VABCDEFGH|A

Para a Aniko ( e por causa dela)

Argentina, Espanha, Marrocos

Podia seguir o alfabeto de forma ortodoxa. Começar no A e seguir por diante, até chegar ao fim das letras, que coincidiria com o final deste texto. No entanto, escrevo sobre alguém que escolheu uma vida muito pouco comum, alguém invulgar e admirável a vários níveis. Por isso, vou começar quase pelo fim. Do alfabeto.

Daí o V em primeiro lugar. V de vida que se confunde com viagem. Viver e viajar misturam-se em Aniko. Vive para viajar e viaja porque vive. Foi uma decisão que tomou depois de terminar o seu curso superior de comunicação e assim concretizou um sonho que sempre a habitou. Escolheu a viagem como forma absoluta de comunicar com os outros. Com todos aqueles que vai conhecendo pelos caminhos que se cruzam nos seus mapas pessoais e ainda com todos quantos leem os seus textos sobre o que vive, vê, pensa, sente e descobre enquanto viaja.

Aniko em Cadaqués, na Catalunha

A de Argentina

Aniko é uma jovem de 26 anos natural da Argentina, mais precisamente de Buenos Aires. No entanto, a sua casa é o mundo, porque só quando está em viagem se sente inteira na sua casa. “Estar em viagem” é o estado natural de Aniko. Em muitos pontos do planeta, ao sabor dos encontros e amizades que vai construindo. E já são muitos, esses pontos. Já percorreu 25 países e diz ela que só vai parar quando conhecer a sua casa completamente. A sua generosidade e autenticidade fazem com que a queira dar a conhecer a todos quantos a desejem descobrir através dos seus olhos. Para isso criou um blogue.

B de Blogue – É então neste blogue http://viajandoporahi.com/ que ficamos a conhecer o olhar de Aniko. As suas impressões, reflexões e emoções durante as suas viagens. A sua forma de viver (n)a grande casa. Tanto mais rica e interessante quantos mais olhos e corações a partilharem. É isso que ela faz. E julgo que quanto mais o faz, mais quer fazer. Por isso não consegue parar. Quando consegue, por exemplo na sua cidade natal, não é por muito tempo, porque, para além de preencher os seus dias com as memórias da mais recente viagem, já só pensa na próxima. E em tudo aquilo que ela poderá trazer-lhe: sítios, pessoas, histórias, cores, cheiros, sons… Sobre tudo isto e muito mais escreve no seu blogue.

Início da primavera numa rua em “Carcelona”

 C de Carcelona

Quando esteve em Barcelona, esta cidade conseguiu retê-la por muito tempo. Cativou-a, hipnotizou-a tanto, que a levou a batizar a cidade de “Carcelona”, como uma verdadeira prisão/carcel, mas de onde não se quer sair. Antes permanecer, por tempo indeterminado. Nisto (e não só) convergimos. Eu e a Aniko amamos Barcelona. Uma cidade que consegue ser única todos os dias. Uma cidade doce, aberta e acolhedora. Cosmopolita, que une harmoniosamente a montanha e o mar, a história e a modernidade, a arte e a tradição, a serenidade das manhãs de sol com o entardecer agitado e confuso, repleto de gente em trânsito nas ruas ou parada nas esplanadas sonoras. Uma cidade que se desvela e se esconde em cada artéria e fachada. Uma cidade que parece fugir assim que é mirada com espanto. Uma cidade misteriosa. Tudo isso a deixou presa. Sem vontade de sair para outro ponto, de ir ao encontro de outras pessoas e histórias. Foi difícil deixar Carcelona. Aniko agora está em Buenos Aires, com Carcelona dentro.

Casa Amatller e Casa Batlló, de Gaudí

D de durien

A visita a Barcelona fez parte do primeiro itinerário europeu de Aniko. Já tinha estado noutros pontos da geografia da Ásia, da América do Sul e do Norte. Da cidade da Catalunha, escreveu um texto sobre a solidão que às vezes se sente enquanto se viaja. Também sobre a letargia que se lhe pode seguir. Ainda de como as conseguiu ultrapassar, quando estava na China, a viver dias longos e chuvosos. A solidão assaltou-a e ela lutou para a ultrapassar. Lembrou-se da alegria que sentia na adolescência quando recebia postais e cartas dos seus amigos, familiares e pessoas que conhecera em viagens. Decidiu recuperar essa ideia, que com ela trazia a caligrafia, os desenhos, as colagens, os cheiros do que lhe era familiar. E então, passados uns dias e alguns postais enviados, a chuva na China foi mais suportável. Assim como a língua estranha que até ali parecia um muro. Através do contacto com os outros a uma distância maior, esta viajante encheu os seus dias de palavras e de imagens. Celebrando, em cada postal enviado, a comunicação, a ponte com os outros.

É isso – Aniko é uma construtora de pontes. Decidiu erguer uma ponte com os leitores do seu blogue, a partir do deserto marroquino. Marrocos foi um dos intervalos entre Carcelona e Carcelona novamente. Nas areias douradas do deserto, Aniko lançou a primeira pedra da ponte que tinha muita vontade de construir para chegar a quem a lia e a sabia ali. Os seus leitores só teriam de dizer que tipo de postal gostariam de receber: um postal colorido, musical, aromático, com paisagem natural, com pessoas, à noite, de dia, com um plano geral, com pormenores…enfim, um desejo com inúmeras possibilidades. As imagens tinham sido fixadas pelo seu olhar e estavam guardadas na sua memória afetiva e num arquivo que desejava partilhar.

