Como no cinema (2.ª parte)

Bolonha, Itália

Cena 4

Coração que bate|Cuore che batte

Ainda esta cena, eu ainda aqui, pois antes do intervalo estava sentada no Bar Giuseppe (naquela praça desde 1805) a admirar a fachada de São Petrónio e do Palazzo dei Notai. Bologna2_F1 id2

A basílica é um dos muitos edifícios que fazem a praça principal da cidade. Nesta praça, os vários poderes, o sagrado e o profano, reúnem-se em redor do espaço público. A religião, a política, o direito e o sempre presente motor que é a economia. É só associar as fachadas que vemos à função dos edifícios ali construídos: saindo da basílica, temos em frente o Palazzo del Podestà, a primeira sede do governo da cidade (sob cujas arcadas eu olhava); à direita, o Palazzo dei Banchi (o último a ser construído), onde outrora os cambistas e banqueiros se dedicavam a um ofício próspero; à esquerda, mesmo ao lado da basílica, o Palazzo dei Notai, onde os tabeliães, notários e demais funcionários da justiça tratavam de fazer coincidir os interesses dos cidadãos com as leis da Comuna.

Bologna2_F2 id2O Palazzo del Podestà, com a sua torre.

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Sob estas arcadas veem-se o Palazzo dei Notai e parte da fachada de São Petrónio.

Para finalizar o conjunto, o Palazzo d’Accursio ou Comunale, onde é exercido o governo da cidade. A torre  tem o mesmo nome e um relógio que marca os tempos das várias idades de Bolonha.

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Sempre gostei de História e dos seus segredos não escritos, escondidos, não revelados. Das pequenas histórias que marcam a História. Sob estas arcadas, nesta grande praça, não faltam cenários para essas narrativas com personagens misteriosas, hábeis, atentas, mais ou menos cruéis ou generosas…Com biografias que ficaram de fora de todos os romances, filmes e biografias que se possam escrever. Andaram por aqui. Pararam aqui. Para depois retomarem e seguirem em frente num caminho só delas, mas que fizeram desta cidade o que ela é.

Cena 5

Um novo lugar na minha memória | Un nuovo luogo nella mia memoria

Esse novo lugar de Bolonha em mim é uma praça. Não tão grande como a Maggiore, nem com linhas tão previsíveis. É a praça de Santo Stefano e não estava ainda na minha memória. Não me recordo de lá ter ido na minha primeira visita a esta cidade. Se tivesse acontecido, jamais teria esquecido, de tão bonita que é. E recolhida da agitação. Com um desenho invulgar para uma praça. Cheguei a ela depois de ter deixado a praça central e de ter percorrido caminhos de arcos.

Até lá, muitas arcadas com colunas e capitéis de desenhos diversos. Bolonha parece assentar numa rede de arcadas que liga os palácios, evitando assim a solidão de cada um deles, se fossem pessoas. Estão ligados, ainda que não quisessem. Parecem completar-se, resultantes de épocas, governos, famílias e riquezas diferentes. E no entanto, parecem coexistir em harmonia. Assim os vi, assim os registei nos olhos. Bologna2_F5 id2Caminho de arcadas até Santo Stefano.

A praça é esta:

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Parece um triângulo vista assim, com palácios em volta e arcos que se prolongam para lá do horizonte do nosso olhar. À direita da imagem, o Palazzo Isolani: segundo a História, a sua fachada espelha a transição do gótico para o renascimento toscano. Eu gostei particularmente das suas janelas, daquelas seis em sequência, e dos capitéis coríntios.

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Então quis aproximá-las de mim.

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A praça Santo Stefano recebeu o nome da basílica, que reúne um conjunto de sete igrejas. Este complexo sagrado constitui o mais antigo monumento bolonhês. O primeiro projeto data de 983 e, com o tempo, congregou num mesmo espaço vários estilos.

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A fachada da basílica que dá para a praça.

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A praça é naturalmente um ponto de paragem. E a sensação é muito de ter feito uma viagem no tempo, se isso fosse uma realidade tangível.

Cena 6

Dois ícones e uma livraria| Due icone e una libreria

Lembrar-me de Bolonha é não esquecer dois ícones: a universidade (a primeira de toda a Europa) e as duas torres medievais: Asinelli e Garisenda. A primeira é a mais alta, do alto dos seus 97,6m desde o século XII. Garisenda tem pouco mais de 61m. Ambas marcam o poder e o prestígio das famílias que nelas habitavam: quanto mais poder detinham, mais altura possuíam estas casas-torre.

Lembrava-me perfeitamente delas. A imagem que consegui captar foi esta. Apesar de cortadas, gosto das torres assim. Parece que não acabam, principalmente a Asinelli. Afastei-me até ao limite possível, encostando-me ao edifício que alberga a livraria Feltrinelli. Uma livraria que ocupa um edifício antigo e onde gostei de entrar. As secções dedicadas ao cinema e às viagens são imperdíveis.

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A Universidade de Bolonha foi fundada em 1088. Começou quando mestres em Gramática, Retórica e Lógica se dedicaram também ao estudo do Direito. Começou por concentrar-se num espaço não muito longe da Piazza Maggiore, mas o tempo fê-la crescer e expandir-se para lá desses limites. Assim como o conhecimento a que se dedicavam todos os que por lá passaram e passam. E de entre os nomes do passado, contam-se Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Coluccio Salutati, Paracelso, Torquato Tasso e Carlo Goldoni. Hoje outros nomes continuam a tradição que já conta com mais de 900 anos.

