Da beleza que olha…

Eze, França

Eze situa-se na região dos Alpes Marítimos, na Côte d`Azur, a 11 km de Nice (a oeste) e a 8km do Mónaco (a este). A 427m , sensivelmente, acima do nível do mar. Originalmente construída para defesa militar. Remonta ao período medieval. Para quem está do lado de Nice, então seguir pela A8 e depois optar pela “Moyenne corniche” em direcção ao Mónaco, até encontrar a indicação para Eze. Eze village e não Eze-sur-Mer. Se se preferir uma vista mais panorâmica sobre o Mediterrâneo, então a melhor escolha é a “Haute Corniche”. Número de habitantes permanentes: 14.

Entre outras informações, o essencial para lá chegar – direcção, estradas, quilometragem. Em poucas linhas se diz isso. Porque há pressa em chegar ao que mais impressiona. Pela beleza: ali, altiva e sedutora. Podia demorar-me a descrever as estreitas ruinhas medievais fora do tempo, as pequenas lojas e galerias de arte que celebram a beleza nas peças que se mostram. A dizer a alegria que é poder ver e falar com o artista que está no seu atelier ou no cafézinho logo em frente, sentado, guardador das suas obras. Ou ainda concentrar-me na beleza das casas em pedra cor de terra com as suas janelas que também encantam.

Uma das muitas galerias em Eze

Não quero demorar-me a escrever sobre isso. Nem sobre o Mediterrâneo, que pelas suas cores ali merecia um texto. Quero, isso sim, chegar ao topo da vila, ao jardim exótico, nas ruínas de um castelo do século XII . Ali, quase a tentação de parar e admirar a extravagante e exótica beleza dos cactos de inúmeras espécies que convivem naquele jardim, no lugar mais alto de Eze. São muitas espécies, mais de 400, originárias de África e da América. Algumas nunca tinha visto. E no entanto…Detenho-me na beleza das mulheres delicadas na forma, fortes no poder de sedução. Vivem noite e dia no meio dos cactos, com picos e caules imensos…Alguns algo agressivos nas suas formas. As mulheres emergem então, do meio deles, e olham o Mediterrâneo… Mulheres esguias e como que fugidias. Fogem ao olhar, nunca saindo de onde estão. O olhar por momentos perde-se – ou nos picos dos cactos, ou na vastidão do mar ou ainda nas linhas das encostas e dos telhados das casas com cor de terra. A cor dos seus corpos confunde-se com a cor da terra do chão onde estamos e dos caminhos de casas que dão até elas. Por momentos fugazes o olhar dispersa-se, mas logo é atraído por e para cada uma das mulheres. Mulheres deusas. Foram imaginadas assim, mulheres deusas da terra, por Jean-Philippe Richard . Por isso corpos em terracota. Ou não. Seria para ser uma estratégia de sedução : a cor dos corpos que confunde os olhares, que os cativa, mas que os leva a dissiparem-se noutras cores e linhas.

Eze e o Mediterrâneo vistos do Jardim Exótico

As deusas são treze. Com nomes de mulheres e de deusas. Com versos quase colados ao corpo de terra, como se as suas palavras também fizessem parte da sua natureza. A sedução em graus variáveis… A primeira das deusas, logo no início do jardim, é Justine ou Ísis. A única grávida no conjunto de treze, como se anunciasse as possibilidades de beleza. Grávida da terra que se tornou Eze a partir de Isis, diz a história, misturada com a lenda. A lembrar o poder gerador da deusa Ísis – deusa da maternidade e da fertilidade – adorada pelos fenícios que ali estiveram. As outras possibilidades do belo são: Barbara, Chloè, Margot, Charlotte, Marina, Isabeau, Mathilda, Rose des Vents, Rose, Anaïs, Céline e Mélisandre.

Justine ou Ísis : Vous m’avez reconnue… / Je suis la même / Et pourtant autre.

Tive a sorte de ir a Eze a uma hora próxima do crepúsculo. E também num dia quente, cujo calor trazia consigo uma neblina que tornava a linha do horizonte ainda mais indefinida. Tive ainda a sorte de antes de Eze ter visitado uma fábrica de perfumes – a Fragonard, que fica na parte baixa e fora das muralhas da vila. Ali vi as oficinas onde as flores da riviera francesa são transformadas em essências, depois em perfumes. Flores como as rosas, os cravos, as violetas e as mimosas. Às flores daqueles sítios juntavam-se outras, de jardins e campos longínquos e que dão origem a aromas mais ou menos doces, mais ou menos fortes…A fábrica não é grande e o visitante sai de lá com uma miríade de aromas na sua memória. Por isso, o jardim de cactos sem cheiro foi invadido pela minha memória recente dos aromas das flores. Para mim, o Mediterrâneo ali tem cheiro – do quente e das flores da riviera.

Margot : Suivez-moi, jeune homme, Et vous connaîtrez tous mes secrets… Ou presque.
Charlotte : Chut, vous ne savez rien / De ce à quoi je pense / Derrière mes paupières closes.
Chloé : Je ne sais où je suis née / Mais ici j’habite maintenant.

ASM

 

 

 

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