O cavaleiro, o peixe e a memória. No meio, as sombras.

Veneza, Itália

Grande Canal, Monet (1908)

Há muito tempo que tenho este desejo: escrever sobre Veneza. A partir das memórias que tenho desta cidade. Começar pelo que recordo e continuar por tudo o que fui acrescentando a essas memórias – músicas, filmes, imagens, luzes, sombras, palavras de outros. Estas últimas em poemas, contos, romances, crónicas e outras formas difusas ou híbridas, como se esta cidade exigisse algo novo, ainda não escrito, ainda não inventado para ser dita. Como se cada palavra não bastasse e as frases sobre ela fossem líquidas e por isso não se deixam fixar. Como ela. A história de Veneza é a história de uma beleza fugidia, que sempre resistiu aos que a tentaram primeiro conquistar, para depois a aprisionar. Ve-ne-za, be-le-za. Em português a beleza de Veneza ecoa nas próprias palavras que rimam. E qualquer texto dá a ilusão que a aprisionamos, ao tentar dizê-la. Muitos conseguiram de maneira sublime.Muitos tentam, ainda…

Apetece-me dizer, agora, neste momento do texto, como David Mourão-Ferreira: «Não há cidade como Veneza que nos acenda este ciúme por continuar a existir sem nós lá estarmos. Parece-nos injusto que não cesse de pertencer a outros – com o enredado mistério das suas calli e dos seus canali, o aconchego dos seus campi, todo o feminino fulgor dos seus palácios, das suas igrejas, da sua laguna, dos seus próprios tugúrios – enquanto vegetamos longe de todos esses prodígios. Sombriamente chegamos então quase a desejar que Veneza entretanto morra afogada ou enfim adquiram fundamento outros boatos soezes desde há muito propalados a seu respeito: que tem os dias contados, os pulmões numa lástima, artroses e reumatismos de variada espécie, complicações gástricas já detectáveis por um péssimo hálito. Mas, se de tempos a tempos lá damos um salto, logo verificamos – paradoxalmente suspirando de alívio – que se encontra afinal de excelente saúde.» (in “Veneza: modo de usar”,Os ócios do ofício).

E escrevo com ciúmes de não estar lá. Segundo David Mourão-Ferreira, Veneza já não uma cidade, mas uma mulher. Com a eterna promessa da decadência. Que vai chegar. Que vai surgir rapidamente através de muitos sinais. E afinal não. Mulher cidade que também foge do seu fim, anunciado e evidente em tantas outras por sinais reconhecíveis. Em Veneza não, nesta cidade são sinais de outras coisas. Veneza é única. Por isso temos sempre de fazer um exercício de reformulação quando a pensamos ou dizemos. Não encaixa em modelos de cidades, mesmo daquelas que, como ela, são atravessadas por água. A água é também parte desta cidade, habita-a.

Palácio do Doge, Monet (1908)

Sinto ciúmes de não caminhar pelas ruas e pelos campi venezianos e de não me sentir outra vez como o cavaleiro que deixou o país frio, do norte, rodeado pelos seus abetos e tílias na floresta da sua casa e partiu numa primavera rumo a Jerusalém. Na viagem de regresso a casa, conheceu Veneza e o tempo que o levava a sua casa dilatou-se por causa dos mosaicos, das praças e dos palácios. E da água.

«Veneza, construída à beira do mar Adriático sobre pequenas ilhas e sobre estacas, era nesse tempo uma das cidades mais poderosas do mundo. Ali tudo foi espanto para o dinamarquês. As ruas eram canais onde deslizavam estreitos barcos finos e escuros. Os palácios cresciam das águas que reflectiam os mármores, as pinturas, as colunas. Na vasta Praça de São Marcos, em frente da enorme catedral e do enorme campanário, o cavaleiro mal podia acreditar naquilo que os seus olhos viam.

Aérea e leve, a cidade pousava sobre as águas verdes, ao longo da sua própria imagem. Passavam homens vestidos de damasco e as mulheres arrastavam no chão a orla dos vestidos bordados. Vozes, risos, canções e sinos enchiam o ar da tarde. Nunca o cavaleiro tinha imaginado que pudesse existir no mundo tanta riqueza e tanta beleza. Não se cansava de olhar os degraus de mármore, os mosaicos de oiro, as solenes estátuas de bronze, as águas trémulas dos canais onde se reflectiam as leves colunas dos palácios cor-de-rosa, as pontes, os muros cobertos de sumptuosas pinturas, as igrejas e as torres. A cidade parecia-lhe fantástica, irreal, nascida do mar, feita de miragens e reflexos. Era igual às cidades encantadas que as fadas fazem aparecer no fundo dos lagos e dos espelhos.» (O Cavaleiro da Dinamarca, Sophia de Mello Breyner Andresen)

Hoje já não com tanto daquele poder de cidade próspera, num ponto estratégico da geografia comercial. Com raras pessoas a passear vestidas de damasco, talvez mais no Carnaval. O seu poder agora é de outra natureza. O de encantar e seduzir para sempre quem lá vai e se maravilha com as ruas que não são ruas, com as pontes que são mais do que isso, com as casas que são palácios, com as colunas que são como portas, com as balaustradas que vestem as fachadas de uma forma única. As águas mudam de cor consoante a hora do dia e muitas vezes o sirocco visita esta cidade e lá permanece, abraçando-a , apaixonado pela sua beleza. Não é uma cidade como todas as outras, por isso o cavaleiro pensou ter encontrado um lugar criado pelas fadas, pois só elas teriam o poder de dar corpo ao sonho mais bonito para uma cidade.

