Ravioli alla nonna

Forlì e Predappio, Itália

Ravioli é o nome de uma massa italiana. Pode ser recheada com queijo, pedacinhos de carne ou de peixe ou verduras. Talvez o recheio seja uma questão de imaginação gastronómica, no entanto a massa é uma questão de paciência, generosidade e dedicação.

A minha primeira estadia em Itália foi marcada por isso – paciência, generosidade e dedicação. Era muito jovem e passei 10 dias na casa de uma família italiana da região de Emilia Romagna. Família nuclear constituída por pai, mãe e filha. Mas este núcleo vivia imerso nos laços que fazem uma família, pois muitos dos seus membros residiam na mesma localidade, Predappio, grande parte deles em casas contíguas, em que a comunicação era imediata e fácil: uma família no piso térreo, outra no andar de cima, a casa grande era a da nonna. Mais à frente, na mesma rua, os tios e os primos.

Esta família, a famiglia F., recebeu-me de forma muito generosa, como se fosse um deles e os ritmos dos seus dias, os seus rituais familiares e as rotinas partilhadas passaram a fazer parte da minha vida durante aqueles 10 dias. Um ritual muito apreciado por todos os membros era o almoço de domingo, na casa da nonna. Todos convergiam para lá e bem cedo, logo pela manhã. As mulheres mais velhas tratavam da logística muito italiana que rodeia qualquer refeição. E naquele domingo, muito também por minha causa, o almoço ia ser massa, ravioli, preparada pelas mãos da nonna, com a ajuda das filhas e netas. E eu pude ver como nasce aquela massa: a mistura da farinha com o sal, os ovos e a água; o amassar, o tender e o deixar repousar para depois moldar. Entretanto o recheio precisa de ser cuidadosamente preparado. Lembro-me que observava e fazia perguntas. Pacientemente, explicavam-me o que era natural há tantas gerações.

O almoço foi marcado pela presença de todos, por uma alegria ruidosa, que se misturava com um orgulho familiar muito evidente e vivido prazenteiramente por todos. Um orgulho sentido naquele dia em especial, porque estava lá alguém que trazia consigo outro olhar e uma história que vinha de outra casa e família. Tudo tinha de ser partilhado : a comida, as tradições presentes nos mais pequenos gestos, os laços familiares e a terra da família.

Predappio

Predappio era a terra, uma pequena cidade rodeada de encostas verdes, férteis e vestidas de vinhas. Em Predappio, espaços como a igreja, o município e os jardins são os eixos de um convívio frequente entre os membros da comunidade. A história desta cidade cruza-se com uma vida que marcou Itália – a de Benito Mussolini. Ali nasceu e a sua casa natal é agora um museu. O seu túmulo, última casa deste homem, tornou-se um local de peregrinação para os saudosistas de um tempo que eu conhecia dos livros de história, mas que surgiu iluminado por velas recentes . Velas acesas por quem visita esse espaço e que sente esse tempo com nostalgia.

A partir de Predappio, pude conhecer a realidade muito italiana de várias famílias – as que alojaram as minhas colegas do grupo. Estávamos todas em locais diferentes, mas todos os dias nos reuníamos de manhã, em Forlì. Eu ia de autocarro para esta cidade, a poucos quilómetros da minha casa. Juntava-me aos italianos trabalhadores e estudantes que se deslocavam para lá também. E o caminho era entre as tais colinas de vinhedos. Até que chegávamos à cidade, ao limite máximo de autorização de circulação de transportes naquele espaço urbano. No centro histórico só eram admitidas as bicicletas. Descia, como todos os outros passageiros, e seguia a pé até ao centro. As ruas soavam a italiano, constantemente. Como chegava bem cedo pela manhã, cruzava-me com o abrir de portas das lojas , o início do mercado quando era o dia. O meu destino era a escola.

Todos os dias de manhã tínhamos aulas de italiano na escola e os conteúdos eram os que se consideraram fundamentais para a comunicação do dia-a-dia com os nossos anfitriões e para nos podermos orientar nas ruas e sítios visitados: galerias, museus, estações de comboios…

Lembro-me bem do ponto de encontro do grupo – a Piazza Aurelio Saffi. Dos gelados comidos em conjunto, observando o movimento daquela praça central. Da visita à Pinacoteca da cidade, que dava para a praça. Forlì possui uma arquitectura muito heterogénea, ditada pelos diferentes períodos históricos que ali deixaram marcas. A praça Saffi é um bom testemunho de todos esses tempos: com a sua igreja românica de San Mercuriale, o Palazzo del Podestà de quatrocentos, o Palazzo delle Poste (palácio dos correios) já fala do período fascista, enquanto a igreja Santa Maria della Visitazione nos mostra ecos do século XVIII. Todos estes edifícios servem de cenário ao núcleo da vida forlivese que é a praça.

