Na boca do tubarão

Fiordes, Noruega

Foi isso que quase vi – a boca de um tubarão e eu tinha de entrar nele. A lembrar mesmo isso. Visto de frente, com a boca aberta. E eu a entrar, assim como os restantes passageiros daquele ferry num dos magníficos fiordes da Noruega.

Para se conhecer dois dos maiores e mais bonitos fiordes , o Hardangerfjord e o Sognefjord, o melhor é fazê-lo a bordo de um tubarão/ferry. Desta forma ficamos a conhecer alguns dos seus braços e os seus recantos improváveis. Na Noruega, acontece muitas vezes a estrada onde circulamos acabar e depois dela só a montanha. Às vezes o engenho norueguês em forma de túnel conseguiu atravessá-la. O mais longo túnel que atravessei na Noruega tinha 20km…Era bastante estreito, mas com a largura suficiente para duas vias. E não havia necessidade de mais – carros, camiões e autocarros para um lado, carros, camiões e autocarros para outro.

As estradas na Noruega existem nas medidas certas e em número que revela equilíbrio e sensatez. O limite de velocidade é o necessário e rigorosamente respeitado pelos condutores. Condutores que muitas vezes imaginamos a parar, a diminuir a velocidade, só para admirarem o que vêem de ambos os lados – água (dos lagos ou dos fiordes) e montanhas. E animais e pessoas. Os animais podem ser cabras da montanha, que saltitam pelas encostas. Imagino também renas. Não as vi à solta, devem ser em maior número mais a norte, escondidas nas inúmeras florestas deste país. A única que vi estava presa. As pessoas percorrem as escarpas fazendo trekking ou de bicicleta de montanha. Outras preferem acampar ao lado das montanhas, com vista para a água, que está parada, nos lagos ou fiordes, ou que vem de cima das inúmeras quedas de água que se vêem de baixo. Existem muitos parques de campismo na Noruega, com tendas e casinhas de madeira, para se poder estar, sem tempo, a admirar a natureza líquida e verde daquele país.

Quando uma estrada acaba, então o nosso caminho continua, mas por cima da água. E esperamos por um ferry, que liga as duas margens do fiorde. O tubarão, que se abre. Mas um tubarão que acolhe os da terra e os de fora. Para os de fora, tudo é surpreendente e a travessia tem contornos nunca vistos…A começar pelaágua tão quieta e profunda do fiorde. A sua profundidade é impressionante, equivalente à altura das montanhas que o rodeiam. Surpreendem também as povoações encaixadas nas encostas, tendo como horizonte o outro lado, igualmente elevado e verde. A cada povoação que se vê associam-se as perguntas – como se viverão os dias aqui, encaixados na montanha? Como será o inverno rigoroso e com tanta noite de dia aqui?

Foi-me contado que nos anos 40 do século passado uma das montanhas tinha derrocado e destruído grande parte de uma povoação, vitimando muitas pessoas. A essa derrocada seguiram-se a reconstrução e uma outra derrocada nos anos 70. Novamente se ergueram as casas encostadas à montanha que teimava em unir-se à água. Ainda lá estão, essas, com as pessoas dentro, como se de lá nunca tivesem saído.

Para as pessoas daquelas terras, os tubarões que cruzam aquelas águas são os aliados perfeitos para a organização dos dias. Entra-se neles para ir ao outro lado para compras, consultas, visitas aos amigos, enfim, para o que preenche o quotidiano calmo e sereno de cada um. O condutor do ferry conhece bem os seus passageiros habituais, pelo nome, com um sorriso de cumplicidade. Os passageiros estão gratos ao tubarão e a quem o comanda, sobretudo aqueles que se movimentam já com dificuldades em terra.

