Como uma carta

Amesterdão, Holanda

Querida Anne

Conheci-te numa época da minha vida importante para me conhecer. As palavras começavam a adquirir importância para o conseguir fazer e dizer-me. A procura da correspondência entre o que começava a ser e a consciência de mim passava muito pelas palavras.

Não me lembro bem como aconteceu cruzar-me contigo, o que me levou a ti ou o que me fez querer saber mais sobre a tua vida. Não se tratou de um encontro no sentido comum do termo, mas para mim foi um dos mais importantes da minha adolescência. Percebi, contigo, como as palavras podem ser um refúgio, uma fonte de força, uma justificação para vivermos o minuto seguinte da nossa vida. Através das tuas palavras, reconheci em ti um exemplo de determinação e de resiliência, que fez com que eu relativizasse os problemas comezinhos numa fase da vida em que eles podem adquirir uma dimensão gigantesca. Uma lição para recordar em todas as outras fases da nossa existência.

Na tua breve vida, não pudeste escolher e resististe. Eu pude escolher muita coisa que me fez o que sou hoje. Tenho de ver essa possibilidade como um privilégio. Desde as escolhas menores às escolhas mais determinantes. Aprendi a valorizar a liberdade de se poder escolher, ainda que por vezes seja difícil fazê-lo. Na tua vida, as recusas não foram determinadas por ti, por isso sempre admirei o modo inteligente e sensível como viveste com o que te foi imposto. Como não desarmaste e como a tua palavra foi a tua forma de resistência.

As tuas palavras deveriam ser suficientes para se perceber tudo sobre o holocausto. De tão real e presente que se torna cada vez que se lê o teu diário. Porque há quem o negue, quem se recuse a admiti-lo. Não são tão poucas pessoas quanto isso e parece que se reúnem, de vez em quando, e, juntas, constroem narrativas que negam esse período, os factos, as mortes e os testemunhos dos que lhe resistiram. A tua voz é importante, assim como a de tantos outros. Essas vozes têm de ser lembradas, relidas, ouvidas e divulgadas, de modo a que tudo quanto aconteceu não seja esquecido. É preciso lembrar que a fronteira entre o bem e o mal é ténue, que a natureza humana é capaz dos piores horrores, que a crueldade e o terror não são coisas longínquas, de um tempo muito lá atrás ou de um tempo e de um espaço imaginados. Que o total absurdo é possível e que a crueldade não tem limites. Fora o que não se sabe, o que se calou ou o que não se ouviu, apesar de ter sido gritado. Sabe-se já muito e ainda hoje se descobrem mais detalhes, mais possibilidades do horror, embora por vezes pareça que não é possível, que já não pode haver mais nada, porque o que já se sabe é demasiado desumano.

Tu resististe até o teu frágil corpo deixar. Ele sobreviveu a dois anos(1942-1944) de completa clausura num anexo num edifício com vista para um castanheiro, outros edifícios e uma torre de igreja em Amesterdão; a rotinas rigorosas que exigiam silêncio enquanto fazia sol lá fora; à imobilidade, ao mesmo tempo que o vento soprava no exterior e abanava os ramos das árvores; ao tédio das horas vagarosas que passavam fechadas num espaço pequeno para sete e depois ainda mais exíguo para oito pessoas; à angústia provocada pelo ruído dos aviões carregados de bombas para a Alemanha que sobrevoavam a cidade muito pouco habituada a tudo o que isso significava. De tudo isto falas no teu diário. Com detalhes. Quando saíste desse espaço o teu corpo fraquejou. Longe daquele espaço casulo, num outro, sem descrição possível – campo de concentração de Bergen-Belsen – acabou por sucumbir ao Tifo. Mais tarde, o teu pai, que sobreviveu a Auschwitz, disse que dentro do comboio,no caminho até ao campo temporário de Westerbork, tu fizeste tudo para respirar o ar do lado de fora, então «(…)Ninguém conseguia tirar Anne da janela. Lá fora era verão. Viam-se os prados e os campos ceifados. Aldeias fugiam diante dos nossos olhos. Os fios telegráficos quase roçavam nas janelas. Tudo isso nos dava a sensação de estarmos livres.(…)». (2,p.164)

