Mergulho (kind of…)

+ do que 1

[Para ouvir durante a leitura deste texto.]

Escrevo agora sobre o prazer de mergulhar. De dentro para dentro. Explico melhor: não do alto, depois de um salto rumo à água, mas sim estar dentro de água e, devagar, deixar-me ir para dentro, para o fundo. De modo a que a água vá cobrindo o meu corpo até este imergir completamente. Uma vez imerso, nadar no fundo de olhos bem abertos…

Estou atenta, à medida que mergulho, aos sons de fora. Vão desaparecendo, devagar… À medida que desço, ouço cada vez menos. A agitação da praia quando está cheia de gente desvanece-se até se perder. Sei disso desde muito pequena, porque sempre fiz este exercício assim. Até gostava de ficar com metade do rosto fora de água, ao nível do nariz, que acompanha a linha dos ouvidos, para assim sentir a água abafar os ruídos. A fronteira entre o ouvir e o não era muito ténue. Insistia nesse jogo, entre o sim e o não aos sons de fora. Mergulhava então. Fazia testes a mim própria, a ver quanto tempo debaixo de água conseguia aguentar. Olhos abertos sempre. Ao fim do dia, vermelhos e ardentes de tanto ver o fundo salgado e silencioso do mar. Aos poucos fui ficando sensível aos sons do fundo. Aprendi a perceber o som da agitação das ondas na fase da rebentação, da aproximação das braçadas de alguém.

Viajar é como mergulhar. Imergimos numa nova realidade, também ela feita de sons. Imergimos em novas geografias, culturas, línguas. Os sons mais audíveis serão mesmo estes, aqueles com os quais nos cruzamos quando caminhamos pelas ruas, mercados, praças, museus e nos sentamos nos bancos dos jardins ou dos cafés. Gosto de estar atenta a eles e, aos poucos, eles dominam esse fundo do mar, que nunca chega a ser verdadeiramente silencioso. Sente-se sempre a ressonância das línguas em presença na memória: a minha e a dos novos mares. E facilmente as distinguimos. Outras vezes percebemos quão próximas são, sendo as águas de ambas mais transparentes e familiares na sua melodia.

Já mergulhei em águas turvas, dado que dificilmente compreendia os sinais. A minha língua parecia longe e silenciosa, dadas as diferenças. Abria os olhos durante o mergulho e via um conjunto de sinais para mim desconhecido. Foi na Rússia, por exemplo, com a língua russa. Quando andei no metro de Moscovo, senti uma dissonância para mim estranha entre o mapa das linhas e a indicação das estações. Costumo encontrar sempre as correspondências, quando mergulho noutros mares, com mapas familiares. Confesso que daquela vez, não fosse um russo a guiar-me, não teria chegado onde queria. Apesar das dissonâncias, o mergulho valeu muito a pena. Conhecesse eu o sentido daqueles sons e a melodia russa teria tornado as águas transparentes.

Por vezes encontramos pontes que nos ajudam a atravessar as águas, quando elas são demasiado profundas ou quando não conseguimos mergulhar inteiramente. Encontrei uma ponte numa livraria em Moscovo. Uma livraria imensa, com livros distribuídos em várias secções, muito organizados em prateleiras. A maior parte deles em Russo. Pelo menos era o que parecia, mas admito que noutras línguas com alfabetos muito próximos do Russo.Também em Russo estavam as etiquetas que ajudam os leitores a perceber se estão perto do que querem ou se têm de subir mais um andar ou seguir para outro corredor. Encontrei uma lombada em Inglês. De um livro sobre São Petersburgo (onde tinha estado antes de ter chegado a Moscovo), mais precisamente sobre as pontes desta cidade, também designada como a “Veneza do norte” ou a “segunda Amesterdão”. E na verdade é fácil perceber-se por que razões a chamam assim. O livro – Bridges of St. Petersburg – também explica, com imagens de pontes, ilhas, rios e canais e uma história ligada às águas desde há muito tempo. Agarrei-me àquela ponte feita de pedras em inglês e assim tornei aquelas águas mais próximas.

Noutros mergulhos as águas rodearam-me como abraços familiares. Podia dar-se o caso de previamente eu ter aprendido a conhecer aquelas águas, então o prazer da imersão profunda era vivido plenamente. Às vezes engolimos ou inspiramos água quando verdadeiramente mergulhamos e sentimos isso como desagradável. Não neste tipo de mergulho. Molhamo-nos com essa água, engolimos e chegamos a sentir sede dela. Comigo é assim. O meu corpo como que se habitua a tudo o que a faz – temperatura, grau de salinidade, corrente. E mesmo quando regressamos à praia, deixando para trás o mar daquela língua, procuramos o regresso a ele de outra maneira. No meu caso, procuro-o em palavras nos livros, autores, textos, músicas…

Quando conheço muito pouco das águas onde mergulho, abro ainda mais os olhos e estou atenta aos sons, às letras que a mostram e à sua história. Acontece frequentemente emergir e querer, depois de chegar à praia de onde parti, saber mais sobre tudo o que apreendi.

