A vertigem dos balanços e meio título roubado

Gosto pouco de fazer balanços. De averiguar o grau de cumprimento, de resolução, de correspondência entre o “deve” e o “haver”. Fazem-se balanços amiúde, em datas especiais, em finais de ciclos, etapas, fases… Fazem-se balanços na tentativa de aferir, apesar do imponderável que a vida tem e é. Gosto de pensar que resulta do balanço o desejo de levarmos do que vivemos o melhor para o momento futuro que logo se segue. O futuro está sempre muito próximo.O balanço em que eu gosto de pensar desenha um movimento pendular, para projetar o futuro sem esquecer o melhor do passado. É deste tipo o balanço que está no título.

A parte roubada do título é “A vertigem…”. Roubei-a a Umberto Eco, do seu livro «A vertigem das listas”». Um livro fabuloso, que se centra nas listas que sempre auxiliaram o homem a racionalizar e a ordenar o caos que o rodeia. Um auxiliar precioso na transformação do caos em cosmos, portanto. Umberto Eco dedicou-se então a listar e a categorizar as listas. Aquelas que existem desde tempos imemoriais, mas que deixaram vestígios… Uma vertigem muito humana, muito apetecível. E que listas resultaram dessa vertigem? Segundo o autor, de natureza variada – das listas mais práticas, que organizam os detalhes dos dias(muitas vezes com um limite, dada a sua natureza eminentemente referencial) , às mais poéticas, que procuram “(…)enumerar algo que escapa à nossa capacidade de controlo e dominação.(…)”. Textos literários, museus, enciclopédias, coleções, catálogos, dicionários, gabinetes de curiosidades, taxionomias, composições plásticas e musicais integram a lista das listas…A lista, também esta, pode ser interminável. E algumas inacabadas, em que o et caetera apenas fecha uma sequência para abrir todo um universo de possibilidades não ditas, não reveladas, não mostradas. Muitas vezes o silêncio depois da lista, tal a impossibilidade de nomear o indizível – “(…)Tal como os indivíduos e as coisas, também os lugares são frequentemente indizíveis e, mais uma vez, o escritor recorre ao et caetera da lista.(…)”. Contudo, desde o início até aos nossos dias, de um desejo de fechar uma espécie de círculo (ilusório…) à volta do objeto real ou imaginário, como forma de categorizar, ordenar, hierarquizar, passou-se a um desejo de excesso, de deformação do objeto listado. E por isso, o desejo de ordem incial passou a acolher um desejo de caos. Então temos, mais recentemente, a enumeração caótica, os elencos confusos (por exemplo dos surrealistas). Mas, subjacente, um propósito coerente, uma unidade que terá de ser adivinhada, (pres)sentida…Como escreveu Jorge Luís Borges em “Alguém Sonha” (in Os conjurados), respondendo, com uma enumeração, à pergunta: “Que terá sonhado o Tempo até agora, que é, como todos os agoras, o ápice?(…)”. De entre as respostas, esta – “(…)Sonhou a enumeração a que os tratadistas chamam caótica e que, de facto, é cósmica, porque todas as coisas estão unidas por vínculos secretos.(…)”.

Eu decidi deixar-me envolver por esta vertigem, a propósito de uma data – a de mais um aniversário. Recente, muito recente, e por sinal um número redondo… Lancei a mim própria o desafio de listar alguns dos meus sítios. De dimensão e geografia variáveis, como mais adiante se verá. Mas não apenas de sítios.Que sejam também um balanço, estas listas. Com uma vantagem sobre tantos outros balanços que se fazem aquando da celebração de números redondos – o saldo é positivo e o negativo também se torna positivo…Nada a lamentar, portanto. Apenas o desejo de transformar os ainda não lugares em lugares em mim, de aumentar a lista, mais e mais, e de que venham mais anos para a poder expandir em números e distâncias. Que o meu mapa pessoal se distenda e se povoe de ainda mais pontos visitados.