Eu pedi-lhe uma imagem com aroma do Oriente. Fui das primeiras leitoras a receber o postal. Aqui está ele, com um durien, um fruto asiático que exala um odor fortíssimo e pouco agradável. É tão intenso, que em Singapura é proibido entrar no metro com ele. Caso o façamos, seremos multados. Aniko também descreve o sabor singular do durien, a sua textura, as suas cores…Tudo isto explicado no texto que acompanhava a fotografia, escrito pela mão de Aniko.

O meu durien nas minhas mãos

Em troca, desejaria ela receber, na sua casa de Buenos Aires, postais de cada um dos seus destinatários, oriundos do outro extremo da imensa ponte que se construía a cada palavra trocada e emoção partilhada. Para forrar uma parede com eles e assim construir um mundo com o mundo de cada um. Do meu, seguiram dois postais – um da minha cidade e outro de Lisboa.

E de Europa

A Europa de Aniko começou por Espanha, pela Catalunha. Cidades e pequenas vilas desta região. Num intervalo, foi mais a norte, numa passagem rápida pela Suécia, em busca de um sonho antigo , de contornos verdes, violeta…a aurora boreal.

Foi também para sul, para lá do mar. Em Marrocos, deixou-se encantar pelos desertos, pelos horizontes que não acabavam mais, pelos povos nómadas, pelos fins de tarde nas dunas e pelas estrelas de um céu noturno e quente. Ficou fascinada e intrigada com o mistério da cisterna portuguesa que encontrou em El Jadida, que é património mundial da Unesco desde 2004. El Jadida é o nome atual da antiga praça forte de Mazagão.

Cisterna em El Jadida

Fez amizades com famílias nómadas do deserto, sentiu o calor sufocante das areias. Desempenhou ainda um papel de figurante num filme franco-americano sobre um casal que vai passar a sua lua de mel no deserto a Merzouga. A história que começa por ter amor vai também incluir mistério, suspense e crime.

Um nómada

F de fotografar

Fotografar e escrever, escrever e fotografar. Registos diferentes de uma realidade una. Recortes. Anotações. Ângulos.Impressões. Perspetivas. Descrições. Foco. Relatos de encontros. Macro. Histórias de amizades. Luz. Dias. Flash. Noites. Tempo. Tempo. Consegue isso, a Aniko – a imagem certa para a palavra da ideia. Ou o contrário. Podia não escrever nada sobre a letra F e as imagens de Aniko eram suficientes para a justificar e iluminar. Todas as fotografias do meu texto são dela, exceto a do durien, deste lado da ponte, e a primeira, em que ela aparece no cimo de uma duna. Foi muito difícil selecionar de entre tantas e tão maravilhosas imagens que ela fixa na sua retina em forma de lente.

Aniko muitas vezes escreve sobre as circunstâncias dos seus cliques. Eu gosto de a ler também nessas anotações. E assim ficar a conhecer a moldura do que vejo, os bastidores e as motivações daquele instante. O olhar de Aniko é muito atento aos detalhes, ao pormenor, à beleza do efémero. Em alguns casos, à poesia tímida e discreta do quotidiano. Não importa a latitude desse quotidiano. Aniko está lá e fixa-o. A beleza convoca o seu olhar. Gosto quando o olhar dela se demora nas pessoas. Nos trabalhadores atarefados de vários pontos do mundo, nas crianças que brincam, choram, a olham surpreendidas. Nos mais velhos, que lhe contam histórias em silêncio. Nas mulheres mães, trabalhadoras, estudantes…Ela está atenta e com todos comunica. Isso vê-se muito bem nas fotografias. Aniko é uma excelente fotógrafa.

G de «Guia para aprovechar un dia de lluvia» – «Orientações para resgatar a beleza quando ela se esconde no cinzento de um dia pluvioso». Podia ser esta a tradução livre do título de um dos textos de Aniko (aqui http://viajandoporahi.com/guia-para-aprovechar-un-dia-de-lluvia).

Estava ela ainda em Carcelona e a chuva inundou a cidade de uma beleza líquida. Seguindo a sugestão de um fotógrafo argentino que vive naquela cidade catalã e na sua companhia, saiu para a rua depois da chuva. Com a máquina fotográfica. Conheceu assim uma outra Carcelona, tão ou mais verdadeira que a primeira. Barcelona|anolecraB. Cidade reflexo de si própria, iluminada pela luz filtrada na água dos charcos formados pela chuva incessante. Saber esperar por aquele intervalo luminoso e sair. Captar a cidade e o seu reverso.

H de Hoje | A de amanhã

Hoje publico este texto sobre Aniko, que eu ainda não conheço pessoalmente. Hoje ainda não. Num amanhã que está próximo, encontrar-me-ei com ela. Haverá uma rua, uma casa, uma cidade onde coincidiremos. Esteve quase quase para ser, antes de deixar a Europa rumo à cidade dos bons ares. Não foi desta vez. Será no A de um amanhã. E assim regresso ao início do alfabeto. Ainda por completar. É bom pensar que não terá fim à vista, é sinal que Aniko viaja por aí, num mundo que se descobre e renova aos seus e aos nossos olhos.

Aniko, muito obrigada !

ASM

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4 thoughts on “VABCDEFGH|A

  1. Gracias gracias gracias!!!

    Me encantó, muchísimo, me hiciste emocionar. Creo que es el texto más lindo “acerca de mí” que leí. No pudimos conocernos pero estoy segura de que volveré muy pronto a Europa, y Portugal está primero en mi lista.

    Gracias de verdad por esto. 🙂

  2. Obrigada pelas tuas doces palavras!É muito bom saber que gostaste do que escrevi… “Gracias” a ti também! 🙂 Cá te espero, então. “Amanhã” 😉

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