Legendas

Quando viajo, conjugo muitas vezes estes três verbos na primeira pessoa: ler, escrever, ver. Não necessariamente por esta ordem, mas em sequências variáveis e em tempos vários, muitas vezes.

Escrevo para não esquecer. Fotografo pela mesma razão. Adoro fotografar, apesar de saber muito pouco sobre fotografia. Sei o que quero fixar e alio a isso a paciência necessária para conseguir registar detalhes, paisagens, monumentos, pessoas, enfim, o que desejo, no momento, reter.

As fotografias enquanto viajo acontecem muitas vezes. Ao mesmo objeto, para tentar encurtar a margem do erro. Para reduzir a distância entre a realidade e a memória dessa realidade. Isso quando é possível. Noutras ocasiões, fotografo com o intuito de escrever depois sobre o que fica naquela moldura. Outras vezes pelo puro prazer de fotografar, que para mim começa sempre por um impulso de isolar um detalhe do que estou a viver. Um fragmento, um segundo de um tempo vivido num sítio.

Apeteceu-me revisitar alguns espaços através das imagens. Imagens à espera de textos que as digam. Sei que um dia, para algumas, hei de encontrar as palavras certas. Outras não conseguirei tocá-las com palavras mais demoradas. Para todas, agora, uma legenda, um texto rápido na sua origem, curto no resultado. Enquanto esperam pelo texto.

Muitas viagens começam num aeroporto. Mais uma, a começar no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Uma promessa de música na zona de embarque. Que se cumpriu. Naquela manhã, a sair de um enorme piano. (Porto, Portugal)

Gosto imenso de pontes e não resisto a atravessá-las, parar a meio e depois continuar até à outra margem. Fotografo-as sempre que posso. Esta é sobre o rio Neva, em São Petersburgo. (Rússia)

Uma moldura para todos os retratos que quisermos. Este foi o que aquela manhã em Innsbruck me ofereceu. (Áustria)

Registar o horário dos barcos que partem de Bellagio, no lago de Como, e que seguem para diversos pontos das suas margeons. Lembrar-me agora que fiz a travessia no barco n.º 47, com muitas paragens ao longo do percurso. Foi uma viagem de duas horas, com tempo para ver, escrever e fotografar…até chegar a Como. (Itália)

Em Verona, na Piazza delle Erbe. Gosto de tirar fotografias assim: olhar para cima, elevar a objetiva acima da pessoa mais alta que está próxima. Esta ficou assim, com toda a fachada do Palazzo Maffei, de 1668, a ver-se. Foram as divindades pagãs que me levaram a dirigir para o alto a máquina – Hércules, Júpiter, Vénus, Mercúrio, Apolo e Minerva. (Verona, Itália)

Place Masséna em Nice. Gostei muito desta praça. Tanto, que já escrevi sobre ela aqui. Tanto, que me apeteceu ficar com ela na fotografia. Foi num sábado logo pela manhã. Daí o sol, daí a leveza dos passos das pessoas. (Nice, França)

Gosto muito de Milão. Muito por causa da sua catedral, que está aqui. Só ela e o gostar muito dela justificavam a fotografia. Mas não é só por isso. O vermelho do sinal da paragem do metro , do corrimão, do caminho das bicicletas e das pessoas que nessa manhã escolheram essa cor para vestirem também me levaram a querer fotografar. (Milão, Itália)

Adoro mapas. E estes encontrei-os assim que cheguei a Verona. Muitos, expostos desta forma, tão ao alcance do olhar. Havia mais, porém já não cabiam na fotografia. A maior parte deles a retratar pedaços de Itália. (Verona, Itália).

Desconfio que em termos estatísticos a probabilidade de encontrar tantos sacerdotes juntos num mesmo sítio, dispostos a posar para uma foto de grupo (foi o que fizeram a seguir, em frente à arena), é muito baixa. Eu achei que sim e por isso fixei-os. Coincidimos na praça Bra em Verona, Itália.

Uma das portas que dão acesso à zona mais antiga de Verona, a porta Borsari. Gostei desta janela e da sombra dos ramos que lhe tocam levemente. Gostei também muito da placa e de saber que estava a entrar na Verona ancestralmente romana a partir dali. (Itália)

Uma praça em Como. Atravessada por bicicletas, poucos carros e muitas pessoas. Estou do lado da igreja a focar aqueles quatro edifícios que achei tão bonitos. Também porque estive ali algum tempo, a percorrer o mercadinho que se vê no centro da praça – Piazza del mercato del grano. (Como, Itália).

Agora, o lado da igreja, a mesma praça. (Como, Itália)

A catedral de Como. De baixo para cima, depois da cabeça mais alta. Esta é a parte detrás. (Como, Italia)

Enquanto percorria uma das ruinhas de Saint Paul de Vence, espreitei para esta galeria e antiquário…(França).

Também em Saint Paul de Vence. À entrada desta loja, as cores e os aromas que nos lembram que estamos em plena Provença: dos chás, da lavanda e das flores. Depois da fotografia, entrei.

Uma pessoa a fotografar outra. Uma terceira a fotografar as duas. Num dos jardins do Hermitage, em São Petersburgo. Fora do museu, estava uma caleche. Gosto de pensar que ambos se deslocaram nela até ao museu. (São Petersburgo, Rússia).

A entrada para o Kremlin. Segurança em alto grau de eficácia. (Moscovo, Rússia).

Árvores com neve ao fundo e sombras no meio. Fui até ao fundo das árvores, para ver a neve mais de perto. Na Noruega, em agosto.

Um momento que exigiu uma decisão rápida, porque estava imensa gente neste dia neste palácio de verão de Pedro (Petrodvorets), perto de São Petersburgo. E de repente, um intervalo de tempo sem ninguém aqui. Focar e registar. O palácio e os seus jardins lembram muito os de Versailles, que lhes serviram de inspiração. São, no entanto, mais pequenos do que estes últimos. Ao fundo, o mar Báltico. (Rússia)

Uma varanda que me pareceu a moldura perfeita para aquele instante de luz …em Estocolmo. Foi durante a visita ao edifício da câmara da cidade. É ali que tem lugar o jantar da cerimónia da entrega dos Prémios Nobel. (Estocolmo, Suécia).

No mesmo edifício, em Estocolmo, uma pintura numa das paredes de uma sala. Cadeirões completam a decoração. Nada mais ali. Se calhar por isso fiquei ali parada a olhar. (Suécia).

Pedi para me tirarem esta. Numa das ruas mais estreitas de Gamla Stan, a parte antiga e o berço da moderna Estocolmo.

Outra rua em Gamla Stan, Estocolmo. Gosto do esforço que a luz do sol faz para tocar o chão desta rua. Só vestígios dela lá chegam. (Suécia).

Dubrovnik, Croácia, numa tarde quente. Uma praça. Muitas pessoas e pombas. Hora de calor para todos.

Exercício de revisitação terminado. Legendado. A ordem possível, subjugada à saudade dos instantes.

ASM

Anúncios

2 thoughts on “Legendas

  1. ¿Que eres, Ana Sofía? ¿Una ave marina, siempre volando sobre las olas del mundo? ¿Un soplo de aire fresco que recorre el mundo eliminando fronteras?
    ¡Que hermosos tus fragmentos, tus segundos de um tempo vivido num sítio. !

  2. Xavier…
    Muito obrigada pelas suas palavras tão simpáticas! É muito bom saber que continua a visitar este sítio e a ler as minhas palavras. Mesmo quando elas são poucas e dão lugar às imagens de uma fotógrafa impulsiva e indisciplinada.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s