Por altura da celebração do número redondo, em 1988, reitores de 430 universidades de todos os continentes subscreveram a “Magna Charta Universitatum Europeum”, reconhecendo desta forma o berço que esta universidade constituiu para todas as outras.

Cena 7

Detalhes de Bolonha | Dettagli di Bologna

Os filmes são também eles feitos de pequenas coisas, de pequenos apontamentos cenográficos que merecem atenção. Apenas a sua dimensão é reduzida, pois o seu significado, o seu valor e o que podem trazer para a narrativa das imagens é incomensuravelmente maior. Assim é com todas as cidades que têm em si inúmeras narrativas. Por isso lá estão, por isso foram escolhidos em detrimento de outros.

Bolonha merece ser olhada também com essa atenção aos detalhes. Eles também ajudam a entender a cidade. E entender uma cidade é conhecer as pessoas que a fazem todos os dias.

Eis alguns pormenores que me atraíram, apesar do conjunto, do grande e do pequeno misturados, poder distrair os mais incautos.

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Uma rua deserta, porque a hora era de muito calor, e as omnipresentes arcadas.

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Uma entrada para um prédio. Sob arcadas. Durante o tempo da fotografia, a oportunidade de testemunhar a saída de um dos moradores. Afinal um cidadão comum do século XXI e não alguém de outras épocas, dadas as reminiscências que a porta sugere…

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Duas ruas estreitas que se encontram, lojas e restaurantes. Mas interessou-me mais a vespa que parecia deixada ao acaso, o candeeiro e a indicação de “sapateiro”|”calzolaio”.

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Mais janelas de um edifício do qual não sei o nome. Visto ao ritmo da caminhada pela cidade. Justificou uma paragem e uma aproximação.

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Uma livraria que continua fora de portas. As arcadas protegem os livros, assim como estes expositores que mais parecem cofres que guardam uma riqueza inigualável. Pareceu-me um cenário de um filme com perseguidores e perseguidos, com escritores incompreendidos e amantes sofredores devido a amores infelizes. Também cenas com revolucionários, protagonistas que se rebelaram contra o sistema, o “status quo” vigente que não tem de o ser para sempre. Daí os livros, testemunhas das perseguições que não acabam, das palavras incompreendidas, dos amores proibidos e dos gestos transformadores.

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Aqui foi o conjunto simétrico das linhas dos arcos e das colunas que me fizeram parar. Ainda o corredor urbano em curva.

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O último grande pormenor que me vai ajudar a escrever a próxima cena. Alguém decide se valerá a pena regressar à praça naquela noite. Durante várias tardes e noites, as estrelas do céu e dos filmes coincidiram na Piazza Maggiore, na companhia de quem quisesse, a custo zero, revisitar ou ver pela primeira vez grandes nomes do cinema.

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Última cena | Ultima Scena

Noite Branca |Notte Bianca

O fim do filme coincide com as derradeiras horas na cidade. Com as memórias efervescentes do que aconteceu entretanto.

E o último pormenor ajuda a perceber aquele muito presente nas fotos da praça principal: o de uma cadeira alinhada ao lado de centenas delas. À luz do dia que preparava a noite. Branca, a noite, porque só no céu é que não havia luz. Ela estava espalhada pelo interior das igrejas, dos museus, dos palácios, dos restaurantes e cafés com as suas esplanadas. Essa luz era procurada por quem não saiu na tarde daquele dia quente de verão, à espera que estava daquela noite clara e fresca. E musical, dançante e cheia de imagens que chegavam de todos os espaços onde era possível desfrutar da arte. Fosse ela qual fosse: a música, a dança, o teatro, o cinema, a que estava guardada nos museus da cidade. E ainda a arte do feliz convívio, em que cada cidadão assume o seu papel único.

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Música e canto fora de portas.

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Museus abertos e gratuitos.

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As ruas de Bolonha encheram-se de pessoas à procura do belo, nas suas mais variadas formas. Na ânsia da procura, deixaram-se invadir pelas notas da música, pelos movimentos dos bailarinos, pela voz dos coros que no interior das igrejas ressoavam como em nenhum outro lugar.

Melodias a saírem de um instrumento em tudo parecido com um piano, mas que não precisa das mãos humanas e de onde saem sons de outros instrumentos. Apenas as mãos para ativarem, por meio de uma manivela, a música que dali sai.

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Entravam famílias inteiras nos museus da cidade e alguns escolheram a praça maior, porque às 10 horas daquela noite ia ser projetado o filme de Ingmar Bergman, “Sorrisi di una notte d`estate” | “Sorrisos de uma noite de verão”. Para todos. Era só sentar numa das inúmeras cadeiras que já lá estavam desde cedo, à espera. Ou então de pé, porque havia vontade de ver e sentir outra coisa que acontecia noutro lugar da cidade num momento logo a seguir e havia pressa de chegar.

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Tudo isto em Bolonha, como no cinema.

Fim|Fine

ASM

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4 thoughts on “Como no cinema (2.ª parte)

    1. Gracias!!!! Fico feliz por saber que encontra nas minhas palavras uma visão pessoal, interior, de cada viagem que faço/vivo. Sempre desejei isso para este espaço e cada texto que escrevo é uma tentativa. A leitura e comentários do Xavier tornam bem visível o meu segundo desejo – o de partilhar 🙂 Obrigada!

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