Como o primeiro

Paris, França.

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Claude Monet, «Série des Nymphéas», Le matin clair aux saules (détail),1914-1926. Photo RMN(Musée de l`Orangerie) / H. Lewandowski.

Foi como num primeiro grande amor. Com o fulgor e o ardor por dentro, que se sentem quando se ama muito pela primeira vez. Em tudo semelhante. A vontade permanente do próximo encontro, a crescente certeza de amar ao ritmo do conhecimento que se aprofunda com o tempo e com a multiplicação dos encontros. Depois daquele fulgor, vieram a calma e o desejo de saber mais e de conhecer melhor o que se ama.

A confirmação deste primeiro amor veio com o tempo, mesmo depois de outros amores, mas sem a inocência de que se reveste o primeiro grande. Porque os outros lhe são sempre posteriores e por isso o primeiro nunca se desvanece completamente. Ainda que os dias e os anos passem e outras imagens preencham os olhos.

Assim foi com Claude Oscar Monet (1840-1926), o primeiro que amei na pintura. Lembro-me do primeiro encontro, durante a minha primeira vez em Paris, numa visita ao Museu d’Orsay. Eu tinha 16 anos, o museu tinha inaugurado dois anos antes e mostrava-se como um magnífico resultado de uma metamorfose: de estação ferroviária para espaço museológico. Um grande espaço luminoso, com a sua grande nave, com o seu relógio dourado enorme. A marcar os tempos: do passado, quando aquele espaço era uma importante estação, símbolo da vitalidade e prosperidade da cidade de Paris, construída para inaugurar em 1900 por ocasião da Exposição Universal; do presente, agora museu, guardião das mais proeminentes obras dos artistas que marcaram os finais do século XIX e princípio do século XX (as obras que alberga datam do período 1848-1914). Recordo-me ainda do ardor nos olhos, tanta era a luz a sair das telas de Monet.

Nas telas de Monet, a realidade é iluminada pelo sol em vários momentos do dia. Percebi depois que tudo começou com “L´impression de soleil levant” (1872), ao fim de um dia para ele, no porto do Havre. Foi o início de um movimento para muitos. Também vi alguns quadros dos outros artistas que partilharam com Monet a nova abordagem na pintura, mas confesso que nenhum me marcou tanto como ele, naquele dia. Camille Pissarro, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley, Edgar Degas também lá estão representados, mas foi com Claude Monet que percebi melhor em que consistiu a grande novidade da pintura “au plein air” – sair para a rua com os pincéis, as cores, a tela e a paleta. Procurar a luz sobre os campos, as praias, as ruas, refletida nas fachadas, nas estações de comboios, nos lagos, nas águas dos rios. Dedicar tempo a pintar a luz. Foi o que ele fez. Muitas vezes, o mesmo motivo a várias horas do dia, por exemplo, na série das medas de feno, da catedral de Rouen ou das “Nymphéas”. Com ou sem a presença humana. Exercícios sobre a cor, a luz sobre os elementos, os jogos que ela faz com as sombras. Captar e registar na tela as impressões, através de pinceladas rápidas, para fazer coincidir o tempo da luz com o tempo do seu registo na tela. Pintar a fugacidade da natureza, no meio dela. Dar cor à luz e às sombras. Eternizá-las nos quadros. Algumas vezes, trabalhavano barco que se tornou estúdio e que lhe permitia deslizar sobre o próprio tema do quadro. A tão amada água, que possibilita o reflexo, a dissolução das formas que se multiplicam, a fluidez da luz. Daí as séries de Londres, com o Parlamento, o Tamisa e o céu londrino e de Veneza, a cidade líquida. Com os quadros de Claude Monet, compreendi melhor a beleza daquela cidade italiana, a sua irrealidade e o prenúncio constante da sua morte. O fim sempre iminente transparece nos quadros com cores que fluem ao ritmo das águas venezianas. A beleza tão irreal dos palácios, das igrejas e das pontes desta cidade, que parece desaparecer para depois emergir ainda mais intensa. Gosto muito do olhar de Monet sobre os palácios venezianos que se debruçam sobre a laguna, sobre aquelas águas calmas, escuras, que renascem com os reflexos das fachadas que a luz solar permite.

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Claude Monet, Femme à l`ombrelle tournée vers la droite|la gauche,1886. Edição de Musée d’Orsay.

Numa fase da sua vida, em 1883, Monet mudou-se com a família para Giverny, na Normandia, a 80 km de Paris. Ali criou o seu famoso jardim, plantou árvores, flores, construiu pontes de inspiração japonesa, para ele tão delicadas e atrativas. Os seus dias eram preenchidos com os cuidados dispensados ao seu jardim e ao olhar que lhe dedicava. Durante horas, dias, anos. Esses jardins em Giverny inspiraram-no e dele surgiram as “Nymphéas”, os nenúfares que quis ter nos lagos e que observou a diversas horas dos dias. A série das “Nymphéas”(criada entre 1895 e 1926) é o resultado da observação direta e de um trabalho de memória do pintor no seu atelier próximo do motivo dos quadros. Ainda não fui a Giverny. Sei que sim, que lá irei um dia.

