Um sítio em Peste

Budapeste, Hungria

O sítio é a Gerbeaud, uma pastelaria e confeitaria em Peste. Fica num dos lados do Danúbio, o lado de Peste, que se liga a Buda por várias pontes. Uma delas é a das Correntes, para mim a mais bonita ponte da cidade e uma das mais bonitas que já vi. Eis parte dela, vista da janela do barco que me levou pelo Danúbio, ao longo das margens de Buda e de Peste:

A Gerbeaud fica em Peste, o lado da cidade que se vê desta janela. Fica um pouco afastada do rio, por isso não é visível daqui. Saindo da ponte por este lado, ficamos em frente a uma linha de edifícios, como o Modern e Breitner (mais à direita, um antigo armazém comercial, cuja construção decorreu durante o período 1910-1912), o Design Terminal (uma estação ferroviária que é agora um centro de design) e o Hotel Four Seasons Gresham Palace ( na imagem só se vê metade, mais à esquerda).

Para se chegar à Gerbeaud, temos de entrar em Peste e pode ser por aqui. Situa-se na Vörösmarty Tér. Seguimos a linha do rio à direita, depois da ponte das Correntes. Não é preciso andar muito, mas a certa altura temos de nos afastar do rio, em direção à praça.

Interior da Gerbeaud, o Salão vermelho

«Tu, olha aquele homem. Espera, não olhes agora, vira-te para mim, conversemos. Eu não gostaria que reparasse em mim, me visse, nem gostaria que me cumprimentasse. Agora, podes olhar de novo… Aquele baixo, entroncado, num casaco de pele com gola de fuinha? Não, nada disso. Aquele alto, pálido, de gabardina preta, que fala com a empregada loira e magra. Acabou de embrulhar casca de laranja cristalizada. Interessante, a mim nunca me comprou casca de laranja cristalizada.
O que é, minha querida?…Nada. Espera, tenho de limpar o nariz.

Já se foi? Diz-me, quando se for.

Está a pagar?…Diz-me, como é a carteira? Vê bem, eu não quero olhar para lá.

Não será uma castanha, em pele de crocodilo?…Sim? Vês, fico contente.

Porque é que eu fico contente? Porque sim. Pois claro, fui eu a dar-lhe a carteira, quando fez quarenta anos. Há dez anos. Se o amava?…É uma pergunta difícil, minha cara. Sim, creio que sim, amava-o. Já se foi?…

Ainda bem, se já se foi. Espera, vou pôr um tudo-nada de pó-de-arroz no nariz. Vê-se que chorei?…Uma estupidez, vê só que estúpida é a gente. O coração ainda bate forte, quando o vejo. Se posso dizer-te quem era? Claro que posso, minha querida, não é segredo. Esse homem foi meu marido.»

Assim começa o primeiro romance que li do escritor húngaro Sándor Márai, A mulher certa. Primeiro, três vozes que falam, mas que nunca se ouvem umas às outras quando relatam as suas vidas. Falam do mesmo, de como as suas vidas um dia convergiram e noutro se afastaram para sempre. Um triângulo. No início do livro, a voz de uma das pontas faz-se ouvir. Um longo capítulo, o dessa voz. A primeira visão que o leitor tem da história de uma mulher, de um homem e ainda de outra mulher.Fala a primeira, Marika,  com uma amiga. Falta o cenário, que é apresentado logo a seguir:

«Tu, vamos pedir um gelado de pistácio. Não compreendo porque se diz que, no inverno, não se pode comer gelado. Eu é no inverno que prefiro ir àquela pastelaria comprar gelados. Por vezes, acredito mesmo que podemos fazer tudo, não só porque é bom ou sensato, mas simplesmente porque sim, porque é possível. Pois eu, há alguns anos, desde que fiquei sozinha, gosto de vir cá no inverno, entre as cinco e as sete. Gosto deste salão vermelho, com os seus móveis de tempos revolutos, gosto das velhas empregadas, da praça concorrida vista por detrás das janelas e das pessoas que entram. Há uma espécie de calor em tudo isto, um ambiente fim-de-século no conjunto. E aqui o chá é melhor, já te deste conta?… Sei, as mulheres de agora já não vão às pastelarias. Vão aos cafés, onde tudo é à pressa, e nem se podem sentar tranquilamente, o café custa quarenta fillér, o almoço é uma salada, eis o novo mundo. Mas eu ainda pertenço ao outro mundo, ainda preciso desta pastelaria tão elegante, com mobiliário e tapeçarias de seda vermelha, velhas condessas e princesas, aparadores espelhados. Não fico aqui todo o dia, como podes imaginar, mas no inverno venho algumas vezes e sinto-me cá muito bem. E antes era aqui que me encontrava regularmente com o meu marido, à hora do chá, quando ele vinha do escritório, depois das seis. (…)»

