Mercados S, M, L e XL

Croácia, Noruega,Hungria, Holanda

Vendedora de flores, no mercado de Zagreb, Croácia.

Adoro mercados. Não importa a sua dimensão.Pequenos, médios ou grandes, os verdadeiros mercados são tudo o que esta fotografia representa: cor, alma e dádiva.

As cores são as dos frutos, dos legumes, das flores, dos artigos para casa, do artesanato, da roupa, das plantas que não dão flores…A juntarem-se às cores, os aromas. Todos misturados, mas bem distintos. Uns mais intensos, outros mais suaves. Uns mais familiares, outros nem tanto.

A alma é a que se pressente na voz que nos chama para cada bancada. Às vezes é um sorriso.

Cada fruto, cada flor, cada cadeirinha de madeira que se fez ou cada árvore que se plantou para agora crescer longe tem atrás de si um rosto com uma história. Em todos os mercados cruzam-se histórias de vidas – dos que vendem e dos que compram. Muitas vezes surpreendentes, como a daquela norueguesa que vendia t-shirts no mercado de Bergen. O mercado de Bergen fica bem no centro da cidade, ao pé da água. Ali podemos comprar um pouco de tudo. Na zona reservada aos alimentos temos os legumes, os frutos, mas o que mais impressiona é a variedade dos peixes – os arenques e os salmões fumados, o bacalhau fresco e as saladas servidas em tacinhas. Saladas variadas – com legumes e marisco , mas também com frutas deliciosas.

Bergen é uma cidade que recebe a chuva quase 360 dias por ano. Eu estive lá num dia soalheiro, de um sol aberto e franco. Foi então ao percorrer este mercadinho que me cruzei com aquela vendedora que me ouviu falar português, por isso também falou. Um português com uma cadência muito familiar e a calma de quem gosta de o pronunciar. Perguntei-lhe como aprendeu. Respondeu que foi com Caetano Veloso, sobretudo, mas também com Chico Buarque. Com a música brasileira que adorava e que a fez também adorar a língua. A resposta ao porquê veio naturalmente – porque gostava de ouvir esta língua cantada e isso fez com que a quisesse aprender para também a falar.

Mercado em Zagreb

Outras histórias são tristes. Lembro-me daquela família incompleta – mãe e três filhos – no mercado de Zagreb. Incompleta todos os dias em que se levantava cedo para ir para o trabalho, ali. Faltava o marido e o pai, falecido há poucos anos. Antes, com ele, os dias eram mais leves e alegres. A loja da família, que se abria para o mercado, era o ponto de encontro de muita gente amiga. Amizades de longa data ou muito recentes, construídas entre as trocas comerciais.

Parque nacional de Plitvice

A dádiva está em cada coisa que se oferece. Coisas que vêm de casas, que saem das mãos de cada agricultor ou artesão, que são cuidadas para depois deixarem de pertencer. Outras são transformadas – dos frutos, um licor, da madeira, brinquedos, da lã, casacos, da cera, o mel, da pele, uma carteira. E cada coisa traz atrás de si um rosto, uma vida feita da dádiva que alimenta os dias.

Os figos, as amêndoas e as amoras dentro dos copinhos brancos que se veem nesta foto foram como que uma dádiva dos deuses, durante a caminhada pelo parque Plitvice, na Croácia. Este parque é património natural da Unesco. Um parque imenso, com água de dezasseis lagos, que se desdobram em cascatas . Com inúmeros animais que ali vivem em paz, com as suas crias. Um parque de águas de um verde como eu nunca vira, um verde translúcido, que deixava ver os peixes e plantas de muitas cores que nele viviam; ou então um verde leitoso, ladeado de verdes arbóreos. Os trilhos ao longo do parque são como que varandas para os recantos de uma natureza luxuriante. Atravessamo-los caminhando, mas com vontade de parar muitas vezes e só olhar. Em todas as direções, porque a natureza ali tem múltiplas formas – vegetais, minerais e animais. Alguns trilhos são sobre os lagos verdes e deles vislumbram-se as algas e a vegetação que pende para as águas. No dia em que lá estive estava muito calor e a caminhada durou horas. Por isso, a dádiva em forma de frutos e licores foi a mais apetecível e retemperou forças. Comi amoras e parece que ainda lhes sinto sabor, de tão amoras que eram. De um sabor autêntico, sem derivações.

Parque nacional de Plitvice.

Àquela vendedora de flores no mercado de Zagreb comprei um ramo para oferecer à A., a nossa queridíssima guia croata que estudara em Coimbra e que amava o português, Portugal e a sua cultura. Quis fixar esse momento e a cuidadora de flores acedeu, generosamente. Não foram as flores amarelas as que ofereci à A., mas outras, mais duradouras, como desejei que duradoura fosse a lembrança desse encontro e vida partilhada durante uma viagem pela Croácia. As flores ficavam muito próximas da praça principal da cidade de Zagreb, um ponto obrigatório a quem se passeia pela cidade.

Flores no mercado de Zagreb

Em Budapeste, o espaço de um dos mercados é uma ponte – a das correntes. Numa das partes da ponte sobre o Danúbio, estão os comerciantes de artigos em lã, em madeira, em cortiça, em peles variadas, de bijuteria manufaturada, parecendo que estamos até numa outra época, lá mais atrás. Na outra metade da ponte, alguns músicos e os que preparam petiscos ali mesmo, em grande lumes e quantidades.

Músico na ponte das correntes, Budapeste

Lembro-me também das flores ao longo das margens dos canais de Amesterdão. De muitas cores, em baldes com água, sob toldos. E recordo-me também muito bem de ver passar muitas pessoas com flores nas mãos. Flores elevadas a uma necessidade elementar. Em Amesterdão as janelas das casas são altas, ocupando quase a totalidade das fachadas das casas estreitas. E entre o dentro e o fora apenas os vidros – são muito raras as persianas, cortinas ou estores. Deste modo o dentro é também de todos e as flores e os vasos estão muito presentes nos parapeitos ou mesmo no interior das casas. Por isso, quando não se passa por um canal que acolhe um mercado de flores nas suas margens, provavelmente encontramo-las integradas nas casas.

Pequeno mercado na ponte das correntes, Budapeste

A minha mais recente memória de um mercado tem cheiro a rosas, alfazema e mel. É a memória do mercado de Nice, na Provença, com as cores e aromas desta região a inundar um sábado de manhã. Um grande mercado , que a certa altura se transforma noutra coisa. Mas dos aromas, das cores e da transformação falarei noutro texto. O mercado de Nice , na zona mais antiga da cidade, prolonga-se na memória e precisa de um texto a ele unicamente dedicado.

Um mercadinho de flores, Amesterdão

ASM

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