Patricia Schultz fez outra coisa – selecionou 1000 lugares a visitar antes de morrermos. Confesso que não gosto deste tipo de seleções, tão categóricas e sumárias. No entanto, apeteceu-me fazer um exercício simultâneo de revisão e de projeção. Contas simples, que me dizem o que falta. Muito, ainda, muitas horas e dias de viagem. E é tão bom saber que há tanto a haver! Balanço positivo, este também. O livro está organizado por continentes – vou ao índice ver em que página começa a Europa. Sou europeia por nascimento, por circunstâncias diversas até à data, mas o meu umbigo tem vocação para se descentrar e vibra por outros continentes desde há muito. Sei que esta minha condição vai mudar em breve. O livro começa pela Europa, precisamente. Também eu comecei. E, até agora: 72 locais dos 1000 listados. Estes podem ser cidades, hotéis, museus, praças, monumentos, fenómenos e parques naturais…

Outra sugestão de lista na minha estante – «City squares of the world». Lista de praças, espaços onde eu tanto gosto de ir e de ficar. Por momentos. Podem ser curtos, mas tenho sempre de parar. As praças foram feitas para pararmos nelas. 44 é o número das praças listadas neste livro. Parei em 19 dessas 44. Ei-las : Piazza della Signoria (Florença), Staromestske Namesti (Praga), Grote Market (Bruxelas), Piazza e Piazzetta San Marco (Veneza), Piazza del Campidoglio (Roma), Krasnaja Ploscad (Moscovo), Piazza Navona (Roma), Piazza San Pietro (Vaticano), Place des Vosges (Paris), Place Vendôme (Paris), Plaza Mayor (Madrid), Praça do Comércio (Lisboa), Trafalgar Square (Londres), Praça do Palácio de inverno (São Petersburgo), Picadilly Circus (Londres), Piazza Duomo (Milão), Hosok Tere (Budapeste), Plateau Beaubourg (Paris), Plaça dels Països Catalans (Barcelona).

 A ordem desta enumeração é a que corresponde à do livro. Não quero comparar o que não se pode comparar. Não quero um top das praças. Nada disso. A imagem de cada uma, que revivo cada vez que folheio o livro, traz consigo momentos e episódios irrepetíveis, vividos em fases diferentes da minha vida. Incomparáveis.

As listas podem não terminar mais. Estas são dessa natureza, também por isso segui o desafio. Gosto de balanços positivos e o universo de possibilidades que estas listas pressupõem fazem deste balanço um exercício feliz. Melhor assim, quando se celebram anos de sítios. Não estão aqui todos. As listas podem obedecer a critérios, categorias, para assim melhor servirem o propósito prático. Também eles são infinitos. Um exercício inglório, o de achar um fim ou um critério definitivo, ainda bem que não.

As minhas listas ou diversão à volta de listas

. Capitais

Lisboa,Paris, Londres, Madrid, Amesterdão, Bruxelas, Roma, Praga, Budapeste, Moscovo, Oslo, Estocolmo, Monte Carlo, Luxemburgo, Zagreb, Ljubljana

. Países

Itália, França, Espanha, Holanda, Bélgica, República Checa, Hungria, Croácia, Montenegro, Bósnia Herzegovina, Eslovénia, Rússia, Luxemburgo, San Marino, Noruega, Suécia, Alemanha, Mónaco, Rússia, Inglaterra, Suíça, Áustria, São Marino

. Línguas em contacto com o meu português

Espanhol, catalão, galego, húngaro, checo, russo, croata, italiano, holandês, inglês, alemão, russo, norueguês, sueco, francês, esloveno

. Catedrais

S.Paulo (Londres), S.Pedro (Vaticano), catedral de Reims,de Metz, de Chartres, de Notre-Dame de Paris, Colónia (Alemanha), Sagrada Família , Santa Maria do Mar , La Seu (Barcelona), catedral de São Vito (Praga), S.Basílio (Moscovo), catedral de Santo Isaac (S.Petersburgo), Santa Maria del Fiore (Florença), Basílica de São Marcos (Veneza), San Vitale (Ravenna), San Apolinario in Classe (Ravenna), Innsbruck (Áustria), Santo Estevão e São Matias (Budapeste), Mónaco, catedral de Como (Itália), Maiorca, catedral da Virgem das Neves (Ibiza), catedral de Antuérpia, Santiago de Compostela, Salamanca, Saragoça