Por tudo isto, quando estive em Amesterdão, escolhi. Amesterdão que eu conheci é uma cidade encantadora, com os seus canais que são como anéis em redor das casas e das árvores. Aqui também há casas sobre as águas, que são barcos com jardins de girassóis imensos, com janelas e varandas com canteiros floridos,caixas de correio, enfim, tudo o que pode fazer uma casa. Mas estas flutuam e dão corpo a um desejo de liberdade. Muitas coisas em Amesterdão são sinais de liberdade…Há igrejas de inúmeros credos e lembro-me que passei ao lado daquela que fica próxima da tua «casa», cujo sino ouvias tantas vezes e que te conseguia acalmar nos dias mais insuportáveis, a Westerkerk.

Nesta cidade há praças com esplanadas onde as pessoas se encontram e se demoram. As margens dos canais estão ligadas por muitas pontes, são atravessadas por bicicletas, carros e elétricos. Nos canais, há sempre barcos. Nas ruas, as pessoas preferem as bicicletas para se movimentarem, daí as inúmeras ciclovias. Tu costumavas observar da janela o ritmo das pessoas nas ruas. Ajudava-te a acreditar que a liberdade era possível, apesar daqueles dias confinados ao presente precário. A tua lucidez fez-me admirar-te ainda mais. Ao ler as tuas palavras, em linhas como estas «(…)Sentada confortavelmente à janela do escritório grande, estou a observar, através de uma fenda da cortina, o que se passa lá fora. Anoitece, mas ainda consigo ver o bastante para te escrever.

É curioso ver as pessoas correr! Parece que estão com pressa, quase que tropeçam nos seus próprios pés. Os ciclistas passam numa velocidade tal que não consigo distinguir as mulheres dos homens. (…)

Há mais coisas para ver: automóveis, barcos e chuva. Oiço o ruído do elétrico e ponho-me a imaginar as mais variadas coisas. Como nós aqui não temos estímulos, os nossos pensamentos também pouco variam. Dos judeus passa-se à comida, da comida à política, da política… mas já que falo de judeus: ontem, ao espreitar pela cortina, vi dois judeus. É uma sensação estranha, quase como se eu os traísse e estivesse aqui para espionar a sua infelicidade.(…)» (1,p.89), surpreendi-me com a tua visão lúcida e com a tua maturidade de apenas 13 anos. Era destas ruas que, com o tempo, iam chegando notícias desencorajadoras, que davam conta de mais restrições e sofrimento para os judeus e tantos outros.

Estive então alguns dias nesta cidade onde viveste os teus últimos anos com os teus pais e irmã. Vindos de outro país algum tempo antes, onde a existência se tinha tornado insuportável, indesejada e perseguida por tantos. Foram recebidos por amigos, alguns deles até aos últimos dias vividos aqui. Começaram por viver em Merwedeplein, um bairro nos arredores da cidade, onde frequentaste a escola Montessori. Quero dizer-te que hoje esta escola tem o teu nome. Miep Gies, uma das mais próximas e fiéis amigas, faleceu há dois anos. Foi sempre uma testemunha de tudo quanto a tua família viveu e sobre isso deu voz.

Durante a minha estadia em Amesterdão, tive de escolher o que visitar. Numa cidade com museus como o Rijksmuseum, Rembrandt e ainda o Museu Van Gogh, jardins, igrejas e pontos de interesse nos inúmeros bairros que a constituem, a escolha é difícil. A dificultar a escolha há ainda o fator da imprevisibilidade, que aqui se manifesta de inúmeras maneiras: exposições e música ao ar livre, pistas de dança em alguns recantos, desfiles de barcos nos canais… No entanto sabia que tinha de ir até à tua «casa». Hoje é um museu. Contra o esquecimento. A «casa» dos teus últimos dois anos transformada agora num museu , que mantém bastante do que foi para a tua família e para a família do Peter . A reconstituição contou muito com a ajuda do teu pai, que, em nome da memória futura , colaborou para que hoje fosse possível não esquecer.

