Uma espécie de asas

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Gosto muito, mesmo muito de pontes. Gosto de parar e de as olhar de longe e de perceber o desenho que formam no seu conjunto. Olhá-las desde diferentes pontos, percorrê-las e olhar as águas dali. Gosto tanto delas, que me interesso também pela sua história. Em Moscovo, comprei este livro sobre as pontes de uma outra cidade que tinha visitado – São Petersburgo.

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Pontes são como asas nos pés e atravessá-las é voar para o outro lado das águas. Imagino esta possibilidade: a de alguém, no princípio de muitas coisas que ainda não existiam, ter pensado em construir essas asas. Chamou depois outros para partilhar essa ideia que provavelmente surgiu no pensamento de muitos ao mesmo tempo, em muitos sítios com muitas águas que era preciso transpor. Com o tempo, as pontes que são asas tornaram-se maiores, movediças, com várias plataformas, para nelas passarem pessoas, animais, carros, comboios… São feitas agora de muitos materiais. São agora altas, largas, compridas, muitas delas quase não cabendo nos nossos olhos na totalidade. Passamos também por baixo delas, de tão em cima que estão. Asas que ficam a meio caminho do chão e do céu.

Alguns artistas foram chamados para as tornarem belas ao olhar. Para que o voo sobre as pontes fosse muito mais do que uma mera passagem.

Lembro-me bem da história trágica que me contaram sobre a ponte das Correntes em Budapeste: as duas entradas desta ponte são ladeadas por um par de enormes leões. Tornam essas entradas numa antecâmara solene para o que depois virá. Na verdade, a panorâmica que se tem de Buda, de Peste e do Danúbio é inesquecível de tão bela. Os leões estão lá e olham de muito alto tudo o que se passa. Esta ponte (Széchenyi Lánchíd) foi construída na primeira metade do século XIX, tendo sido projetada por um inglês, William Tierney Clark, e construída por um escocês, Adam Clarke. Foi a primeira ponte permanente sobre o Danúbio e impressiona pelas suas dimensões – 380 metros de comprimento com duas grandes torres. Os leões de pedra que a guardam foram esculpidos por János Marschalkó. Parece que desde a inauguração da ponte as pessoas tudo fizeram para ver a língua de cada um dos leões. Em vão, diziam, porque os leões não possuíam língua. Então a história lendária diz que János, com o desgosto, se terá atirado ao rio, não sobrevivendo às forças da corrente. Apesar da sua difícil visibilidade, as línguas estão lá. A ponte foi reconstruída por duas vezes, a última das quais na sequência dos bombardeamentos durante a II guerra mundial, mais precisamente a 18 de janeiro de 1945.

Outra ponte inesquecível é a dos suspiros, em Veneza. Uma ponte fechada, em estilo barroco, toda feita de pedra de Istria. Pode-se admirar a Ponte dos Suspiros de uma outra, a Ponte della Paglia, uma das mais percorridas na cidade. Quase tudo em Veneza se vê desde uma ponte… A Ponte dos Suspiros foi construída no século XVII, precisamente para ligar dois espaços – o Palazzo Ducale, onde ocorriam os julgamentos, e o Palazzo delle Prigioni, para onde eram levados os condenados. A ponte tem dois corredores internos separados e duas janelas em cada lado. Era por elas que os condenados viam, pela última vez, a laguna e a ilha de San Giorgio. Eram elas as últimas testemunhas da sua tristeza suspirada. Daí o nome.

Uma outra ponte da cidade é a de Rialto, que tem dentro de si lojinhas e muitas vezes um mercadinho permanente. O Rialto é a ponte mais antiga construída sobre o Canal Grande. Já foi levadiça, para deixar passar as embarcações mais altas. Também já foi toda de madeira, como os barcos que sob ela cruzavam as águas. No final do século XVI, uma reconstrução deu-lhe roupagens de pedra.

Há uma ponte muito recente em Veneza, projetada por Santiago Calatrava, inaugurada em 2007. Ainda não a conheço. Ainda, mas vou querer vê-la e ver a cidade através dela. É feita de muito vidro, que deixa passar a luz. Do céu e da água. Os reflexos a todas as horas do dia. É a quarta ponte no Canal Grande (para além da do Rialto, da Ponte dell`Accademia e da Ponte degli Scalzi).

Foi muito difícil selecionar as fotografias que completam este texto. Tenho muitas pontes no meu arquivo…A dificultar a tarefa, acresce a circunstância de gostar de fotografar a mesma ponte em perspetivas diferentes. Enfim, deixo aqui uma amostra desse meu arquivo com pontes, que mais não é do que uma parte do meu olhar sobre elas.

Durante os meus dias em Florença, sobre os quais já escrevi (aqui: https://cartografiapessoal.wordpress.com/2012/07/), a Ponte Vecchio mereceu travessias várias a diferentes horas do dia e da noite. Esta ponte foi a única que não foi destruída durante a segunda guerra mundial, graças à intervenção de um cônsul alemão que vivia nesta cidade italiana, que tudo fez para a preservarem do fim. Trata-se de Gerhard Wolf, que intercedeu em nome do valor histórico desta ponte. Contra a destruição e o apagamento da história que ela encerra. A sua ação é recordada na ponte que salvou, numa placa que o lembra como um cidadão muito querido na cidade.

