Chão – um itinerário

Normandia, Bretanha, Vale do Loire e Île de France, França

Gosto muito de andar a pé pelos sítios. É sempre a minha primeira escolha. Pisar o chão. Muitas vezes com a consciência de que será a única vez que poderei sentir o chão em algum ponto de um itinerário. Uma única vez na minha vida. Pode não ser assim em algumas ocasiões, dado que regressei já a algumas cidades, ruas, museus, igrejas…No entanto, piso como se fosse “a vez”.

Pudesse eu caminhar sempre. Mas não. As distâncias impedem que possamos percorrer sempre o solo que une os pontos dos mapas. Penso frequentemente em quem terá também pousado os pés no chão que percorro. Se acaso estava ali por vontade própria, se por uma obrigação, se foi um sacrifício ou um prenúncio de muitas alegrias, por se estar ali e não noutro lugar. Em que pensaram e o que sentiram todos quantos passaram. Do que se lembraram. Para onde olharam primeiro a partir do contacto com a base que, pela força da gravidade, nos agarra ao solo. A base é comum a todos. Mas a direção que o olhar escolheu já não.

E o caminho terá sido percorrido só ou acompanhado? Aquele ponto seria o de partida, de chegada ou um espaço intermédio no percurso? O que terá levado cada caminhante ali? Por que razão passou exatamente por aquele ponto e não por outro?

Penso também que nem sempre o chão foi daquela maneira que agora vejo. Que em alguns casos foi bem mais difícil de percorrer, noutros nem caminho era para pessoas, provavelmente. Ninguém por ali passava. Nada ali acontecia. E de um momento para outro, cada ponto passou a ser um cenário. O elemento de terra que todos passaram a pisar se queriam ir de um lugar para outro. Ou ficar.

No caso de alguns espaços fechados, lembro-me que alguém imaginou aquele chão daquela forma e não de outra. Que as escolhas feitas eliminaram outras e por isso o piso poderia ser muito diferente do que é. Por isso gosto de saber o porquê das escolhas que tornam aquele chão único. Alguns espaços foram cenários de histórias, de momentos fugazes de existências várias. Testemunhas silenciosas.

Penso nas histórias individuais e coletivas que se deram nesses cenários com chão. Nas conversas, nas frases ouvidas, nas caras que se cruzam porque coincidiram ali e que não mais se veem, porque os pés as levaram por outros caminhos. O peso da contingência nos dias. Todos os imponderáveis que os preenchem.

Neste último itinerário estive particularmente atenta ao chão que pisei. À base de sustentação do ponto de partida do meu olhar. Fixei-o em algumas fotografias que constroem o caminho da viagem. Pontos intermédios, recortados, porque afinal o chão é só um.

Chão que é praia. Com o nome de Arromanches-les-Bains. Uma das praias da Normandia onde desambarcaram soldados americanos, canadianos e ingleses para libertarem da guerra um continente em sangue. Esta praia tinha o nome de código “Gold”. Primeiro desceram os paraquedistas e pousaram os pés nesta areia. Depois as tropas terrestres, que contaram com o suporte dos portos artificiais entretanto construídos. O que se vê bem nesta imagem – os vestígios desses portos erguidos ao longo da costa normanda. Em nome da paz. No dia 6 de junho de 1944.

Do alto do Mont-Saint-Michel, é este chão de areia que se vê. A toda a volta. Quando não é a areia, é a água da maré, que pode chegar ao sopé do rochedo em poucos minutos. Pessoas (os pequenos pontos na foto) fazem caminhadas a toda a volta. Às vezes até pequenas ilhas que estão ao alcance dos pés.

O chão no terraço oeste do Mont-Saint-Michel. Terraço que também é o adro da igreja da abadia do mosteiro beneditino desde os séculos XII e XIII. Antes disso era um santuário em honra de São Miguel, o ponto de chegada de muitos peregrinos. A toda a volta e construídas em diferentes épocas, muralhas e fortificações.

No interior, o solo da cripta dos grandes pilares, erguida no século XV, para sustentar o coro gótico da igreja.

A marginal em St.Malo, mesmo junto à areia, sem muro a separar. Uma das mais bonitas marginais de praia em que já caminhei. Muito devido às casas de madeira ou de pedra clara que dão para o mar, à baía que ali se forma e também por causa das cores do mar nas várias horas do dia.

Chão da cidade de Tours , mesmo em frente ao Hôtel de Ville. Folhinhas prateadas coladas ao pavimento pontuam o caminho que pisamos, em redor de canteiros com flores coloridas.

                          Ainda nas proximidades do Hôtel de Ville de Tours. Um chão geométrico, com variáveis.

Uma avenida em Tours. Mais homogéneo, o desenho do chão. Ao meio, uma alameda com folhas verdadeiras espalhadas ao acaso.

Em Cheverny, no vale do Loire. Em frente à entrada do palácio. Nas ruas desta localidade os canteiros floridos são inúmeros. Parece que as flores brotam do chão de pedra, sem mais nada, como nesta fotografia.