Foi assim que escreveste como lá chegaram:

«Assim corremos debaixo da chuva…cada um com uma pasta e uma saca de compras completamente cheia, sabe Deus com quê. Os operários que iam para o trabalho olhavam-nos. Bem se lhes lia nos rostos que tinham pena de nós por irmos tão carregados e por não nos deixarem andar nos carros elétricos. A nossa estrela amarela falava por si. Pelo caminho fora, os pais contaram-me, tintim por tintim, como nascera o plano do nosso esconderijo…

Quando chegamos a Prisengracht a Miep fez-nos subir depressa para o anexo e fechou a porta atrás de nós. Cá estávamos…» (1, p.35)

Não uma «casa», mas um esconderijo, como dizes no teu diário-amiga (até nome lhe deste – Kitty). E o esconderijo é mesmo como descreves na página do dia 9 de julho de 1942. Acima do armazém do teu pai, há um escritório, de onde irradiam escadas, que vão dar a portas discretas que se ligam a mais escadinhas. Uma das portas disfarçada de armário, depois mais uma escada, até se chegar a uma anexo que dificilmente se adivinha com bastante divisões e recantos. E ainda com um sótão, onde muitas vezes te refugiavas. A observar o castanheiro. Li no outro dia a notícia da morte do castanheiro. Já fraco na sua sustentação, devido a um fungo, não sobreviveu a uma tempestade. Antes disso, os holandeses plantaram alguns dos seus caules num parque da cidade de Amesterdão e ainda noutras, também na Holanda.

Percorri esses espaços cheio de memórias de ti. No vosso quarto (teu e da tua irmã), pude ver os postais nas paredes, de que falas nos primeiros dias do resto da tua vida: «(…) O nosso quarto estava nu completamente. O pai trouxe toda a minha coleção de postais de estrelas de cinema e de vistas, e eu tranformei-os, com cola e pincel, em lindos quadros para as paredes. Agora o quarto tem um aspeto alegre. Logo que cheguem os van Daans havemos de construir armarinhos para as paredes e outras coisas úteis com a madeira que está no sótão.(…)» (p.40) Também numa parede pude ver, ainda que muito ténues, as marcas que o teu pai fazia e que assinalavam mais uns centímetros no teu crescimento e no da tua irmã.

No rés do chão do museu e com vista para um dos canais brilhantes da cidade, o visitante pode ver as inúmeras edições traduzidas do teu diário e ainda o original, que foi encontrado por Miep Gies no dia da vossa detenção e que foi guardado e preservado pelo teu pai. Há ainda objetos pessoais que, ao serem olhados, lembram as tuas palavras ao descrevê-los e a importância que tiveram naqueles dois anos.

Como muitas outras pessoas naquele dia, decidi visitar uma casa que é a história de muitas vidas interrompidas. Esperei muitas horas na fila, à entrada, enquanto na minha memória revisitava as tuas palavras, na expectativa do que iria ver a seguir. O que senti lá dentro levou-me às lágrimas. De tristeza mas também de perplexidade desesperada perante o absurdo que foi tudo o que aconteceu e que tu viveste estoicamente. A História explica, constrói teorias, apresenta factos encadeados que parecem resultar no que foi. Tenta reduzir o caos, a irracionalidade. Tenta. Com recurso a conjunturas, ideologias, líderes e seguidores. Tenta ainda. Mas não é por isso que se passa a compreender. Também por causa disso o silêncio de todos, nos corredores da «casa». Lembro-me bem disso e das minhas lágrimas ao percorrê-la.

Depois da visita, passei pela estátua que os holandeses ergueram em tua homenagem – tu, Anne, com os braços atrás das costas, de corpo inteiro, como inteira foste na tua breve existência. Muito próxima da igreja do sino que acalmava as horas duras e intermináveis.

Escrevo-te esta carta, como se fosse possível enviar-ta. Caso fosse, era isto que te diria e ainda mais : escrevo agora sobre ti, a tua vida, o teu diário, a tua família e a história que vos rodeou como a muitas outras pessoas. Falarei disto tudo sempre que puder, contra o esquecimento. Tenho-o feito junto dos meus alunos, aconselhando a leitura do teu diário. Já visitei com eles, virtualmente, a tua «casa». E enquanto tiver alunos fá-lo-ei. Vou dar-te voz, não vou deixar que ela deixe de se ouvir. Quero que conheçam a História que tu contas por dentro.

