Por outras palavras

Este sítio com muitos lugares dentro existe há quase dois anos. Por estes dias de março de 2011 já andava a pensar neste sítio. A equacionar como seria, para que serviria, se faria sentido. E pensá-lo era já construir esse lugar, onde passei a refugiar-me muitas vezes. Surgiu finalmente no início de abril e foi Paris a primeira paragem que resultou num texto. A seguir vieram mais textos e viagens. A sequência é arbitrária, depois de Paris, dado que desde a primeira palavra imaginada para aqui não senti necessidade de seguir a linha do tempo, organizando os posts de acordo com a cronologia. Deixo-me levar pelo amor aos lugares. A memória dos sítios também não é linear e a sobreposição de tempos é uma constante.

Em cada viagem que faço levo comigo as memórias, às quais se acrescentam outras. Nenhuma se apaga verdadeiramente, quando muito reinventa-se, recebe uma outra camada de experiências que passam a viver no tecido dos dias. Também levo palavras que li de muitos que já escreveram sobre os destinos que procuro e percorro. Às vezes o sentido é o inverso: viajo primeiro, procuro as palavras depois. Acontece muitas vezes encontrá-las precisamente lá, onde surgiram ou então muito próximas do lugar que dizem.

Ao rever os textos que aqui deixei, não são raros aqueles que surgem também por causa de livros, poemas, frases, evocações de palavras de outros. As minhas palavras sobre Nice, Veneza, Verona, Budapeste, Barcelona ou Cacela são disso exemplo. Também já aconteceu comentários dos leitores sugerirem livros, frases, parágrafos de outras cartografias. E cada sugestão é para mim um ponto a acrescentar ao meu mapa. Ainda bem que assim acontece, que a generosidade de quem me lê se traduza em sugestões, palavras outras, roteiros inúmeros.

Por tudo isto lembrei-me de passar a integrar aqui roteiros possíveis para livros, palavras que não as minhas, como forma de assinalar o próximo aniversário. Mas palavras que por alguma razão ficaram, foram integradas na viagem (exterior e interior). Tal como acontece com os lugares, gosto de voltar a essas palavras, a essas cartografias que me levam não só a espaços, mas também às pessoas que os recriaram, ao escreverem sobre eles.

Já me aconteceu essas palavras terem o condão de me levarem a um texto que vai surgindo em mim. Enquanto esse texto não surge, deixarei aqui palavras inspiradoras, imagens recorrentes e espaços que percorro de memória construída ou por vir.

Para começar, um poema de que gosto muito, de um dos meus autores de eleição, Fernando Pessoa.

Citaçoes - Viajar - F. Pessoa - david 028 id1

Na imagem o poema surge enquadrado numa página de livro que fez parte da exposição na Fundação Calouste Gulbenkian – Fernando Pessoa. Plural como o universo. E foi isso que vi na exposição – todos os mundos que Fernando Pessoa tinha em si. As várias vozes que criou para o tornar tangível. E ainda outros que não se veem, de tão íntimos e secretos que serão sempre. Por mais que a arca se desvende, folha a folha, palavra a palavra.

ASM

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2 thoughts on “Por outras palavras

  1. Nos dices, ASM, que “viajo primeiro, procuro as palavras depois”.

    Aquí te dejo unas hermosas palabras de Rubén Bonifaz Nuño, sobre las personas que, como tu, viajan:

    Las gentes que viajan adquieren una
    forma fragilísima de belleza.
    Por algunas horas se transforman en algo
    singular, y viven agudamente;
    descubren extraños sentimientos
    que no sospechaban que pudieran
    tenerse, y caminan como dichosos.

    En las estaciones de los trenes,
    mientras esperaba, he vivido
    horas melancólicamente ricas.

    He visto partir a las gentes,
    y no estaban solas: se sumergían
    en su larga noche de viaje,
    llevando en su sangre la pureza
    que dan las distancias y los adioses;
    pobladas de bocas y de miradas,
    se purificaban como si fueran
    a entrar en un templo o en combate.

    Y he visto regresos y llegadas, abrazos
    de amor entre gentes que no se amaban;
    pero, sin embargo, el amor lucía
    en ellos, brillaba evidente.

    Y los que regresan sin que nadie
    los espere viven también; trajeron
    una soledad más limpia, un tesoro
    de pueblos hallados, de noches descubiertas.

    Y cargan sus viejas valijas,
    y sus bolsas llenas de fruta
    que es igual a la que comen a diario;
    pero que ha de darles un sabor de cosas
    buenas, de placer incomparable,
    al llevarlos, plácidos, al recuerdo
    de los vendedores en el camino,
    de las casas lúcidas en la sombra lejana.

    Y los que regresan y los que parten
    se confunden: todos llevan con ellos
    una sensación de heroísmo,
    una lumbre tenue que se funda
    en su corazón, y se derrama
    y enciende sus rostros atónitos,
    poblados de pérdidas y esperanzas.

    Xavier

    1. Xavier…muito muito obrigada por este poema! Que lindo! E que bom que foi lê-lo depois de mais um dia particularmente trabalhoso e que, por isso, parecia interminável…Não conhecia este poeta, mas já sinto vontade de o ler mais! Gracias gracias!

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