Ragusa, a sobrevivente

Dubrovnik, Croácia

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Quero falar-vos de Ragusa, a lutadora intrépida que mora junto ao Adriático, onde ele é absolutamente azul, com as suas ilhas verdes que fascinaram gregos antigos, romanos conquistadores e ainda encantam viajantes modernos.

Apresento-vos a resistente, aquela que sobreviveu a catástrofes naturais, como aquele terramoto em 1667 que destruiu tanta coisa na cidade (o centro histórico com as suas igrejas, os conventos, os palácios góticos e renascentistas e a catedral românica, que se transformou num monte de ruínas desoladoras). Viveu apesar dos desvarios humanos: ataques, saques e guerras. Quero falar sobre as feridas que o tempo trouxe e que ainda hoje ostenta na pele, orgulhosa das batalhas em que se viu envolvida e que venceu. Para as enfrentar vestiu a armadura de pedra que traz sempre: as suas muralhas, que a rodeiam ao longo de 1940 metros. O nome que traz no seu rosto de rugas milenares é R-A-G-U-S-A. Sons que quando ditos roçam na garganta primeiro e depois adoçam e sibilam no fim, como que a suavizar o seu perfil rochoso e de pedras que, combinadas, resultam em casas, igrejas e pequenos palácios.

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Frescos nas paredes do Convento Franciscano.

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Mas Ragusa é linda, não importa o ponto de onde olhamos para ela. Muito alta a trepar as costas rochosas do monte S.Sérgio e depois a enfrentar a água azul. Projeta a sua silhueta até muito longe e do alto da sua armadura de pedra veem-se as ilhas pequeninas que a rodeiam. Há quem diga que não muito longe dela Ulisses terá ficado cativo de Calipso, durante alguns anos, num paraíso que se oferecia sempre verde, florido e fértil – na ilha de Mljet, por muitos apontada como a possível Ogígia.

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Entrei em Ragusa pela Porta Pile, que dá acesso à rua pedonal que divide a cidade em duas partes – o nome dela é Placa ou Stradun.

Em Ragusa ainda se veem feridas de um passado recente. Muitas já desapareceram das suas paredes, todavia permanecem vivas na memória. Conheci a A., que viu desaparecer as imagens da sua infância, aquelas que estavam espalhadas pelos álbuns fotográficos da família. Junto com as fotografias desapareceram os brinquedos da casa, os jogos que partilhava com os irmãos, as roupas que vestia antes da época em que, tal como Ragusa, teve de resistir. E resistiram ambas. Vestiram-se de coragem e carregam consigo a memória dos dias de paz, com as cores que estavam nas fotos da infância que passou, mas que não desaparece enquanto resistirem.

Há nas ruas da cidade a vontade de não esquecer, porque aqueles anos da década de 90 do século passado deixaram marcas fundas de que ainda se curam os que as têm bem presentes. Logo à entrada, um mapa da cidade com muitos pontos negros lembra os efeitos dos bombardeamentos dos exércitos jugoslavos, sérvios e montenegrinos nos anos 1991 e 1992. Um pintor da cidade expõe ainda hoje fotografias daqueles dias e noites barulhentas de bombardeamentos em que viu o seu atelier invadido por outros pós que não os das tintas, por luzes que não as que registava nas telas, por sons que violentamente invadiram os momentos de concentração e inspiração.

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As memórias da destruição.

Ragusa e os seus resistem, vivem com as feridas e apesar delas. Ragusa dá-lhes a luz que tem nos cabelos de asas que não acabam. Pelo menos foi a possibilidade desses cabelos que imaginei em cada pombo que levantava voo desde o centro de Dubrovnik. Como se fossem todos juntos um vento, inexistente naqueles dias que passei na cidade, que alongava ainda mais o perfil da sobrevivente. Já não ao longo do Adriático, mas para o céu limpo de nuvens e de um azul muito azul. Os braços são os barcos que em cada enseada se veem a chegar ou a partir.

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Mercadinho no Campo de Gundulic.

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 O porto de Dubrovnik.

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Ainda o porto.

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 Uma enseada.

Acordei um destes dias com este texto quase todo na minha cabeça. Aconteceu desta maneira pensar em Dubrovnik com o seu antigo nome, com as memórias da sua história recente nos rostos que conheci ali. A experiência da guerra e da destruição que ouvi relatada na primeira pessoa no cenário que ainda tem as suas marcas. E vi nesses rostos a possibilidade de futuro apesar das feridas. O texto que me acompanhou na cabeça estes dias tinha Ragusa como personagem principal, como se de uma pessoa se tratasse. Em tudo semelhante: memórias, feridas, lembranças e capacidade de resistência. A força para a reconstrução, também, sobre as feridas.

Dubrovnik é considerada, desde 1979, Património Mundial pela Unesco.

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 Aqui, parte das muralhas da cidade. Muitas das fotografias que acompanham o texto foram tiradas enquanto as percorria.

ASM

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