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Monet devant le bassin des Nymphéas; au fond, le pont japonais. Photo RMN, Musée de l’Orangerie.

Já visitei a Gare de Saint-Lazare e imaginei-a com os olhos de Monet, que a regista numa série, onde se vê também a força das máquinas recentes que eram os comboios. Adivinhei o fumo e nevoeiro das manhãs agitadas na estação parisiense e que ele tão bem sugere.

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Claude Monet. La gare Saint-Lazare, 1877. Edição de Musée d’Orsay

Recentemente fui a Rouen para ver de perto a catedral gótica à frente da qual o pintor esperou pela luz das horas que lhe deram sombras distintas das torres altas e góticas e sobre as fachadas, de um gótico flamejante. A catedral sob a luz da aurora, da manhã, em pleno sol ou ao crepúsculo. Durante dois anos de contemplações prolongadas.

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Detalhes da catedral de Rouen

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Durante esta viagem por algumas regiões de França, dediquei uma manhã em Paris para ver as “Nymphéas”, no Musée de l’Orangerie, nos jardins das Tulherias.

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Eu queria muito lá ir, ansiava por esse reencontro com Monet. Depois de uma longa caminhada que começou bem cedo pela manhã daquele dia, entrei no jardim das Tulherias, depois de passar pela praça da Concórdia e de muitas fotografias. Gosto muito deste jardim parisiense e naquela manhã estava um sol que iria iluminar este encontro. O sol não desapareceu, nem mesmo quando estava dentro do museu. Isto porque no interior da galeria das “Nymphéas” as paredes são brancas, o chão é branco e o teto parece estar revestido por um tecido translúcido, que deixa passar o sol. Há mais salas neste museu e mais pintores representados, como: Pierre-Auguste Renoir, Paul Cézanne, Paul Gauguin, Modigliani, Henri Rousseau, Maurice Utrillo e Pablo Picasso. Visitei essas salas depois de Monet. Não consegui adiar esse momento do reencontro para depois de todos os outros.

Quando entrei nas salas brancas de Monet, onde estavam mais visitantes, o ambiente silencioso e claro envolve-nos, como se fosse parte integrante das telas. Há bancos no centro das salas onde podemos estar o tempo que quisermos, com tempo de ver a luz do tempo a passar pelas telas. A luz que vem de cima ilumina as águas dos lagos de Giverny. Não conseguimos esquecer as outras águas, tão próximas dali – as do rio Sena. Por isso a fluidez entra nas salas brancas e torna ainda mais difusas as “Nymphéas”.

Antes de entrarmos, lemos:

«… les nerfs surmenés par le travail se seraient détendus là, selon l`exemple reposant de ces eaux stagnantes, et, à qui l`eût habitée, cette pièce aurait offert l`asile d`une meditation parsible au centre d`un aquarium fleuri…» Monet. Monet_F8

Claude Monet, « Série des Nymphéas »,1914-1926, Sala 2. Photo RMN, H. Lewandowski

Enquanto lá estamos, a olhar, sentimos e percebemos o que quis dizer e fazer. Fruto de um trabalho demorado, as “Nymphéas” dão corpo à subjetividade que a arte do impressionismo sublimou. Ajudam a perceber todo um programa, uma sensibilidade, um olhar. Segundo Monet, « Le motif est quelque chose de secondaire, ce que je veux reproduire, c’est ce qu’il y a entre le motif et moi ». Demorei-me muito naquelas salas e pude ver as diferentes estações do ano refletidas nas águas, as brisas, as sombras, os movimentos das folhas, das águas, as formas difusas, as pinceladas breves e rápidas, os matizes dos rosas, dos verdes, dos azuis…E o tempo do olhar demorado do pintor, “au plein air” e depois no atelier, onde a memória guiou os pincéis.

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O jardim das Tulherias, com o museu ao fundo

Falta-me o museu onde está o maior acervo das obras de Monet, o Musée Marmottan, também em Paris. Preciso de mais do que um dia, com toda a certeza. A sua pintura exige calma, tempo e horas diferentes do dia para ser apreciada. Não só por causa da luz sobre os quadros, também devido ao nosso ânimo a diferentes momentos do dia. Quero experimentar isso mesmo.

Este é um amor que perdura, apesar de ser o primeiro. É com ele em mim que posso amar outros. É por causa dele, também, que amo uns e não outros. Surgiu na minha vida muito cedo, ainda adolescente, e determinou muito o que se lhe seguiu. É bom quando ainda amamos com o mesmo ardor, apesar do tempo que passa. A impressão da luz inicial ficou, permaneceu indelével em mim.

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ASM

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2 thoughts on “Como o primeiro

    1. Obrigada, Xavier! Soube-me especialmente bem ler este seu comentário, porque o fim de cada texto é a parte que mais me custa, a mais demorada…Se este fim foi o princípio do que partilhou, valeu mesmo a pena escrevê-lo!

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