O que fazer com a ideia de corpo

Nice, França

David Mourão-Ferreira, O corpo iluminado


Dorso

terso

morno

denso

Corpo

nu

Horto

Berço

Torso

tenso

Torre

Tu

– David Mourão-Ferreira, O corpo iluminado

Pode-se fazer da ideia de um corpo um poema, como fez David Mourão-Ferreira. Pode-se ainda explicar como se faz, como neste poema:

Corpoema

Das sílabas a espátula

começa pouco a pouco

a modelar-te em alma

o que era apenas corpo

De sílabas a estátua

De lâminas o sopro

O que era apenas alma

volve-se agora corpo

– David Mourão-Ferreira, Os ramos Os remos

Francisco Simões desenhou os corpos e as palavras de David Mourão-Ferreira vieram depois, aliando o ritmo dos traços ao ritmo das palavras nos versos dos poemas do livro O corpo iluminado . Noutras ocasiões, as esculturas de Francisco Simões anunciaram as palavras do poeta e romancista, nas belíssimas capas das obras do autor. Ideias de corpos que se transfiguraram. Materiais e artes várias tornaram visíveis essas ideias, comunicando sempre, como se essa ligação fosse sentida como absolutamente necessária e imperiosa.

Em Nice, ao longo das avenidas Jean Jaurè e Risso, pude ver o que outros criaram a partir da sua ideia de corpo. Como ligaram essa ideia a outras, subvertendo-as ou acrescentando algo mais. Passeando pela promenade des Arts . Des Arts, muito por causa do Museu de Arte Moderna e de Arte Contemporânea (MAMAC) que aí se encontra e ainda devido à possibilidade de nos cruzarmos com criações artísticas em espaço público.

Percorri essas avenidas, que se ligam uma à outra, todos os dias da minha estadia em Nice, pois era na boulevard Risso que se situava o hotel onde estava hospedada. Tinha de as percorrer, se queria chegar ao mar, ao fundo, depois de me ter cruzado com as materializações de uma ideia. Tirando os corpos transformados, em ambas as avenidas econtramos o mais comum: pequenos supermercados, livrarias e alguns antiquários, pequenos cafés de bairro, lavandarias e residências. Fachadas de cor ocre com janelas de portadas coloridas. A cortar as avenidas, algumas perpendiculares, que dão acesso a pracinhas ou a outras ruas de residências.

Seguindo então o caminho do hotel até ao Mediterrâneo, até à Promenade des Anglais, passa-se por…

La tête (au) carrée

A ideia parece ter sido esta: dar a uma biblioteca as formas, os contornos do corpo. O repositório do conhecimento sob a forma de livros iria ter a forma do repositório do conhecimento no corpo: a cabeça, sobretudo, assente em ombros. Uma cabeça que se quis originalmente “ao quadrado”, para sugerir as possibilidades e potencialidades que os livros nos dão de aumentarmos o que somos. Agora simplesmente “Tête carrée”. A chamada “escultura habitada” – pelos livros, pelos leitores, a casa habitada da memória do conhecimento. E é no quadrado que os serviços de apoio aos livros têm lugar. Os livros esperam pelos leitores num outro conjunto arquitetónico muito próximo da “Tête”. Os livros estão nas prateleiras, nos corredores, nos pisos de uma imensa biblioteca, ligada a outras bibliotecas no mundo. As prateleiras multiplicam-se graças às ligações virtuais no espaço, que se somam às ligações que um leitor sempre estabelece em si entre as leituras que fez , faz e fará.

Vinte e oito metros de alumínio erguido em forma de corpo, graças à colaboração dos arquitetos Francis Chapus e Yves Bayard na materialização do sonho de Sacha Sosno. Técnicas da arte da navegação contribuíram para que esta biblioteca anunciasse um rosto. Feito de conhecimento, de livros e de memória.

A Fonte do sol

Place Masséna – Nice

Em plena Place Masséna, um deus antropomórfico, já desde os gregos antigos. Apolo, deus do sol e das artes, tão humano nos seus contornos que chegou a escandalizar a mentalidade conservadora de uma época que o removeu da fonte e da praça – nos anos 70 do século XX. Durante 22 anos, a praça viveu sem o seu sol. Sem a beleza de Apolo que ressurgiu, num mármore ainda mais branco e do alto dos seus 7 metros. No intervalo, os planetas que rodeiam Apolo – Marte, Mercúrio, Saturno, Vénus e Terra – ficaram sem a sua luz marmórea que domina toda a praça. Sem a luz de mármore de que é feito o corpo divino e que encerra as possibilidades de claridade absoluta.

Mas agora está lá, no centro da fonte. A rodeá-la, fachadas e colunas que lembram os tempos em que Nice era de Itália. As cores e as linhas são italianas, como são muitos dos recantos desta cidade do sul de França . Cidade que é francesa desde os finais do século XIX.

Comunication à Nice


Sete corpos suspensos no ar, procurando contrariar a força da gravidade que os colaria ao chão, não fosse a ideia de os elevar. Corpos dispostos ao ato de comunicar, no centro de um espaço público, uma praça. Onde pessoas passam por pessoas. Onde se trocam olhares quando se cruzam corpos. Aqueles estão imóveis, sugerindo o tempo e a calma necessárias para uma comunicação plena. Ou então lembrando que, apesar do tempo e da calma, ela pode não acontecer. A mensagem pode ser muito opaca, não permitindo ver através das palavras pronunciadas. Como os corpos suspensos, que durante o dia são opacos. À noite, enchem-se por dentro de luz. Cada um com uma cor, que vai passando de corpo em corpo. Como se a mensagem fosse chegando a quem se quer tocar com a palavra que ilumina. Pode acontecer interiorizarmos, incorporarmos as palavras, então o verde , que era a cor de um, passa para o corpo de outro e ali permanece. Jaume Plensa imaginou estes corpos comunicantes. No entanto, a linguagem e a comunicação através dela também causam equívocos e dão lugar a imponderáveis. Assim sugerem as diferentes posições destes corpos, que nem sempre se olham de frente.

Tango: vestir os corpos de negro e de dois fazer um

Pessoas que decidiram vestir o corpo de negro ou de outras cores escuras e deixaram que ele seguisse o ritmo do Tango. Aos pares. Corpos colados e embalados num ritmo sensual e melancólico, transformando aquela pracinha rodeada de jardim ao pé do Grande Hotel Aston numa pista de dança. Numa noite quente de verão, a meio da semana. Juntos, numa espécie de anfiteatro, com a música que saía de uma pequena aparelhagem. Música tão envolvente que não precisava de estar muito alta para fazer dançar o corpo feito de dois. Quem passava parava e olhava. Assistia, sem a perfeita noção do ritmo que tem de ser dançado pelo corpo para ser verdadeiramente sentido.

Indiferentes aos olhos dos outros, os pares concentravam-se na música quente e triste. A iluminar a dança, as luzes das duas ruas paralelas e separadas pelo jardim e, mais à frente, as luzes dos homens de Jaume Plensa.

ASM

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Sobre Sacha Sosno :  www.sosno.com/

Sobre a biblioteca :  www.bmvr-nice.com.fr/OPACWebAloes/index.aspx?IdPage=76#plan

Sobre Jaume Plensa :  www.jaumeplensa.com/

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