Gosto de pensar que esse cenário é a Gerbeaud. Pode ser, muitos pormenores descritos pela personagem  coincidem com a realidade. E há a praça lá fora, que se vê das janelas da confeitaria, por entre as cortinas. No verão as mesas de dentro espalham-se pela praça.
Quando se entra, não se entra apenas num espaço, mas também num tempo que não é apenas o presente. Belos vestígios do passado lembram a cidade do tempo dos imperadores. O vermelho dos salões aquece, seguramente, os dias do rigoroso inverno que aqui se vive e viveu. Encontra-se neste espaço um pouco do que se pode ver em toda a cidade – detalhes discretos de uma elegância intemporal. Por vezes o conjunto  é sumptuoso, dotado de acentuado requinte, sobretudo no interior de certos edifícios. O exterior é bastante discreto, embora elegante. A Gerbeaud é assim. Elegante até no que oferece a quem a visita – a sua oferta de bolos e doces, desenvolvida ao longo dos anos e por várias gerações de pasteleiros e de confeiteiros, mantendo e renovando a tradição húngara nesta área, não esquecendo uma abordagem cosmopolita, é variada e deliciosa.Exemplos disso são os clássicos Dobos cake e o Esterházy cake. Lembro-me de ver nas vitrinas os bolos com várias camadas de recheios variados, adornados com frutos cristalizados e não cristalizados. Partia-se a fatia de acordo com a escolha do cliente, que era encaminhado para a zona das mesas por funcionários simpáticos e sorridentes. A essa mesa iam ter os bolos e o chá selecionados . Pode-se optar por outro tipo de doces, onde o chocolate ganha um lugar destacado, como se pode ver nestas imagens.

Há ainda outros doces, que não se servem às fatias, e que valem na sua individualidade, como os franceses macarons. Sinais das viagens dos primeiros pasteleiros desta casa, que percorreram muitos locais da Europa para se inspirarem e traduzirem esses sabores em novos doces e bolos. Henrik Kugler foi o primeiro a fazê-lo, a viajar, a saborear e a aprender, para mais tarde recriar na sua própria casa. Abriu a Gerbeaud em 1858, na praça József Nádor. Graças ao requinte na seleção de especialidades chinesas e russas, rapidamente a sua boa fama se espalhou pela cidade. Foi em 1870 que a Gerbeaud passou a estar na praça Vörösmarty, até aos dias de hoje.

Numa das suas viagens, Kugler conhece Emil Gerbeaud e  convenceu-o a partilhar com ele aquele espaço e a magia que oferecia a quem ali se deslocava. Tal como Kugler, Gerbeaud também provinha de uma família de várias gerações de pasteleiros. O seu talento traduziu-se  em Budapeste também através da criação de biscoitos, doces, bombons… Foi também por causa dele e do seu cosmopolitismo que a decoração da pastelaria lembra tanto outros ambientes, como certos lugares em Paris. Muitos materiais e modelos foram trazidos de lá, como aqueles que dão forma às mesas, aos candeeiros e a algumas peças decorativas em bronze.

Depois do relato de Marika, vem o de Péter, com quem se casara e de quem se divorciara. No meio de ambos, Judit, a voz do terceiro capítulo do livro. O leitor prende-se a estas personagens, ao que têm para dizer sobre o amor,a amizade, o peso das convenções no amor e na amizade,  a beleza, o casamento, a maternidade, a arte, a política, os desencontros, o ciúme, a deslealdade, o poder, a falta dele, a ambição, o dinheiro… Leem-se os relatos e fica-se a conhecer também um pouco da história que emoldura estas três vidas – a história da Hungria centrada na cidade Budapeste , cuja narração começa no intervalo entre as duas grandes guerras e prossegue no tempo, dando conta das profundas transformações económicas e políticas que o período posterior à guerra trouxe. O romance acaba com uma terceira voz, a de Lajos, o amante de Judit, umas das pontas do triângulo inicial.

Muitas vozes que dão voz à solidão que perpassa todo o romance. Uma solidão partilhada e intransponível, apesar das tentativas e das possibilidades para deixar de ser. O amor surge como uma das possibilidades. Mas no fim, todas as personagens estão sós. Afinal, como sempre estiveram, apesar do amor.

(Não tirei nenhuma fotografia durante a minha visita à Gerbeaud. E no entanto podia tê-lo feito, tive tempo e calma para isso. Todavia não aconteceu. As fotografias que acompanham este texto foram gentilmente cedidas por Anna N., a RP e responsável pelo marketing da Gerbeaud. Obrigada!/Köszönöm!)

Imagens em movimento da Gerbeaud do passado e dos nossos dias:

O site oficial: Confectionary Gerbeaud

O livro:  Sándor Márai, A mulher certa, Ed.Dom Quixote

ASM

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