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Até lá chegarmos, vindos dos Uffizi, passamos por um corredor que acompanha o leito do rio Arno e que fica por baixo do corridoio vasariano. Deixo agora uma imagem noturna de um detalhe das lojas que ladeiam a ponte.

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Hoje veem-se ourivesarias e joalharias. Esta ponte é a mais antiga construída sobre o rio Arno e foi destruída pelas cheias de 1117 e de 1333. Na reconstrução de 1345, edificaram-se três grandes arcadas em pedra. Foi destinada ao comércio de carnes e legumes, sobretudo. É na segunda metade do século XVI, com Cosimo I no governo da cidade, que a ponte adquire o aspeto mais próximo do atual: as carnes e os legumes dão lugar às criações dos ourives e joalheiros e é construído o corredor que tem o nome por causa do seu criador: Giorgio Vasari.

Em Verona, deixei-me encantar pela ponte de ameias em forma de cauda de andorinha: é a ponte Scaligero e faz parte do castelo fortificado Castelvecchio.

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Construída com tijolos vermelhos e mármore branco, nos primórdios da sua existência apenas tinha entrada pelo castelo que era também fortaleza. O rio Adige corre sob as suas arcadas. As ameias indicavam a quem chegasse à cidade, vindo de longe, que ali encontraria proteção por parte daqueles que se opunham ao Papa, em nome do imperador, os Gibelinos. Numa época em que confrontos entre esta fação e a dos Guelfos motivaram exílios (como o de Dante Alighieri, longe da sua amada Florença, que o levaram a outras cidades italianas, entre as quais Verona), perseguições, guerras e mortes no território italiano.

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Uma das margens que a ponte de Innsbruck, sobre o rio Inn, une. O nome da cidade significa literalmente a “ponte sobre o Inn”. Esta ponte está sobre um rio de um verde como eu nunca tinha visto, um verde água espesso e baço, de uma corrente fortíssima.

Em São Petersburgo, durante uma viagem de barco pelos seus inúmeros canais, passei por várias pontes.

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Esta é a ponte Pevchesky, sobre o rio Moika. As pontes de São Petersburgo ostentam gradeamentos belíssimos, em ferro, que pode ter várias cores.

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Gostei imenso desta e da oportunidade de a ver desde a água. É a ponte Troitsky (Trindade), sobre o rio Neva. De um verde seco, tem 582 metros de comprimento e uma estrutura em ferro impressionante.

Na Normandia, sobre o Canal de Caen, há uma ponte alada no seu nome, que conta uma parte importante do desembarque das tropas aliadas, na madrugada do dia 6 de junho de 1944. É a ponte Pégaso (Pégasus), que deve o seu nome à insígnia do uniforme dos soldados britânicos aerotransportados naquela madrugada.

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A ponte fica em Bénouville, muito perto da primeira casa a ser libertada do jugo alemão – o café da família Gondrée, que agora é também um museu. É ainda propriedade da família, mais propriamente da menina que, aos seis anos, testemunhou este episódio decisivo: a filha do casal Gondrée. A ponte Pégaso original está num museu próximo do local primeiro. A réplica que aqui se vê é muito fiel à original.

Em Paris, neste último verão, uma caminhada que começou bem cedo pela manhã levou-me a várias pontes que atravessam o Sena. Não resisti a fotografá-las.

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A ponte Alexandre III. Dois noivos em celebração e o seu registo numa ponte.

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O resultado de uma aproximação às águas que correm desde sempre, desde o tempo anterior às asas. Ainda a ponte Alexandre III.

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 A ponte à qual é impossível resistir. Fixá-la a partir de vários pontos.

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Pont des Arts.

 A mesma ponte, ao fim do dia.

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Em Amesterdão, os olhos enchem-se de pontes que mais parecem varandas sobre a água. Marcam as fronteiras entre os bairros, servem de caminho para as bicicletas, são esplanadas com mesas e cadeiras para os encontros ansiados ou fortuitos. São muito mais que um sítio de passagem, parecem estar onde estão desde sempre, como algo natural, a ligar o que afinal a água não separou.

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Em Lisboa, numa das últimas vezes em que lá estive, quando ia caminho do Museu do Oriente, gostei de olhar para cima e de ver estas duas linhas cruzadas. Parecem partes de uma mesma estrutura.

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Finalmente, a última fotografia. Não de uma ponte, mas de um espaço com água ao lado de um rio atravessado por muitas asas – o Sena. Aqui, o jardim das Tulherias, onde eu queria chegar naquela quinta-feira de manhã, depois de ter passado por algumas das pontes parisienses que acompanham este texto. Queria chegar ao jardim, para conhecer o Museu de l`Orangerie, que ali fica e que nesta fotografia se vê, para um reencontro há muito desejado. Sobre esse reencontro hei de escrever.

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ASM

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