Palácio do Doge e praça de São Marcos, Canaletto

Veneza é líquida. Nas fachadas e nos interiores dos palácios vê-se o reflexo das sombras ondulantes da água que os rodeia. As luzes e as sombras dançam interminavelmente nesta cidade. O chão da basílica de São Marcos, por força do tempo, das águas e do trânsito humano durante os seus rituais, incorporou as ondas líquidas da água que corre sob si. Então caminha-se pela catedral e sentimos as ondas nos pés, mas estas ondas são de pedras e estacas feitas. Veneza é vertical. As suas torres e campanários elevam-se sobre as águas e os telhados que brilham ao sol.

Veneza pode não ser uma cidade e ser um animal. Tiziano Scarpa imaginou-a um peixe: «Venezia è un pesce.». E depois convida-nos a olhá-la no mapa. Olhar com atenção e deixar que as associações nos ajudem a categorizá-la e a aproximá-la de algo familiar à nossa imaginação. Um enorme peixe, então, que em tempos ali parou. Depois de muito navegar pelos mares do mundo inteiro, de ter parado em muitos portos desse mesmo mundo. Mas chegou ali, àquele ponto do Adriático, e parou. Diz o autor que Veneza sempre existiu como é, desde os tempos mais remotos e que começou no dorso deste peixe. No seu dorso, as escamas transportam consigo madrepérolas do médio Oriente, areia fenícia transparente, moluscos gregos e algas bizantinas. A ligar o peixe a terra, uma longa ponte, comparada a uma linha de pesca, a prender o peixe, para ele não fugir e não se perder para sempre. Para tornar o peixe terra construiram-se pilares, estacas, que sustêm a cidade. Esses pilares de madeira, como grandes pregos, podem ter entre 2 a 10 metros de altura e um diâmetro de 20, 30 centímetros. Todos imersos na laguna, o espaço líquido escolhido pelo peixe. O autor fala de um imenso bosque invertido…imerso nas águas. Os troncos de madeira deste bosque, com o tempo que corre como águas, mineralizaram e, sem contacto com o ar, transformaram-se quase em pregos de pedra firme e resistente. E depois de falar do corpo de Veneza, desde as suas mais fundas entranhas, Tiziano Scarpa fala do que acontece ao nosso corpo quando percorre esta cidade – os nossos pés, as nossas pernas, o nosso coração, as mãos, boca, nariz, ouvidos , olhos e rosto como que se reinventam neste espaço peixe, pleno de estímulos para todos os nossos sentidos.

Veneza é agora de uma beleza redundante, na memória que construo dela, as suas imagens são redundantes, no sentido em que Marco Polo usa esta palavra, “redundante”, quando descreve Zirma a Kublai Kan:

«A cidade é redundante: repete-se para que haja qualquer coisa que se fixe na mente.(…) A memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir.» (As cidades invisíveis, Italo Calvino). Tento então recordá-la nos seus sinais que são como pontes para a construir e fixar aqui.

Os campi e os palácios venezianos são redundantes, assim como as suas pontes, as suas gôndolas com os sestieri ( e não quartieri, porque nesta cidade são em número de seis) representados simbolicamente na proa negra – Santa Croce, Cannaregio, Dorsoduro, san Polo, san Marco e Castello. Como se Veneza toda navegasse, contrariando a força das estacas que a sustentam e a fixam aos olhares que a percorrem. Na proa das gôndolas ela navega, desde tempos remotos, com saudades da sua liberdade. Mas esta cidade é singular, única, como só as cidades sonhadas o são. Por isso, qualquer texto que a tente dizer é sempre como uma aproximação ao sonho que a constitui. Muitas vezes é difícil aceder ao sonho, lembrarmo-nos dele nas suas formas distintas. Daí as sombras neste texto. As minhas palavras são. As dos outros são luzes.

ASM

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Livros:

David Mourão-Ferreira, Os ócios do ofício, Guimarães Editores

Sophia de Mello Breyner Andresen, O cavaleiro da Dinamarca, Figueirinhas

Tiziano Scarpa, Venezia è un pesce, una guida, Feltrinelli

Italo Calvino, As cidades invisíveis, Teorema

Ver:

Veneza – Site oficial /Sito ufficiale

Veneza – Mapas virtuais / Mappa virtuale

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