Claustro da igreja de S.Mercuriale, Forlì

Forlì faz parte de um roteiro pouco ortodoxo para aqueles que percorrem Itália de acordo com os roteiros turísticos, em que palavras como “clássica”, “romântica”,“bela”, “monumental” e “eterna” fazem parte dos textos que anunciam os sítios desse país único. Apesar de ter conhecido primeiro o que fica à margem desses itinerários, pude perceber por que motivos esses adjectivos são inseparáveis de Itália. De toda a Itália. E ainda outros tentam caracterizá-la. Muitas vezes superlativados, tais as características dos lugares naquela península com dois mares a rodearem-na. No entanto, todos são poucos, insuficientes, para dizer um país como aquele.

Conheci cidades que fogem às palavras quando tentamos descrevê-las, como Bolonha com as suas altas torres, Florença , Faenza , Veneza sobre as águas, Ravenna, Rimini e ainda a República de San Marino. E ainda vilas e aldeias próximas de Forlì. Para além de Predappio, recordo-me de Forlimpopoli.

Conheci pessoas, histórias dessas pessoas e das suas famílias. Vivi experiências únicas que definitivamente me fizeram o que fui depois.Tudo o que vivi e senti ajudou a conhecer-me melhor. E para tal muito contribuiu a paciência, generosidade e dedicação de uma família que me recebeu em sua casa. Depois desta vez em Itália, reencontrei-me com algumas pessoas e voltei a muitos dos sítios de um país que se tornou também meu. Como aconteceu neste Verão. Mas antes dessa memória, tinha de recuperar esta, mais antiga, inicial e iniciática.

Ana Sofia Melo

_____________________________________

*Estas fotos não são minhas. São de dois postais que ainda guardo.

Web link para a receita : Ravioli-Tradizione

Mapa e links relacionados :

Sobre Forlì: Comune Forli, Italia

Um breve filme sobre Forlì: Turismo Forlivese

Sobre Predappio: Visitare Predappio

Anúncios

9 thoughts on “Ravioli alla nonna

  1. Gostei: e muito interessante a introdução – através de questões e temas aparentemente secundários, introduz o leitor com toda a naturalidade na vivência e no ambiente destes menos conhecidos cenários urbanos de Itália.

  2. Recordo o teu entusiasmo quando regressaste desta viagem. Lembro-me de já então falares da preparação dos ravioli, por exemplo, mas o que mais me ficou na memória foi falares da forma como as mulheres italianas, mesmo as muito jovens, se esmeravam a arranjar-se, a maquilhar-se…
    O nosso professor Giuseppe Mea iria gostar de ver esta relação de uma das suas discípulas ao seu país.
    Beijinho!

    1. Obrigada pelo teu comentário! Parece que esta minha aventura ainda tem ecos em ti 🙂 Sim, na verdade os aspectos que referes também me impressionaram na altura. Ainda hoje é assim…Que será feito do nosso “maestro”?…
      Beijinhos!

      1. Aqui está o “maestro”. Gostei muito dessa sua relação. Na próxima vez que for a Itália, deve ir ao Sul, uma zona onde não nasceram nem Mussolinis nem Berlusconis. Querem tomar um café comigo?

  3. Foi com grande surpresa e grande satisfação que li este seu comentário…Muito obrigada!(Como encontrou o meu texto?…)Espero que esteja bem.Ainda a leccionar?E sim, aceito as suas sugestões,claro! O sul está nos meus planos também. Roma é a Itália que conheço mais a sul, falta-me o que resta a partir daí, incluindo as ilhas. Este ano continuei pelo norte, fui conhecer os lagos: Como e Garda. Hei-de escrever sobre eles…
    Eu não vivo no Porto (presumo que ainda viva nesta cidade), mas num saltinho ponho-me lá, para um eventual café. Obrigada pelo convite!

    1. Já me reformei há três anos, mas continuo em actividade e, claro, continuo a viver no Porto, embora passe agora mais tempo em Itália. Se lhe ocorrer estar no Porto, entre em contacto comigo (giuseppemea@hotmail.com), para tomarmos um café, possivelmente também com a Ana Margarida.

      1. Olá professor!
        Fiquei tão surpreendida como a Sofia. Ainda se recorda de nós?
        Moro um pouco mais longe, em Ponte de Lima, mas certamente gostaria de os rever a ambos.
        A FLUP marcou-nos realmente e aprender italiano foi um prazer (ainda guardo os livros “In italiano”, de capa amarela).
        Até qualquer dia!

  4. Se estudassem agora italiano, já não usariam aqueles livros de capa amarela, mas sim a minha gramática de italiano que publiquei o ano passado na Porto Editora. Embora morem longe, sempre calha de vir aqui ao Porto e assim aprovetar-se-ia para tomar juntos um café. O meu contaco é: giuseppemea@hotmail.com.
    Até um dias destes e felicidade para as duas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s