Cartoline di Firenze (fine)

Florença, Itália

Os últimos postais da cidade do nome que tem dentro uma “flor”. A flor é o símbolo que a representa: a flor-de-lis, também presente no brasão da família cuja história se confunde com Florença – os Medicis. O topónimo terá ele próprio reminiscências florais (Fiorenza, “fiore”- “flor” em italiano; Florentia, do latino particípio presente do verbo “florire” – “florens”), devido aos campos floridos da Toscana, segundo alguns autores.

Piazzale Michelangelo e a estátua que justifica este nome, bem no centro. Trata-se de uma réplica de David em bronze. Muitas pessoas a circular por aqui e ainda mais junto ao rio. Admiram a escultura, passam-na para a tela e pintam-na, outros fotografam-na. Aqui registei sobretudo a leitora e o prazer da leitura silenciosa no meio de alguma agitação. Ao fim da tarde.

Uma geladaria em frente ao Arno, muito próxima da ponte de Santa Trinita, em Oltrarno. Os meus olhos viraram-se, por se tratar de uma geladaria, e não foram indiferentes ao reflexo do outro lado do rio nos vidros.

Piazza della Repubblica. Uma praça muito recente, considerando a idade da cidade. Foi construída entre 1885 e 1895 e dava corpo a um desejo de uma modernização urbanística da cidade, decorrente da aquisição do estatuto de capital de Itália em 1865. Essa modernização sacrificou testemunhos arquitetónicos que lembravam outras épocas. O mercado antigo desapareceu. Esta praça ocupa precisamente o espaço do antigo Fórum romano e o ponto onde se cruzavam as duas principais vias da cidade: il cardo (atualmente via degli Speziali – via Strozzi) e il decumano (hoje via Calimala – via Roma).

Hoje rodeiam a praça elegantes lojas, restaurantes e cafés. Entre estes últimos, distinguem-se três: Gilli, Paszkowski e Giubbe Rosse. Cafés que fazem parte da história recente de Florença e de Itália. À volta das suas mesas, arte, política e filosofia eram discutidas com fervor e anseio de transformação. Nas suas salas encontraram-se sensibilidades que propunham novas soluções estéticas e éticas. Aqui pintores e escritores deram voz aos princípios de Marinetti. Aqui discutiram-se e partilharam-se ideias que depois resultaram em romances, contos, poemas, revistas literárias e revoluções.

 

A música era esta, de Bach, naquele domingo pela manhã. Uma das minhas favoritas do compositor. Imaginada para violoncelo. No vídeo, Rostropovich toca no interior da Basílica de Santa Madalena, em Vézelay, na região da Borgonha, em França. Mas eu ouvia-a aqui:

Nessa manhã, ao contornar o Duomo, o som inesperado a sair das mãos deste jovem músico. Ainda pouca gente por ali. Até porque ele estava resguardado pelas imensas paredes laterais da catedral. Do lado que não tem o Campanário. Era preciso contornar o Duomo para se ter acesso pleno à música e perceber de onde surgia. Foi o que fiz. E emocionei-me. Era a música que escolheria para ali e para aquele momento – as últimas horas na cidade.

Nessas derradeiras horas em Florença, uma última peregrinação, desta vez a uma geladaria: a “Grom”. Aqui, os gelados escondem-se nos enormes recipientes prateados. Uma imagem que contraria as outras vitrinas do género, onde os frutos, o chocolate, as natas e os licores surgem transformados em montanhas que prometem minutos inesquecíveis de puro deleite. Não na “Grom”. Neste momento, já tinha feito a minha (difícil…) escolha: “creme come una volta” (doce de ovos, mas segundo uma receita antiga que aos ovos junta natas e limão) e melão. A mão que se vê na imagem mistura bem o creme que se vai juntar ao melão do meu copo.

A “Grom” começou por ser o sonho de dois amigos. Um sonho com sabor a frutos, ovos, leite e tudo o que ele pode dar e com aromas que resultam da agricultura biológica praticada e promovida por ambos nos campos de Costigliole d`Asti. Depois esse sonho espalhou-se por vários pontos de Itália. Como este, em Florença. Há ainda nos Estados Unidos, França, Japão. Os dois amigos não desistiram de sonhar e também criaram os laboratórios de sabores. Aqui existe um, onde pude apreciar por momentos o trabalho do sábio dos sabores.

Dos campos, que entretanto cultivaram e ampliaram com novas culturas, os amigos trazem os frutos que depois vão para os copos ou cones, para alegria de muitos. Transformam-nos em momentos únicos ao alcance de quem quiser. Tudo sem eliminar a autenticidade das origens.

A história da “Grom”, que se confunde com uma amizade, já está escrita. Por agora, num livro:  Grom, Itália

O Palazzo Vecchio. A sede da cidade desde há muito tempo. São tantas as fotografias que o mostram em segundo plano, por causa das estátuas que lhe estão próximas ou ainda devido à praça onde ele mora, percorrida por todos a todas as horas. Aqui está ele, então, apenas ele. Com os seus 94 metros de torre, a Torre di Arnolfo, que no passado dia 24 de junho abriu ao público. Todos podem agora subir os inúmeros degraus que a percorrem, até chegar ao topo.

Gosto muito deste contraste entre a pedra branca de Neptuno e o amarelo ocre da fachada do Palazzo Vecchio. À noite impressiona ainda mais. Assim como o olhar do deus que olha mas que parece que não, de tão distante que está de tudo.

O “Rapto das Sabinas” (1583), de Giambologna, na Loggia dei Lanzi, com duas esculturas muito próximas: de uma matrona romana e outra de “Hércules e o Centauro Nessus” (1599), também de Giambologna. Os vários tons que o mármore pode ter sem a luz do sol. A luz escassa para que os nossos olhos possam pousar em cada membro, movimento, linha, expressão, daqueles corpos de pedra. Para que a memória nos ajude a construir a(s) história(s) que ali repousa(m) serenamente, dia após dia, ano após ano. Apesar do medo, da violência, da dor e do desespero que exprimem, mas que se tornam belos aos olhos com a luz e a história.

Nichos com esculturas na fachada da igreja Orsanmichele, na via dei Calzaiuoli. Uma igreja cuja forma (um quadrilátero) lembra a função primeira do edifício – começou por ser um mercado e também um armazém de cereais, para épocas de cerco à cidade e de carestia. Em Florença é absolutamente necessário estar atento aos pormenores. Eles escondem-se nas pedras das ruas, dos becos e das fachadas. Dentro e fora dos templos, dos edifícios, ao longo das pontes. Em cima, no topo dos edifícios, das torres, dos campanários. São muito pequenos, por vezes, inesperados, muitas outras. Contudo, encerram em si uma arte que nos arrebata pela sua aparente simplicidade e óbvia harmonia.

O fim. A saída da cidade. Cheguei a Florença e dela saí numa flecha, o freccia rossa: comboio rápido, direto desde e para Bolonha, suave. Passou pela estação de Santa Maria Novella e continuou (para Salerno, à chegada, em direção a Milão, na partida).

ASM

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