Com olhos pequeninos

+ do que 1

Para a Alice e a Sofia, as minhas sobrinhas pequeninas

Un enfant devant une vitrine, Édouard Boubat, Paris, 1948

Os vossos olhos são muito pequeninos. O que veem ainda é um pouco difuso e com poucas cores. Lentamente, vão ver tudo o que cá fora existe para ser visto: com cores, tamanhos, volumes, linhas várias e a distâncias diferentes dos vossos olhos.

A tia já é grande e por isso os olhos dela são grandes. Mas às vezes eles têm saudades de quando eram pequeninos e então a tia vê coisas que já não via há muito tempo, repara naquilo que cabe nos olhos dos bebés. Nesses momentos, o seu olhar é atraído para tudo o que lhe lembra a infância. E esse tempo regressa, devagarinho, e fica tão presente na memória da tia, que depois é difícil ficar com os olhos grandes outra vez.

A lembrança mais antiga da tia tem cores e formas de vários frutos, numa sala com vista para um rio largo. A tia a andar muito e a ver frutos muito grandes, num ponto mais alto do que ela. No meio de muitas cores, as dos frutos: amarelo, vermelho, verde, cor de laranja… Os avós ajudaram a situar esta memória no tempo e no espaço: eu tinha dois anos e estava com eles num restaurante com vista para o Tejo. Os frutos não eram assim tão grandes, os meus olhos é que eram muito pequeninos.

A tia gosta muito de andar e de viajar, que é uma forma de andar, mas de maneira diferente. Vocês ainda não andam, mas já viajaram, já fizeram viagens curtas. Quando puderem fazer as duas coisas, vão ver como podem ir mais longe e os vossos olhos vão tornar-se maiores, grandes, não vão parar de crescer, mas por dentro. Quando viaja, a tia por vezes tem os olhos pequeninos. Desde que soube que iam nascer, uma primeiro, depois a outra quase logo a seguir, os meus olhos voltaram a ser pequeninos. Ainda mais vezes. Para verem o que antes me passava despercebido, porque não sabia que iam nascer. Porque ainda não existiam no meu olhar.

A vossa tia também gosta muito de olhar. E como tem medo de se esquecer do que viu, tenta fixar aquilo de que mais gosta. Não podemos fazer isso só com os nossos olhos. Precisamos da memória. Como ela algumas vezes falha, porque se ocupa com muitas outras coisas, até com aquilo de que não gostamos, as imagens e as palavras ajudam-nos nessa tarefa. Para as imagens, a tia tem a máquina fotográfica, para as palavras, a tia tem este espaço. Onde junta as duas coisas. Dessa forma, a memória não desaparece tão facilmente e um dia, quem sabe, os vossos olhos, já maiores, vão poder ver o que a tia viu. A maneira como viu. Que nunca vai ser igual à maneira como as duas irão ver. Nunca é.

Agora vou mostrar-vos algumas coisas que vi com olhos que se tornaram pequeninos como os vossos.

Casinhas de madeira, coloridas, na Noruega. Quando as viu, a tia achou que eram muito parecidas com aquelas que desenhava quando tinha de desenhar casas, na escola.

Pela primeira vez ao vivo uma rena, um animal que só via nos livros ou na televisão, porque vive nos países onde faz mais frio.

Muitos pinheiros nórdicos (que só crescem em sítios com muito frio e neve) no meio de outras árvores, nos bosques da Noruega e da Suécia. Esses pinheiros estavam nos olhos da tia há muito, mas nunca os tinha visto mesmo, verdes e triangulares como tantas vezes os desenhava ou via em livros.

Na Suécia, lembrei-me da Pipi das meias altas, uma menina ruiva e sardenta, com tranças no cabelo, muito divertida e aventureira. Esta menina era diferente das outras. Os filmes e os livros que eu lera com as suas diabruras tinham como cenário este país. E então comprei um livro para me ajudar a não esquecer mais.

Em Moscovo, olhei muito tempo para algumas figuras que eram personagens das histórias e das fábulas que ouvira ou lera em pequena.

Aqui veem-se a raposa e a cegonha. A tia há de contar-vos esta história…

Na cidade de São Petersburgo e também em Moscovo, a tia olhou muito para cima e viu as cúpulas das igrejas ortodoxas. A tia viu e entrou em algumas. Mas achou sempre que as cúpulas deviam ser feitas de açúcar, de natas, de gelatina e recheadas de chocolate, com toda a certeza. Eram deliciosas só de olhar. Facilmente se imagina que os meninos pequeninos da Rússia adoram olhar para cima, para o colorido saboroso daquelas cúpulas.

Catedral de São Basílio, Moscovo
Igreja do Salvador do Sangue Derramado, São Petersburgo

Um quartinho de criança, no palácio de Cheverny, no Vale do Loire. Brinquedos pequeninos, para meninos e meninas pequeninos.

Ainda nesse palácio, a tia reconheceu o espaço de algumas aventuras do Tintin, um herói de banda desenhada. Nos livros “O segredo do licorne”, “O tesouro de Rackham o terrível”, “As sete bolas de cristal” e “As joias de Castafiore”, Tintin passa por um castelo quase igual a este.

[Directement inspiré par le château de Cheverny dont Hergé découvrit l`existence à la faveur d`une brochure touristique consacrée à ce joyau architectural du Val de Loire, le château de Moulinsart est devenu un lien tellement mythique pour les tintinophiles que ceux-ci ne peuvent s`empêcher, tout en visitant l`ancienne demeure du Gouverneur de Blois, de s`y sentir, par le biais de la fiction, « en pays de connaissance» .Texto num postal que comprei em Cheverny ]

Da última vez que esteve em Itália, em Florença, a tia fez umas experiências fotográficas com uma lente muito especial: tinha levado um dos seus caleidoscópios (a tia gosta muito deste brinquedo), aquele que tem uma lente mágica na ponta. Esse caleidoscópio transforma tudo à volta em flores de realidade.

Assim ficou a catedral de Florença:

Aqui é o batistério. Distingue-se bem o dourado da porta do Paraíso.

De Paris, enviei-vos um postal plein de bisous!

Especialmente para ti, Sofia, porque ainda não tinhas, comprei um móbil numa lojinha de brinquedos na Île St-Louis. No meio do Sena, em Paris. Foi tão difícil escolher…Mas finalmente decidi-me por um com ovelhinhas brancas de madeira que giram em volta de uma lua amarela. Achei que era o que ficava melhor por cima da tua caminha branca.

Era isto que queria mostrar-vos. Este texto acaba aqui, mas só aqui, porque tenho a certeza de que convosco os meus olhos não se vão esquecer de quando eram pequeninos e vão ver muito mais coisas assim. Juntas, vamos andar e viajar muitas vezes. E outros textos virão. O mundo parece muito grande e parece não caber nos nossos olhos. Mas eles crescem muito, por isso podemos sempre ver o mundo todo. Como este menino pequenino faz.

ASM

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