À espera de Alice

Paris, França

Para a S., o V. e a Alice

O Sena e a Torre Eiffel da Pont Alexandre III.
O Sena desde a Pont Leopold Sedar Senghor.

Pensei em ir com eles. A Paris. Mais uma vez. Chegámos a falar sobre isso, a imaginar os sítios que queríamos visitar em conjunto e ainda recordámos aqueles onde já tínhamos estado. Alguns coincidiam, outros não. Por isso, planeámos momentos que podiam ser vividos juntamente, outros não, quando as nossas rotas divergiam num ponto, que podia ser um museu, uma livraria, uma praça, um café, uma galeria ou uma rua, daquelas tão parisienses, ao longo do Sena ou que a ele vão dar. Lembrei-me de algumas pontes que eu também queria percorrer novamente, com um novo olhar desde a minha última vez em Paris. Outras eu não conhecia e queria muito atravessá-las, como aquela que foi construída no tempo de Napoleão para celebrar uma vitória das suas e que liga o Jardin des Tuileries ao Musée d`Orsay. É uma ponte pedestre, atualmente reconstruída , de estrutura metálica com madeiras de árvores de terras longínquas. Hoje nela celebra-se muitas vezes o amor, tantas quantos os aloquetes lá deixados, num desejo irreprimível de eternidade. Os nomes denunciam histórias ímpares de um sentimento universal.

Os noivos : o pretexto para a viagem

A  S. e o V.  iam a Paris e isso era uma certeza. Os primeiros dias da estadia em França seriam dedicados à celebração de uma vida em conjunto que iria continuar, mas noutros moldes. Depois disso, dessa festa em família, viriam os dias em Paris. Sem mim, afinal, porque muitas coisas se interpuseram entre mim e essa cidade.

A S. e o V. viveram Paris nesses dias de verão atentos a tudo : jardins, praças, galerias, estátuas, fachadas de edifícios antigos, de edifícios modernos, igrejas, museus, palácios grandes, palácios pequenos, pontes e torres. Paris é feita de tudo isto e os dias deles foram preenchidos com quadros registados nos olhos de ambos, que habitualmente coincidem em muita coisa, do mais visível ao menos. E no que se pode ver e adivinhar nas fotografias que tiraram (todas as que aqui mostro foram tiradas por eles).

O que eles não sabiam é que esperavam por Alice. Eu também não sabia, ainda ninguém sabia, e a sua ida a Paris fez toda a gente feliz, mesmo sem se saber da Alice. Mas, se soubéssemos, ficaríamos ainda mais felizes. Gosto de pensar que Alice deve ter visto, à sua maneira, os quadros de Paris, sentido os cheiros dos jardins da cidade, deve ter pressentido de alguma forma a felicidade deles. Acho que isso se deve sentir, quando o momento feliz é vibrante, porque se vê um quadro, uma fotografia, uma fachada de uma igreja, uma ponte…Porque no Jardin des Plantes, eles apreciaram as flores e as plantas que tão bem conhecem, das quais sabem os nomes, características e todas as fases dos seus ciclos de vida. Falaram sobre isso, partilharam impressões, dúvidas e aprenderam juntos sobre o que ainda não sabiam.

O Jardin des Plantes existe desde o tempo de  Luís XIII, quando os seus médicos pessoais decidiram criar um espaço para plantarem ervas medicinais. Este jardim foi crescendo, albergando novas plantas, flores, árvores , graças a botânicos, médicos e naturalistas que serviram reis e que muitas vezes viajavam em busca de novas espécies. Neste jardim também se pode visitar o Museu Nacional de História Natural.

Na fundação Cartier, a S. certamente estremeceu ao admirar a beleza dos objetos expostos. Alice também se deve ter apercebido da desilusão da impossibilidade de visitarem o Museu d’Orsay naquele dia. A S. vai lembrar-se que tem de voltar a Paris para poder ir a Orsay, dessa vez com Alice. E nesse dia Alice vai ver, sentir e estremecer com tanta beleza num espaço como aquela antiga estação de comboios transformada em museu.

Jardin des Plantes

E aqui, perante a homenagem a Rimbaud em forma de escultura, a S.  trauteou Sérgio Godinho: 

Nos desertos do amor andou Rimbaud
ninguém sabe se chorou
Nessa foto, será ele
aquele ser hesitante
semeado, viajante
nas areias do açúcar mascavado
do amor desenganado
Nos desertos do amor andou Rimbaud
ninguém sabe se chorou
Encontrado na Abissínia
Jean-Arthur olhou a foto terramoto
cambaleante
comerciante traficante
semeado
encontrado na Abissínia
E a Poesia? Mera alínea?
E a Poesia? Mera alínea?
Nos desertos do amor andou Rimbaud
ninguém sabe se chorou

L'Homme aux semelles devant – escultura de homenagem a Rimbaud

Não deixaram de ir à colina encimada pelo Sacré Coeur e dali viram os telhados da cidade que se prolongam até não se conseguir ver mais. E subiram até lá ao topo, passando por Pigalle e pelo seu famoso moinho vermelho, por Montmartre, que me disseram que já não é a “casa” de muitos artistas, como estão na minha memória da última vez que lá fui. Subiram com Alice, mas isso eles não sabiam.

Não foram indiferentes à beleza, fechada e catalogada nos corredores dos museus ou em liberdade, nas ruas, paredes e praças.

Shiuuu… Perto do Centre George Pompidou.

Dedicaram algum tempo a percorrer a cidade através das suas águas, num dos bateaux mouches, uma forma de ver a cidade em movimento, acompanhando-a desde o seu coração, o rio.

Avistaram a torre que é sinónimo de Paris, sempre presente na paisagem, não importa o lugar onde estamos ou a hora do momento.

Descansaram e por momentos pararam o tempo e o caminho na place des Vosges. Não eram os únicos a ver dali o céu de Paris.

Quisera também transformar um desejo de há muito numa realidade : ver os jardins verticais de Patrick Blanc, no Musée do Quai Branly. Todo um edifício revestido a jardim…

Eu não fui com eles, mas as imagens que me trouxeram ajudaram-me a voltar a Paris. Através de outros olhos e com Alice, mesmo desconhecendo que eu estava à espera dela. Escolheram uma fotografia para mim, seguros de que iria gostar. Não se enganaram, é esta: Amour captif, Félix Sanzel ,1868. Uma escultura no meio das plantas e das flores do Jardin des Plantes.

 

 

 

A S. e o V. são a minha cunhada e o meu irmão. A Alice vai ser a minha sobrinha. Só souberam de Alice em Portugal, um mês depois de Paris. Também eu estou à espera dela.

 

 

 

 

ASM

_______________________________________

Weblinks:

Sobre Patrick Blanc: Jardin Vertical P. Blanc

Musée du Quai Branly: Musée du Quai Branly (video)

Fondation Cartier: Fondation Cartier pour l’art contemporain

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4 thoughts on “À espera de Alice

    1. Este comentário só podia ser teu, mãe 🙂 Exageros muito teus. E pela “private joke” no fim, também. Quanto aos anjos…invejo-lhes as asas, tudo o resto me parece maçador… 😀
      beijinhos!

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