No interior do château de Cheverny, o chão original, pisado pela família fundadora do palácio, a família Hurault, cujos descendentes ainda lá moram, numa zona mais restrita e reservada. O mobiliário também é o original. Aqui eu estava na sala de armas. O baú de viagem que se vê data do século XVII.

Durante a 2.ª guerra mundial, esconderam-se neste palácio muitas obras de arte, como a “Mona Lisa” de Leonardo da Vinci. Esculturas, pinturas e tapeçarias percorreram as salas e as escadas desta casa. Muitas repousaram na Orangerie, no exterior da parte norte do castelo.

O exterior do palácio tem um chão verde, de árvores e relva. Tratado com todo o cuidado. No domínio do palácio trabalham 40 funcionários. O seu trabalho permite que todo este espaço (palácio e jardins) esteja aberto ao público 365 dias por ano.

Outro château, desta vez o de Chambord. Maior, muito maior que o de Cheverny. Com muitas salas (são 426 divisões), de uma dimensão imensa, austeras de tanta pedra branca, que se torna ainda mais branca e dura com o passar do tempo. Para chegarmos a elas temos um total de 77 escadas. O interior chega a ser labiríntico, dada a quantidade de corredores, torres, escadas, pequenos recantos e varandas cobertas. O exterior impressiona, dado o número de torres, abóbadas, chaminés (no total 282) e terraços. Este castelo foi construído exatamente onde antes havia um pavilhão de caça, sob as ordens do rei Francisco I. Este monarca, muito impressionado com a arquitetura da renascença italiana, quis que o seu château tivesse o melhor da antiga ideia de castelo como fortaleza (daí os torreões, as torres, as muralhas), aliado àquilo que vira em Itália e que dava novas formas aos palácios renascentistas (os terraços, as varandas cobertas). O rei morreu sem ver o seu palácio terminado. Só no reinado de Luís XIV Chambord ficaria como está hoje.

Cá fora, o tapete verde e líquido de Chambord. É atualmente o maior parque fechado de toda a Europa. Trata-se uma reserva nacional de caça e este chão verde é a casa de muitas espécies animais que ali vivem livremente.

Os degraus da escada que se pensa ter sido idealizada por Leonardo da Vinci. Francisco I chamou-o para os seus domínios, de modo a introduzir no seu mundo as novidades italianas de que Leonardo era o seu máximo expoente. A escadaria é um testemunho da sua influência. A prodigiosa escada, da qual se veem aqui os degraus quando a descia, é constituída por dois lanços, com uma coluna oca entre eles. São em caracol, rodeiam a coluna e cruzam-se em alguns pontos, por isso, se duas pessoas subiram por entradas diferentes, nunca se encontrarão, apesar de se verem uma à outra pelos vários orifícios existentes.

Paris, Jardin des Tuileries. Chão que aqui neste ponto é também uma varanda sobre a praça da Concórdia. Com cadeiras onde as pessoas se sentam na sombra. Eu ia a caminho do Musée de l`Orangerie, que fica dentro do jardim.

Paris, quai de Malaquais, depois da ponte do Carousel. Chão que é também expositor para os bouquinistes. Mostram-se livros antigos, usados, memórias de Paris de anos passados em fotografias, postais, reproduções dos quadros dos seus artistas mais queridos. Mapas e discos com canções das vozes mais emblemáticas da cidade. Ao longo do Sena. Aqui, na Rive Gauche.

Ponte que é uma espécie de chão suspenso sobre as águas. As águas do Sena que neste ponto separam a Île de Saint-Louis da Île de la Cité. Atravessei a Pont Saint-Louis para chegar à ilha com o mesmo nome.

O primeiro solo firme perto de casa. Depois de passar pela manga que liga o avião a um chão, pelas escadas que rolam e que me trazem mais depressa aqui, a este caminho que já não se mexe.

ASM

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2 thoughts on “Chão – um itinerário

  1. Querida Sofia, não resisto a registar aqui a beleza do su blogue e das tuas notas de viagem. Aproveito e cumpro uma promessa que te fiz há algum tempo, a transcrição de uma curta passagem do romance A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão: «E nada tínhamos a ver com os turistas. Éramos diferentes. Viajantes. Os turistas vão à procura de lugares para fugirem de si próprios, da rotina, do stress, da infelicidade, do tédio, da velhice, da morte. Vêem os lugares onde chegam apenas de relance e não ficam a conhecer nenhum, porque logo os trocam por outros e fogem para mais longe. Os viajantes vão à procura de si, noutros lugares. Que ficam a conhecer profundamente porque nenhum esforço lhes parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de se encontrarem.» (2011: 31).
    Fico sempre a aguardar novos posts. Para meu prazer e proveito.
    Sónia

    1. Querida Sónia, muito obrigada pelo teu comentário, pela tua leitura assídua e pelo bonito presente que aqui me deixas. Sabia que ias cumprir a tua promessa 😉 Que passagem bonita!…Tenho de ler o livro…Beijinhos e obrigada!
      Até breve!

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