Exercício de imaginação

Nice, França

Promenade des Anglais – do alto do castelo de Nice

Não é difícil este exercício. O de imaginar outros tempos a partir do “aqui e agora” ao longo da Promenade des Anglais, em Nice. As origens e a história da Promenade (La Prom, versão mais curta e mais familar do nome da marginal que é o orgulho das gentes de Nice) ajudam muito neste exercício de imaginação. Como saber que esta linha de costa encantou os ingleses no século XIX, que a Rainha Vitória tinha por hábito ali passar longas temporadas, que o Hotel Negresco foi um generoso presente de amigo para amigo… Um tinha o dinheiro, muito; outro era apaixonado por cozinha e sonhava cozinhar num sítio para muita gente. Então o primeiro ofereceu um hotel ao segundo. Henri Negrescu era o nome deste último, Roménia a sua terra natal. E o seu amor pela cozinha passou a ser praticado todos os dias ali, durante anos. O hotel foi ganhando clientes e um enorme prestígio. Apenas ensombrado pela primeira guerra, que o transformou em hospital de campanha. O cozinheiro não suportou ver a sua cozinha, as salas onde servia a sua comida e as suas memórias de sonho feliz devassadas pela violência e pelo absurdo da guerra. Decidiu não mais entrar na cozinha para criar momentos de felicidade servidos à mesa de quem os ansiava. Virou costas e depois da guerra o hotel foi deixado ao abandono.

Hotel Negresco

Depois da morte em Paris do então naturalizado francês Henry Negresco, o hotel conquistou o direito ao estatuto de quase palácio. Pelos seus salões passaram nomes da aristocracia europeia, das artes e do espetáculo em voga. A decoração dos salões, dos quartos, das pequenas e grandes salas do hotel e dos corredores transformam este edíficio num interessante museu privado, lembrando épocas de grande prosperidade e inovação artística que marcaram a Côte d`Azur na primeira metade do século XX. Uma estátua de Miles Davis à porta transporta-nos para serões animados nas noites quentes de verão, embaladas pelo jazz.

Percorrendo a Prom, viaja-se até finais do século XIX, continuando pela primeira metade do século XX. As fachadas dos edíficios mais antigos ajudam a caminhar ao ritmo dos dois tempos. Alguns postais que se vendem por ali mostram corpos de homens e mulheres que os começavam a revelar no escasso areal da praia mediterrânica, graças à ousadia com o nome Coco Chanel. Os seus biquinis começaram a aparecer aqui, nestas praias do sul de França. E nesses postais aparecem os veraneantes elegantes, com os seus fatos de banho, biquinis, chapéus…facilmente os imaginamos a percorrer a PromÉ só olhar para os que passam no “aqui e agora” e ver os que aqui estiveram anteriormente. Em vez dos que caminham com os seus cães e headphones, vemos aqueles que elegantemente e ao seu ritmo desfrutavam do sol. Agora veem-se pessoas a correr, a andar de bicicleta , de skate ou de patins em linha. Sozinhos ou aos pares. Antes, os casais: de vestidos longos e sombrinha, elas, de fato, eles. Eventualmente algumas crianças, que agora correm ou andam de triciclo, naquele tempo permaneciam mais quietas e estupefactas com a luz do sol, o mar (inacessível, tão raros eram os banhos nele) e a extensão da Prom. Tem seis quilómetros de comprimento, que hoje são rapidamente percorridos por quem queira pegar numa das bicicletas azuis da cidade e que estão disponíveis para todos.

Não é dificil, portanto, imaginar o “antes” da Promenade de “hoje”. Paralelamente ao caminho das pessoas, o caminho dos carros. Hoje modernos, rápidos e barulhentos. Passam em grande número, porque ali, naquela avenida,ao longo da baía dos Anjos, havia e há casinos, cafés e hotéis. Com varandas e esplanadas com vista para o Mediterrâneo. E essa linha marítima é também o caminho para um outro casino, o do Mónaco. Fica ali tão perto e é fácil imaginar as mesmas pessoas que percorrem a Promenade de dia, elegante e discretamente vestidas, com cores claras nos vestidos longos e nos fatos, para melhor suportarem o calor, a seguirem, de noite, num carro rumo ao Mónaco. Mas nessas noites, os vestidos eram certamente mais coloridos do que aqueles que usavam de dia, com cores mais vibrantes e brilhantes. Perfumes de flores da riviera francesa, cujos nomes eram números (até hoje), davam aos aromas marítimos o toque das flores. O mais famoso: o n.º 5 de Coco Chanel. Era o quinto perfume de uma série de cinco, que o nez da casa com nome de mulher lhe apresentou como horizontes de possibilidade. Juntamente com outra série numerada, de 20 a 24. O preferido dela foi o frasco com o número cinco. Tinha dentro um aroma amadeirado e floral . Foi o preferido dela e o de muitas mulheres. Ainda hoje. Não quis dar-lhe um nome, preferiu o número que entendia que lhe dava sorte, tantas as boas coisas que lhe tinham acontecido associadas a esse número.


Foram os ingleses que primeiro se encantaram com este mar e com o calor da cidade, mesmo no inverno. Tanto, que decidiram transformar o caminho que segue o mar nesta longa avenida, elegante e discreta. Daí Promenade des Anglais. Até hoje.

ASM

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Weblinks:

Hotel Negresco, Nice

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