Todas as cartas têm um fim, onde habitualmente nos despedimos, ansiando por uma resposta. Esta espécie de carta não terá resposta. A pergunta que percorre estas linha ficará sempre sem resposta – como foi possível?

ASM

Os livros :

  1. Anne Frank, Diário, Edição Livros do Brasil
  2. Ernst Schnabel, No rasto de Anne Frank, Edição Livros do Brasil

O museu: Anne Frank Museum (seis línguas)

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5 thoughts on “Como uma carta

  1. Minha querida Ana: estou espantado, li o texto de ponta a ponta no maior dos silêncios e do interesse! Como se ainda fosse possível espantar-me…
    Este texto é brilhante, na verdadeira acepção do termo: literáriamente bonito, bem construído, com o ritmo certo, poeticamente integrando um momento histórico terrivelmente doloroso, testemunhado pela pequena (mas tão extraordinariamente adulta…) Anne, com quem tão bem e de forma tão sincera te solidarizas.
    Nunca um texto sobre viagens me pareceu tão acertado e tão completo: história, cultura, lazer, tudo se funde numa oportuníssima peça, escrita com as emoções ( e que bem!…) à flor da pele…
    No mundo sempre existem Anne Franks que nos fazem quebrar a costela nórdica e envolver no calor humano da partilha!
    Muitos, muitos e sinceros parabéns: é seguramente um dos teus melhores textos que li até agora, senão o melhor!!!
    Um grande beijo.

    1. Meu querido Amigo: mais uma vez, muito obrigada pelas tuas generosas palavras. O que senti ao ler o teu comentário deixou-me literalmente sem palavras – escritas e faladas, embora tivesse tentado escrever ou dizer a minha gratidão 🙂
      É muito bom, motivador e inspirador saber que este texto em particular foi lido dessa forma. Já falámos sobre as dificuldades que tive/senti ao escrevê-lo e sobre as minhas dúvidas.Que tu tão bem compreendeste. Fiquei muito feliz quando finalmente o terminei (há muito que o queria escrever), mas ainda mais por saber como o leste e o que sobre ele escreveste. E deste tipo de felicidade também sei que percebes bem…
      Beijo grande.

      1. Muitos mais o hão-de ler e reconhecer a inteligência, emotividade e qualidade literária que os teus textos, mas muito especialmente este, comportam! Beijinho e muitos parabéns, por este e pelos próximos…
        Quanto a uma opinião que te expressei há algum tempo – a tua entrega sincera a alguns assuntos dá-lhes outro corpo, outra espessura e outra pessoalidade… Enfim, a autora és tu e tudo há-de ir saindo naturalmente…

  2. Apreciada Ana Sofía: poco puedo añadir a las palabras del señor Mário Luís. Sólo que no leí el texto en silencio. En la radio estaban dando unas piezas para piano, que acompañaron a la lectura de tus líneas. Fueron unos momentos emotivos. Terriblemente emotivos. Por circunstancias de la vida, tuve la ocasión de conocer personas que escribieron libros autobiográficos, textos humildes de gentes humildes, pero honestas, dignas y que en un momento de su vida lucharon por un mundo mejor…y perdieron. Conocieron el exilio, los campos de concentración, y tantas y tantas penalidades. Tanto y tanto horror. Sigue escribiendo. Sigue haciendo leer a tus alumnos el terror que barrió Europa toda hace apenas 60 años…¡60 años! Tus alumnos necesitarán sin duda, puntos de referencia.
    De nuevo, leerte de nuevo ha sido un regalo.

    1. Xavier: muito, muito obrigada pelo seu comentário. Mais uma vez, de uma generosidade rara, pelo que diz e pelo que partilha. Todas as palavras serão poucas para impedir o esquecimento. Também é preciso alertar para novas formas de horror e conhecer o passado pode ajudar. É o que tento fazer. Desta maneira e aqui também.
      Mais uma vez, o meu agradecimento pela sua leitura atenta e por me dar conta da maneira como foi sentida.

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