Depois do(s) dia(s) – Dia da Poesia

Portugal, Itália

Escrevo este texto depois do Dia Mundial da Poesia. Dias após a celebração da palavra em versos vários, de autores inúmeros.

Nesse dia, 21 de março, também dia da árvore, lembrei-me de versos de que gosto muito e cumpri um ritual que respeito há uns anos como forma de comemoração. Recordei ainda alguns sítios por onde passei e que foram caminhos de vidas de poetas que tanto admiro. No dia da poesia deste ano, não pude deixar de me lembrar do que escrevi aqui sobre alguns poetas, por exemplo aquele que encontrei em Barcelona <Viento en las Ramblas> ou Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e Ibn Darraj Al-Qastalli, cujos versos encontrei nas paredes de Cacela <Poema azul e branco>. Antes de escrever sobre Cacela e os poetas que me levaram até lá, há quase um ano, pensei no texto que apresentaria o blogue (Sobre o blogue). Para tal, palavras de David Mourão-Ferreira, António Mega Ferreira e Nuno Júdice. À poesia de David Mourão-Ferreira voltei, quando escrevi sobre Nice <O que fazer com a ideia de corpo>. Confesso que volto lá muitas vezes. Aos versos. Como agora, para descrever um sentimento recorrente em mim e que se fez sentir também no dia da poesia – a vontade de estar noutro lugar, que não o “aqui”:

Rua de Roma

Quero uma rua de Roma

com seus rubros com seus ocres

com essa igreja barroca

essa fonte esse quiosque

aquele pátio na sombra

ao longe a luz de um zimbório

mais o cimo dessa torre

que não tem raiz no solo

em troca darei Moscovo

Oslo Tóquio Banguecoque

(…)

Quero essa rua de Roma

Aqui onde estou sufoco

Aqui as manhãs irrompem

de noites que nunca morrem

Quero esse musgo essa fonte

essas folhas que se movem

sob o sopro do siroco

ora tépido ora tórrido

frente à igreja barroca

tão apagada por fora

mas que do altar ao coro

por dentro aparece enorme

Quero essa rua de Roma

casta rugosa remota

(…)

– David Mourão-Ferreira, Os Ramos Os Remos

Também nesse dia cumpri uma espécie de ritual: comprar um livro de poesia. Este ano comprei dois, que desejava ter há algum tempo: Poesia em viagem, de Blaise Cendrars e Como se desenha uma casa, de Manuel António Pina, de onde escolhi este texto:

O regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de

si, chega finalmente aonde sempre esteve

e encontra tudo no seu lugar,

o passado no passado, o presente no presente,

assim chega o viajante à tardia idade

em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama.

Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,

cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão primeiro

sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

– Manuel António Pina, Como se desenha uma casa,Assírio & Alvim

Já passei por algumas casas de poetas ou por caminhos que lhes foram familiares como casas. Por exemplo, “A Brasileira”, onde podemos encontrar Fernando Pessoa.

(Chiado, Lisboa. O poeta no meio de todos).

A sua casa que é agora um museu, onde se pode entrar no seu quarto, ver alguns objetos pessoais e ainda retratos daquele que foi muitos numa só vida, visto por múltiplos olhares. Há ainda uma biblioteca com primeiras edições, traduções das sua obras e livros que lhe pertenciam.

(Casa Fernando Pessoa, Campo de Ourique, Lisboa. Versos do poeta entre as janelas).

No interior da casa Fernando Pessoa. Versos enchem a paredes também por dentro.

Em Lagos, no Algarve, é-me impossível caminhar sem trilhar os versos de Sophia de Mello Breyner Andresen sobre a luz que lá existe, as praias, o vento, os barcos, os muros brancos, o mar, as cigarras dos dias quentes de tanta luz…

As cigarras

Com o fogo do céu a calma cai

No muro branco as sombras são direitas

A luz persegue cada coisa até

Ao mais extremo limite do visível

Ouvem-se mais as cigarras do que o mar.

(Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, Edições Salamandra).

Estas palavras estão na parede que se vê quando se entra no mercado de Lagos, onde Sophia tanto gostava de ir. Fazem parte do texto «Caminho da manhã» (Livro Sexto). Um caminho do Algarve, da cidade de Lagos. Antes desta parte, fala da estrada amarela, das muralhas da cidade, das figueiras e da “mão do sol” nos ombros. Até se chegar ao mercado municipal, bem no centro da cidade.Depois de lá estarmos dentro, indicações poéticas sobre os peixes, as suas cores, os frutos, as ervas aromáticas para os sabores do sul, ainda sobre as vidas que se cruzam no mercado. O fim da caminhada terá como ponto último a igreja.

Lembrei-me também deste poeta. Faltava-me este sítio na sua geografia de vida. Já tinha estado na sua primeira casa, onde nasceu , em Florença. Ali viveu parte do tempo da sua existência e conheceu Beatriz, que lhe inspirou os versos dos poemas do Dolce Stil Nuovo. Teve de sair da cidade que amava e ficar longe das memórias de Beatriz, por razões políticas. Errou por cidades como Verona, onde fez sua a casa de Bartolomeo Della Scala, primeiro, de Cangrande I Della Scala, depois. Era o palácio degli Scaligeri, sede da dinastia dos dois irmãos que o acolheram e lhe ofereceram condições para a escrita dos seus poemas. Parte do «Paraíso», d’A Divina Comédia, foi ali escrita. Dante não esqueceu o acolhimento e dele fala no Canto XVII, «(…)Teu primeiro refúgio hás-de tê-lo /na cortesia desse grão Lombardo/que a santa ave traz por sobre o estelo(…)» (A Divina Comédia, Dante Alighieri, tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand – (Dante Alighieri em Verona, na piazza dei Signori).

Já tinha visitado o túmulo do poeta, em Ravenna. Em 1318 ele é convidado pelo príncipe de Ravenna para ali ficar e é onde acaba a sua vida , não voltando nunca mais à sua bela e amada Florença. Faltava-me o ponto intermédio no seu mapa de vida, que foi Verona. Aconteceu no último verão.

É verdade que este texto, tendo o Dia da Poesia como pano de fundo, talvez peque por ser tardio. Acredito, no entanto, nas palavras de António Gedeão neste seu poema, apesar de ser um exercício diário e por vezes difícil, o de dar espaço e tempo à celebração e ao reconhecimento da poesia. Esforço-me diariamente. Este meu texto é também parte desse exercício.

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre as bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

(Um fiorde norueguês, nas primeiras horas de sol e de névoa).

ASM

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