Como no cinema

Bolonha, Itália

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Bolonha foi a primeira cidade italiana que pisei, literalmente. A minha primeira viagem a Itália (sobre a qual já escrevi : Ravioli alla nonna) começou exatamente aqui, já que o avião aterrou no aeroporto da cidade. Segui imediatamente para Forlì, que não fica longe. Ambas se situam na região da Emilia Romagna. Lembro-me de dias depois voltar a Bolonha e de um dia da minha vida ter sido passado à descoberta desta cidade. Durante a minha estadia nesta região, fui também a Rimini, uma cidade perto do mar Adriático, não muito longe de Bolonha, mas sobretudo próxima dos afetos dos bolonheses e do seu desejo de sol, água e azul. Eu voltei a Bolonha recentemente, quando estive em Florença. Aterrei naquela cidade e dali segui de comboio para a cidade toscana. O regresso também era via Bolonha e por isso dediquei o último dia da viagem a revisitá-la. Quando percorria as suas ruas, fui aos poucos redescobrindo uma Bolonha que perdurava na minha memória de forma muito marcada. Foi ela a minha primeira grande cidade italiana, a minha primeira Itália. Certos traços que desenham este país estão aqui muito presentes. Tudo o que possa escrever sobre esta cidade é sempre um misto de duas idades na minha vida. Nesse intervalo, fui conhecendo melhor Bolonha e preenchendo as memórias que guardo dela.

Ainda nesse intervalo, vi o filme de Federico Fellini, Amarcord, de 1973, com o qual o realizador obteve o Óscar para melhor filme estrangeiro. Neste filme, o realizador concentra a história de Itália nos anos 30 do século XX em Rimini, sua cidade natal. Retrata a vida quotidiana, atravessada pela política, religião, amor e desamores sob a perspetiva de um jovem. A sua juventude cresce no seio da sua família, mas também naquela cidade que, como muitas outras cidades italianas, é marcada diariamente pela política de Mussolini, pela opressão da igreja católica e pelo fascínio que o cinema exerce em todos. Um filme com um título evocativo de uma expressão em dialeto “romagnolo” – “a m`acord”, isto é, “io mi ricordo” (eu recordo-me). Uma longa narrativa nostálgica de uma vida que se desenrola aos nossos olhos e que é também a história de um país. Uma evocação saudosa. Que é também a minha, quando penso nesta segunda vez em Bolonha. Um misto de novidade e de recordação. Com saudades. Só me apercebi da sua verdadeira dimensão ao percorrer as ruas e as arcadas desta cidade, que parece a todo momento o cenário para todos os filmes que quisermos. O meu caminho aqui evocado mais não é do que um conjunto de notas sobre os cenários para um filme. Com uma história por completar. Começou naquela primeira viagem, prosseguiu nesta última. Não quero, no entanto, que o fim seja definitivo. Tal como no filme de Fellini, a história individual que se deixa entranhar pela História. É o que acontece, inevitavelmente, em Bolonha. Chegam a nós sussurros de um passado que construiu o presente de uma cidade orgulhosa da sua história, das suas lutas e da sua cultura. Que está bem viva nos seus caminhos. A todas as horas do dia e da noite. Bolonha é o cenário que conta a sua própria biografia e é perfeito para a narrativa da história de todo um país. Segue-se então a memória reconstruída de Bolonha. Uma memória que permanece há exatamente 20 anos. Sob a forma de notas, num cenário cinematográfico.

Amarcord ou as memórias
Cena 1

A chegada| L`arrivo

Naquele último dia da viagem, cheguei à cidade de comboio. Uma ligação fácil, curta no tempo e rápida. Pouco mais de meia hora desde Florença. Um dia inteiro antes do regresso a Portugal.

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Saí do comboio e percebi que estava muito perto das memórias. Passado e presente a acontecerem ao mesmo tempo em mim.

A estação central de Bolonha está muito próxima de uma das dez portas da cidade (antes eram doze e unia-as uma muralha defensiva), a porta Galliera. Entrei então por ali em direção ao centro, ao coração
da cidade.

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Porta Galliera

Cena 2
Sob a sombra das arcadas|Sotto l`ombra dei portici

A seguir à porta, recebem-nos as intermináveis arcadas da cidade. Estendem-se por quase 40 quilómetros, cidade fora, cruzando-se, por vezes, desenhando curvas ou prolongando-se duas a duas em paralelo. Protegendo da neve, da chuva, do calor. Naquele domingo de verão era do calor que fugia, procurando a sombra. O calor era abrasador e naquela tarde eram raros aqueles que arriscavam um passeio “sotto i portici”. Eu arrisquei.

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Ruas desertas…

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…mas que parecem ter em si todas as possibilidades de histórias. Num cenário com cores que se prolongam no espaço. Arcos depois de arcos…

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Andei sob muitas das arcadas desertas de gente, mas cada vez mais preenchidas com as minhas memórias. Arcadas muito diferentes: nas cores, nos pilares que as sustentam. Com tetos lisos de uma só cor, outras coloridas e trabalhadas.

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Cena 3

Sede|Sete

Apesar das arcadas, o calor era muito forte e quase me senti incapaz de continuar. Tive de fazer algumas pausas, para acalmar a sede que crescia ao ritmo dos arcos percorridos. Queria chegar ao centro da cidade, ao núcleo de onde irradia a história de Bolonha, inscrita nos seus palazzi, nas suas igrejas e praças. Até lá chegar, passei pela praça de Neptuno.

Bolonha_foto_9.JPG id1A fonte homónima foi inaugurada em 1564 e é da autoria de Giambologna, escultor flamengo. O edifício que se vê por trás da fonte é o Palazzo Re Enzo, do século XIII. Esta era talvez a imagem mais viva que tinha da minha primeira Bolonha. Recordo-me bem de ter ficado impressionada com a dimensão do deus pagão, com as cores da praça que dá as boas-vindas a quem chega e que anseia pelo que vem depois – a Piazza Maggiore, com os seus palácios, a basílica e mais arcadas.

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A tão ansiada água.

Numa das pausas, um gelado foi a melhor parte do calor. Foi já na praça maior, em frente à Basílica de São Petrónio. Bem no centro da cidade, onde bate o seu coração.

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Cena 4

Coração que bate|Cuore che batte

Bolonha_foto12 id1Aqui, sob estas arcadas, saboreei o merecido gelado. Estas arcadas fazem parte do Palazzo del Podestà, a primeira sede do governo da Comune di Bologna. Noutros tempos, sob estas arcadas, havia espaço para mercadores e artesãos venderem os seus artigos. Do outro lado da piazza, era isto que via – a Basílica de São Petrónio.

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A sua construção é dedicada ao patrono da cidade, São Petrónio, e pretendia ser uma afirmação do poder autónomo da cidade em relação ao poder da Santa Sé, sediado em Roma. O seu projeto inicial(data de 1390), da autoria de Antonio Di Vicenzo, previa uma igreja maior que a de São Pedro em Roma, tornando-se assim a maior da Cristandade. Mas o Papa impediu a concretização desse projeto, mandando construir o Palazzo dell`Archiginnasio, numa praça próxima da basílica, reduzindo consideravelmente o espaço para a edificação. A fachada ficou por completar. O que se vê na fotografia sobre parte da fachada é uma tela, dado que estavam em curso trabalhos de restauro. Em Itália há sempre alguma coisa em restauro: um edifício por inteiro, uma fachada, uma estátua, um quadro…

INTERVALO
(Continua)

ASM

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