. Museus

Louvre (Paris), Musée d`Orsay (Paris), Georges Pompidou (Paris), Musée Rodin (Paris), Museu do Prado (Madrid), Museu Thyssen Bornemysa (Madrid), Museu Picasso (Barcelona), Museu Tèxtil i d`Indumentária (Barcelona), Museu d’Història de la Ciutat (Barcelona), Fundação Joan Miró (Barcelona), Casa Museu Gaudi (Barcelona), Hermitage (S.Petersbugo), Galeria de Arte Moderna (Zagreb), Museu no Castelo de Bled (Eslovénia), Museu do Escorial (Madrid), Museu Casa de Anne Frank (Amesterdão),Galeria degli Uffizi (Florença), Museu Internacional de Cerâmica de Faenza, Pinacoteca di Forlí, (Itália), Museu de História Natural (Londres)[os museus portugueses não constam, seria uma lista imensa só para eles…]

. Aeroportos

Charles De Gaulle e Orly (Paris), Munique e Frankfurt , Malpensa e Linate (Milão), Heathrow (Londres), Tenerife, Schippol (Amesterdão; um dos mais organizados em que já estive e de onde fui, às 6 da manhã, para o centro da cidade, em 20 minutos, a tempo de comer pão quente numa padaria recém aberta, numa das muitas ruas que circundam os canais , no intervalo de uma escala para S.Petersburgo), Dubrovnik, Zagreb, Roma, S.Petersburgo, Moscovo, Oslo, Estocolmo, Nice, Maiorca, Ibiza, Barcelona, Bolonha, Budapeste, Praga

. Meios de transporte

Avião, comboio, carro, ferry, autocarro, barco, funicular, vaporetto, gôndola, elétrico, metro, táxi, jipe

. Fenómenos e paisagens naturais

Glaciar (Noruega), Teide (vulcão,Tenerife), fiordes (Noruega), lagos (Itália e Suíça), parque nacional de Plitvice (Croácia), lagoas açorianas (do Fogo e das Sete Cidades), Furnas (Açores), grutas de Postojna (Eslovénia)

. Ilhas

São Miguel (Açores), Madeira, Tenerife (Canárias, Espanha), Ibiza, Maiorca (Baleares, Espanha), Bled (Eslovénia)

. Lagos

Lugano, Garda, Como (Itália)

. Extremos ou pontas do meu mapa

Norte – Noruega(Bergen) | Sul – Tenerife |[Centro – Praga]| Este – Moscovo | Oeste – Açores

. My wish list

Índia (pelas cores, sabores e aromas), Nova Iorque (preferencialmente no inverno) , Tibete, Grécia (porque já lá devia ter ido há muito…), Nepal , Noruega (novamente, também por causa do meu desejo de observar uma aurora borealis), Marrocos (pelos mercados, por Marraquexe e pelas noites no deserto) , Turquia ( para ir ao Bazar de Istambul e a Hagia Sophia e por causa do resto…), Grécia (porque já li tanto sobre, em verso, em prosa, de autores gregos e não só), Itália (outra vez e mais vezes, uma delas para tirar um curso de história de arte, outras para conhecer o que falta), Argentina (sobretudo Buenos Aires e também Patagónia, que dizem ser maravilhosa), Índia (pelos templos de todas as religiões do mundo num só país), Vietname (porque tenho um amigo que já lá viveu e me falou da beleza da baía de Halong e do templo da literatura em Hanói), Grécia (também por causa das estátuas, das colunas e dos templos), fazer a viagem no expresso do oriente, Japão, China, um qualquer país africano de expressão portuguesa (tenho vontade de conhecer os trópicos da minha língua e as paisagens quentes que lhe dão cor), Grécia (ainda por causa de Homero e das ilhas brancas com azul à volta – Mikonos, Santorini e Creta), Índia (pelos sabores, pelos chás, pelos rostos e pela música das inúmeras línguas faladas e cantadas)

Um ponto final nas listas. Incompletas por natureza, recortes que se fazem, deixando de fora muito mais, sempre. Como as molduras nos quadros, como afirma Eco. As molduras delimitam o que é ilimitado. Uma proposta de recorte. Estes foram os meus recortes.

 P.S. – Votos de bom Natal!

 ASM

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Livros :

Umberto Eco, A vertigem das listas,Difel

Patricia Schultz, 1.000 places to see before you die, Workman

Maria Teresa Feraboli,City squares of the world,White Star Publishers

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