Mas durante a imersão, vou registando os ecos das águas. Aqui estão alguns registos desses ecos e as suas ressonâncias.

Numa das saídas do mercado de San Lorenzo, em Florença, uma série de mapas na parede. Mapas que contam a história de muitos países e de uma civilização, mas também de uma língua que se disseminou por muitos territórios. Olhar esses mapas era também lembrar-me da história remota da minha língua.

Ainda em Florença, perto da casa de Dante, este texto a anunciá-la. A casa onde nasceu o poeta que muito contribuiu, com os seus versos, para o Italiano ser hoje como é. Uma casa torre, que mantém viva a memória das casas de outros tempos, em que a verticalidade e a altura eram também símbolos de poder na cidade.

Uma placa a assinalar a presença de Catulo (Gaius Valerius Catullus), poeta latino (Verona, entre 87-84 a.C. – Sirmione, entre 57-54 a.C.) que, juntamente com outros “poetae noui”, trouxe para os poemas um amor mais próximo das vivências humanas, assim como os prazeres que os deuses também conheciam e que fazem os humanos sofrer de outra forma. Catulo e a sua família possuíam uma casa em Sirmione (Itália), uma povoação que tem o lago de Garda por perto.

Recordei-me das leituras, traduções e releituras que fiz dos seus poemas quando estudei Latim. Da experiência ambivalente do seu amor por Lésbia. Do elogio da felicidade que o amor pode proporcionar.


Em Lugano, na Suíça, a presença de várias línguas num mesmo território. Aqui, o domínio do Italiano. Nesta placa, a indicação da proximidade do Paraíso…

Barcelona e a língua da Catalunha. A língua que traduz também o desejo de autonomia. Aqui presente na placa do café “4 Gats”, onde se reuniam artistas que trouxeram o Modernismo para a arte e arquitetura. Picasso e Gaudí sentaram-se nas suas mesas e participaram em tertúlias que eternizam a relevância deste espaço.

Outra fotografia tirada em Barcelona. Na zona do Born, um bairro com lojas, bares, restaurantes e galerias de arte que por si só justificam uma caminhada. Para além de igrejas, museus (o museu Picasso e o museu do Traje situam-se aqui) que valem bem o tempo de espera para entrada. Aqui, mereceu registo o jogo de palavras em Inglês e a evocação de uma música.

Uma placa em Praga, que me ensinou que a língua checa também tem declinações. Trata-se da praça de Franz Kafka.

“Boa noite, mundo! Eu vou para o Tirol.” Estava escrito à entrada da Hofkirche (igreja da corte) em Innsbruck, Áustria. Uma igreja gótica que foi idealizada para ser também um mausoléu, para albergar os restos mortais do imperador Maximiliano I, o que não chegou a acontecer, mas o túmulo foi construído. Essa mesma entrada dá acesso ao Tiroler Landesmuseen. Eu estava no Tirol e no dia a seguir a esta visita saí de Innsbruck para conhecer algumas aldeias tirolesas nas montanhas. Era agosto, mas ainda encontrei vestígios de neve. Chegou a nevar na última noite em Innsbruck.


Uma rua em Saint-Malo, Bretanha. Gostei da pergunta implícita.

Uma rua em Bellagio, no Lago de Como, Itália. Um nome lindo para uma rua.

Uma inscrição num ferry na Noruega, a avisar os passageiros que não podem entrar no bar com calçado desportivo. E ainda a indicação do convés superior da embarcação, que também transportava viaturas.

Mergulhar bem fundo, até se deixar de ouvir a praia. Para se poder escolher o que comer, durante um almoço em Nice ou para se conhecer a história dos sabores de um gelado em Florença.

Outra montra. Em Miranda do Douro, onde também se fala o Mirandês, a outra língua oficial de Portugal. Aqui, inúmeras hipóteses de escolha para a leitura dos sons mirandeses.

Gosto de olhar as montras das livrarias. Imagem de uma das várias montras de uma livraria na zona da Sorbonne, em Paris. Todas apresentavam livros unidos por um mesmo tema. Escolhi esta para este texto. Fala do silêncio, das palavras, da voz e da respiração.

É sempre assim. O mergulho só fica completo quando trago comigo as palavras: em revistas, jornais, livros…

Por último, a justificação da música ao longo do texto: trata-se de “Peer Gynt”, de Henrik Ibsen, musicado por Edvard Grieg. Uma obra de grande importância na história da literatura norueguesa e na dramaturgia europeia. Edvard Grieg musicou este longo poema em 1875 e a obra conjunta foi levada à cena no ano seguinte, em Oslo (antes Christiania).

Ibsen inspirou-se em muitas figuras de contos tradicionais noruegueses, em cenários reais, com aldeias, montanhas e fiordes gelados. Neste texto, também nos cruzamos com as figuras mágicas dos trolls e das bruxas do norte.

Ouvi esta música muitas vezes quando visitei a Noruega. Passei ao lado da casa onde vivera um rapaz que provavelmente terá inspirado Ibsen para a construção da personagem principal, Peer Gynt. Regressei ao mar que habito e quis mergulhar mais fundo neste texto e nesta música.

ASM

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