do norte de Marrocos, por onde comecei, quando entrei em Marraquexe o aroma das laranjeiras que ladeiam algumas das ruas entranhou-se para não mais desaparecer. Assim como o sempre presente cheiro a hortelã, o principal ingrediente do chá mais pedido e bebido por todo o país. Os marroquinos, em copos de vidro transparente, misturam muitas folhas de hortelã com a água e o açúcar abundante. Este chá é ao mesmo tempo um cartão de visita, um ritual de hospitalidade e um abraço aromático que envolve de uma forma calorosa os visitantes. Senti esse calor e o seu aroma, apesar de não o poder beber (motivo: alergia a hortelã…).

1País_F5 id1O vendedor de hortelã, em Marraquexe.

Também nesta cidade, a última que visitei, as laranjas marcaram os dias: na praça Jemaa el-Fna os vendedores de sumos transformam o fruto da cor do sol em copos de uma frescura e doçura que só ali saboreei. Ainda nesta praça e nas minhas últimas horas antes do regresso a casa, foram os frutos secos (amêndoas, amendoins, nozes…) e uns alperces que deixaram lastro com os seus sabores autênticos. Aqui, comprei um pouco de cada para trazer e partilhar com quem não foi…

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Esta praça, vibrante de vida a todas as horas, não deixa ninguém indiferente, moldada pela agitação dos que passam, dos que dançam, dos que cantam, dos que vendem e dos que compram, não sem o tempo dedicado à lenta negociação, dos que leem o futuro nas mãos, ou dos que marcam as mãos com motivos do passado. Imergi neste ritmo vinda da calma das aldeias e do deserto. Cheguei aqui depois de ter visto muita gente que não passa, não dança tão freneticamente e que canta com outras vozes. Vi pastores, vendedores de cogumelos que estão sentados à beira das estradas, nómadas que permanecem ainda que temporariamente, crianças que brincam junto das casas, velhos que estão. Marrocos vive a vários ritmos.

 1país_F8 id1Praça Jemaa el-Fna, Marraquexe.

Nos dias imediatos ao regresso, depois de desfazer a mochila, de lavar a roupa que vinha daquelas paragens e de repor tudo nos seus lugares habituais, deixei para o fim o lenço que usei no deserto. Ainda não tratei dele…Quero poder ter acesso ao cheiro das areias por mais tempo… Ainda permanece, apesar de o cenário já não ser o mesmo. Trouxe isso também comigo. O óbvio e tudo o mais que se entranha. Porque Marrocos é isto e mais.

1país_F9 id1Em Fez.

ASM

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5 thoughts on “Um país que se entranha

  1. Transparece das palavras do teu texto a intensidade e a genuinidade do vivido, olhado, provado, saboreado, tocado, a força de absorção pelos cinco sentidos: por isso se entranha, por todos os poros, reais e emocionais…Gosto muito!

    1. Muito obrigada, Maria José! Já estou a pensar nos próximos textos sobre Marrocos, cheia de vontade de os escrever e de voltar a este país com as palavras…

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