Naquele tubarão entrou um senhor numa cadeira de rodas, que foi logo auxiliado por elementos da tripulação do ferry, com a ajuda de alguns passageiros. Tinha alguma idade e ia para sua casa, vindo da outra margem. A sua casa e a sua vida tinham outra montanha como cenário e o outro lado do fiorde como companhia diária. Ao chegar ao seu destino, esperava-o ansiosamente a sua mulher à porta de casa e foi novamente a tripulação que o ajudou. Juntamente com a sua esposa, esperavam o tubarão mais três passageiros – um casal e o seu cão. A companheira do passageiro do ferry tinha qualquer coisa nas mãos, indistinta à distância.

Mas, à medida que o ferry se aproximava, pude perceber bem o que era – uma caixa. Para oferecer, para materializar a gratidão. Sabia que tinha de volta o seu marido e a certeza de que numa próxima vez o tubarão não falharia. Que o outro lado estaria à distância de alguns minutos de viagem. Por isso, uma caixinha de frutos silvestres para a tripulação sorridente. Ela também, muito. O marido acolhido em casa, que se estendia pelo cais, naquele sítio. Os frutos recebidos com alegria, depois de um breve diálogo caloroso. Ali ficaram, marido e mulher, com acenos de um “até à próxima viagem”. Até o tubarão se tornar pequeno e ainda mais pequeno, com a missão de deixar pessoas.(…)

[Os textos que aqui deixo não são escritos “de rajada”. Geralmente só me sento a escrever quando tenho as memórias dos sítios bem “arrumadas” e quando vislumbro um fio condutor para o meu texto. Tenho mais facilidade em começar e continuar, do que em terminar um texto. Muito talvez devido ao prazer que me dá escrever sobre viagens que tanto me marcaram de muitas maneiras e reviver a sua memória. Cada texto é um exercício de recordação, de rememoração que se deseja prolongada…um texto sem final…Tal como desejo que cada viagem seja – interminável, sem o regresso inevitável, que é uma espécie de fim.Mas todos os textos têm de ter um ponto final. Acontece o final demorar mais a escrever que o início e o desenvolvimento.

O final deste texto estava a demorar a aparecer. Voltei a esta memória muitas vezes e não conseguia sair do ponto de transição para o fim.

Acontecimentos exteriores à memória escrita da Noruega definiram o último ponto final que faltava e que não era para ser. Depois do dia 22 de Julho já não escrevi mais neste texto sobre o tubarão dos belos fiordes. Porque tudo o que escrevesse a partir desse dia já seria depois do que aconteceu. E no momento em que o irracional invadiu as horas, os dias e as memórias de todos, mesmo daqueles que nada ou pouco sabiam da Noruega, percebi que tudo o que pudesse escrever já não seria igual nem totalmente fiel ao que poderia ter escrito antes. A sombra do horror pairaria sempre sobre os fiordes e as vidas que ao seu lado vivem, dia após dia. A leitura deste artigo In Norway, The Past is a Foreign Country (NY Times), escrito de dentro e com o coração de fora, à vista de todos, fez-me perceber que a Noruega que eu conheci vive um processo de mudança(s). Os rostos das vidas interrompidas para sempre, aqui, Vítimas na Noruega (Público), fizeram-me acreditar que a Noruega recuperará o melhor de si e vencerá o que num momento de total irracionalidade quase a derrubou. E o passado transformar-se-á, espero eu, cada vez menos num lugar estranho. As flores na cidade de Oslo, a entrega dos milhares de noruegueses e a dor partilhada transformada em força darão lugar a novas memórias.

As minhas tenho-as comigo e voltarei a escrever sobre este país e este povo encantadores, que se alimenta de liberdade, equilíbrio e tolerância. Mas tenho de esperar antes de voltar a escrever…as imagens do horror ainda estão muito presentes e por enquanto tenho de preservar a memória da Noruega anterior à sombra. Sobre essa Noruega sem sombras escreverei , pois é essa que conheço.]

Ana Sofia Melo

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Sobre os fiordes:

Sognefjorden  (EN)

Hardangerfjord (EN)

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