Pintor e poeta

Saint-Paul de Vence, França

Um texto por causa de um dia e de um livro. O dia é o da poesia. O livro foi uma oferta. Neste dia, chegou-me às mãos um conjunto de livros traduzidos por José Saramago. Eram para mim, segundo o meu tio. A juntar a tantos que já me ofereceu, que são umas verdadeiras joias, de raros que são. Um bibliófilo generoso…

Um saco cheio de títulos dos mais variados autores, traduzidos por um autor multifacetado. Um livro mereceu mais atenção que os demais: Panorama das artes plásticas contemporâneas, de Jean Cassou, de 1963. De acordo com as informações, trata-se de uma obra que constitui «tradução integral de Panorama des arts plastiques contemporaines, da colecção “Le Point du jour”, dirigida por René Bertelé e editada pela Livraria Gallimard, Paris». A edição portuguesa é da Editorial Estúdios Cor. Textos sobre a arte contemporânea, nas suas mais variadas expressões: pintura, escultura, artes do espetáculo e arquitetura. Uma lista imensa de artistas sobre os quais são apresentados dados biográficos, tábuas cronológicas, imagens de algumas das suas obras. Ainda textos dos próprios ou de outros que os conheceram ou não, mas que os admiram.

Foi difícil escolher o primeiro nome para saber mais. Ao folhear ao acaso, parei num dos meus favoritos – Marc Chagall. Então demorei-me nas páginas a ele dedicadas. E enquanto as lia lembrei-me da Provença, que visitei há dois anos, sobretudo de Saint-Paul de Vence, onde o pintor viveu os derradeiros dias da sua vida.

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Visitei Saint-Paul após um passeio noturno por Nice, que fica próxima. Não tanto que se faça sentir naquela pequena vila o bulício, a agitação e a profusão de cores luzentes que se vivem nesta grande cidade numa noite quente de verão. Por estar ainda com esta imagem sonora presente em mim, entrei em Saint-Paul sensível ao som vivo de pássaros matinais e ainda ao das muitas cigarras que, em dias cálidos como aquele, cantam… Ao longe, o sossegado Mediterrâneo anunciava a serenidade que domina esta pequena vila.

Saint-Paul fica entre Nice (a 10km) e Cannes (a 30km), na Riviera francesa. Mas no interior, a norte, antes dos Alpes marítimos que acompanham por alguns quilómetros a linha do Mediterrâneo naquela zona do sul. A vila eleva-se numa colina, isolando-se no horizonte e é protegida, desde há séculos de história, por muralhas que a rodeiam, abraçando-a.

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Por companhia, também há muito tempo, tem as oliveiras e os ciprestes. Três destas árvores esguias, juntas à entrada das casas, dão as boas-vindas ao visitante de acordo com a tradição provençal.

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À entrada da vila, o lugar de todos – a pracinha do Café Central. Mesas e cadeiras à sombra das árvores, o terreiro para o jogo da Petanque, que congrega pessoas e amizades. Logo ali cruzamo-nos com aquilo que faz desta vila medieval um lugar singular – a arte. Um sítio e uma obra anunciam o que vamos encontrar mais à frente, dentro das muralhas e ao longo das ruas estreitas – a arte sob diversas formas. Pintores, escultores, artesãos expõem os seus trabalhos, transformando aquela vila num museu de todos e para todos quantos a visitam.

A obra é um gato. Há muitos gatos nas ruinhas de Saint-Paul. Gatos dóceis que anseiam pelos mimos dos que passam.

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O sítio é La Colombe d`Or. Casa para artistas como Picasso, Matisse, Chagall, durante a sua estadia na vila. Ali deixaram algumas das suas criações, também como forma de reconhecer o acolhimento. Por isso, La Colombe d’Or é uma espécie de varanda para a genialidade transfigurada em arte.

Chagall gostou tanto de Saint-Paul que aqui residiu até ao fim da sua vida. Nesta vila construiu uma casa em 1967, com aquilo de que necessitava – três ateliers: um para trabalhos gráficos, outro para os desenhos e ainda um outro para pintura. Aqui viveu com a sua segunda mulher, Vava, que se encontra com ele sepultada, no cemitério da vila. Uma campa simples, com flores e pedras que ainda hoje testemunham a admiração pela sua obra.

Chagall_F5 id1O cemitério da vila. Ao longe, o azul do Mediterrâneo.

Chagall_F6 id1Campa de Marc Chagall.

E porque é o dia da poesia, aqui fica um poema de Marc Chagall, retirado do livro traduzido por Saramago:

A minha terra

Só é meu

O país que está na minha alma.

Entro nele sem passaporte

Como se entrasse em minha casa.

Ele vê a minha tristeza

E a minha solidão.

Adormece-me

E cobre-me com uma pedra perfumada.

Em mim florescem jardins.

As minhas flores são inventadas,

As ruas pertencem-me.

Mas não há casas,

Foram todas destruídas na infância.

Os habitantes erram pelo ar

À procura de um lar.

É na minha alma que vivem.

Eis porque sorrio

Quando o meu sol brilha a custo,

Ou choro como uma leve chuva na noite.

Houve tempo

Em que eu tinha duas cabeças,

Houve tempo

Em que estes dois rostos

Se cobriam de um orvalho amoroso

E se fundiam como o perfume duma rosa.

Agora parece-me

Que mesmo quando recuo

Caminho em frente

Para um alto pórtico

Por detrás do qual se estendem muros

Onde dormem trovões extintos

E relâmpagos despedaçados.

Só é meu

O país que está na minha alma.

Marc Chagall

O poeta do pintor:

[Chagall_F7]

Colombe d’Or: http://www.la-colombe-dor.com/histoire.html

ASM

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