Na ilha de Ulysse

Paris, França

Lawrence Alma-Tadema, “Uma leitura de Homero”, 1885, Museu de Arte, Philadelphia

«Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,

depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.

Muitos foram os povos cujas cidades observou,

cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar

os sofrimentos por que passou para salvar a vida,

para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.(…)»

Homero, Odisseia, Canto I, tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia (2003)

Este Ulisses habita em Ítaca, a sua ilha que é também família, casa e o amor nas suas diferentes formas. É também o espaço do poder que herdou e que o leva a ter de participar na guerra que tanto nega, nem que para isso tenha de se fingir louco. Não convence. O rei querido por todos, muito amado por Penélope, tem de a deixar e ao filho de ambos. Parte e afasta-se de Ítaca, para a ela voltar outro, mais velho, é certo, mas sobretudo com o mundo dentro de si. Também com as memórias de todos aqueles que foi perdendo pelo caminho e de muitos outros que foi conhecendo e que o ensinaram a olhar o mundo com os olhos de outras ilhas, de outros mares.

Conheceu, pelo meio, o poder dos homens e o poder dos deuses. Deste último, recusou a possibilidade de juventude eterna e de um amor perfeito e infinito, oferecido por Calipso, uma deusa que desejava apoderar-se da imperfeição dos sonhos daquele que sonhava com as muito humanas delícias da imprevisibilidade, da efemeridade e da imperfeição. Recusou, abandonou a ilha da deusa e iniciou mais uma viagem, com a memória ainda de perigos com cabeças de monstros, braços longos de ameaças assustadoras, cantos encantatórios, durante a qual aprendeu muito, sobretudo a enfrentar a morte e a vencê-la pela inteligência.

Também Penélope resistiu e em si transformou a memória do amor em esperança. Só assim conseguiu sobreviver ao presente doloroso da perda e da saudade funda que aquela viagem foi para ela. Ítaca, porto de abrigo, de partida e da chegada mais desejada. Para Telémaco, a ausência do pai levou-o a outras paragens, em busca do caminho que o levasse ao amor que tanta falta lhe fazia. Também empreendeu uma viagem, sobretudo interior, que perdurou da sua infância até à sua juventude, já habituada à não presença do pai, mas que, retomados os abraços, finalmente chegou ao seu fim, reencontrado o porto de chegada há tanto procurado.

Ítaca sempre presente em Ulisses, a ilha onde tudo começou e acabou. O ponto zero, de onde irradiaram todos os outros. Viagens pelo mundo fora ou pelos mundos que há dentro de cada um, com uma bússola que redireciona o caminho do desejo de além e de alguém. Cada um à sua maneira.

Ulysse de que vou falar nasceu numa ilha, a ilha de Saint-Louis, no rio Sena, em Paris. Uma ilha que fica muito próxima de outra, a mais visitada, e à qual se une por pontes – a Île de la Cité, maior e onde as torres da catedral de Notre-Dame a tornam mais alta do que a de Ulysse. Ulysse fica na rua que atravessa a ilha de uma ponta à outra, a rue Saint-Louis en l`Île (4e), muito perto da igreja com o mesmo nome e que vale bem uma visita. Até chegarmos a Ulysse, vindos da outra ilha, passamos por algumas galerias de arte, lojas de brinquedos, antiquários e hotéis com muito charme. Uma ruinha repleta de pontos de interesse, cuja calma contrasta com a multidão ruidosa que enche a praça de Notre-Dame e as ruas da Île de la Cité.

A caminho de Ulysse, sobre a ponte Saint-Louis, que liga as duas ilhas: à esquerda, a Île de la Cité, à direita, as árvores da ilha de Saint-Louis. Ao fundo, o Hôtel de Ville.

Ulysse é uma livraria que nasceu há precisamente 40 anos, de um desejo de Catherine Domain, viajante e leitora apaixonada de mapas e de textos sobre viagens. A primeira livraria no mundo exclusivamente dedicada às viagens.

Dentro de Ulysse encontramos o mundo inteiro em mapas, revistas e livros sobre os mais variados pontos do planeta. Em prateleiras, mesas cobertas de lugares e de palavras sobre eles. Ainda livros e mapas no chão, empilhados ordenadamente.

Na livraria, naquela tarde de agosto, apenas eu, o simpático anfitrião e ainda um americano, cansado de procurar um ponto muito pequeno dos Himalaias, tão pequeno que só o encontrou aqui. Estava num mapa que olhava o mundo de muito mais perto e por isso o americano cansado saiu daqui com os Himalaias mais próximos de si. Onde tenciona ir. Tudo isto me foi contado depois, quando fui atendida, com tempo. Esqueci-me de dizer – na Ulysse há também muito tempo dedicado a quem a visita. Uma conversa longa aconteceu, sobre as origens da livraria, a história da sua proprietária, os seus amigos que são também amigos da livraria. Ainda sobre o amor de Catherine pelas palavras de quem viaja e escreve sobre os lugares. Também por isso decidiu criar um prémio literário, “Le prix Pierre Loti” – prémio que pretende estimular e destacar o trabalho daqueles que escrevem sobre viagens. Foi-me apresentada ainda a sucursal da livraria em Hendaye. Muito recente e num sítio inusitado – um antigo casino, que se abre diretamente para a praia, com mar ao fundo. Foi-me vivamente sugerida uma visita a essa outra Ulysse, onde, no verão, Catherine passa muito do seu tempo. Dali, de Paris, era fácil ir lá ter – bastava apanhar um comboio na Gare d`Austerlitz e em poucas horas estaria lá. Fácil, muito fácil viajar a partir daquele ponto zero.

As paredes de Ulysse estão repletas de livros, revistas, mapas, mas também nelas se encontram algumas fotografias de Catherine com os seus amigos. A livraria tem como padrinhos dois nomes cujas vidas atravessaram mares, países, continentes – Hugo Pratt (Rimini, 1927-Lausanne, 1995) e Ella Maillart (Genéve, 1903-Chandolin, 1997). Do primeiro, já tinha lido os seus livros; fiquei com muita vontade de ler os livros da segunda e, através das suas palavras, viajar para locais recônditos, improváveis.

De dentro para fora – do outro lado da rua, a pedra escura da igreja de Saint-Louis.

Não deixei Ulysse sem trazer um livro que é também promessa de muitas viagens: Voyageuses, escrito a várias mãos.

Ulysse é muito pequena, mas tem em si mundos e pessoas que convivem bem naquela ilha. É o km 0 de todas as viagens.

Livraria Ulysse : http://www.ulysse.fr/

ASM

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