Cacela : poema azul e branco

Cacela, Portugal


Foram as palavras dos poetas que me levaram a Cacela. Funcionaram como mapa e cartão de visita. E quando lá cheguei, encontrei as palavras que tinha lido nas paredes das casas brancas, ainda mais brancas por causa da luz anunciada nos versos.

Esses poemas são curtos, contidos. No entanto dizem tudo sobre Cacela: da sua beleza, da sua luz, do seu calor, das suas cores. Também da sua história , da qual fazem parte nomes que lembram outros sítios, ainda mais meridionais. Os poetas , os conquistadores e guerreiros árabes estiveram ali. Se calhar os poetas-guerreiros ou guerreiros-poetas: ambos desejam Cacela pela sua beleza, como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen. Ambos rendidos àquele canto do Algarve, banhado pelo mar e pela ria Formosa.

Poema «A conquista de Cacela», Sophia de Mello Breyner Andresen

Cacela fica muito perto de Tavira. Cacela fica num ponto elevado da geografia algarvia, como se quisesse dali ver sempre o mar e o que está para lá dele. Como se desejasse seduzir quem por ali passava, à procura dos lugares que ainda não estavam nos mapas todos. Mas isso foi há muito, muito tempo. Hoje Cacela aparece nos mapas, é um ponto. Há também Vila Nova de Cacela, mais afastada do mar, mas Cacela, a Velha, a dos poemas, não pode viver sem ele.

Poema de Eugénio de Andrade

Entra-se em Cacela pelo meio de casas brancas e azuis. Baixas. Por cima o azul límpido do céu. Sobe-se em direcção ao centro da vila e dos poemas registados na memória. No sítio mais elevado, a fortaleza. As muralhas.O cemitério antigo e a cisterna. A igreja. A igreja é branca por fora e por dentro. No interior também há o azul, o amarelo e o frescor reconfortante para quem vem de fora, com a luz no corpo.

Os poemas acompanham-nos sempre pelas paredes das casas de Cacela: de Sophia de Mello Breyner, de Eugénio de Andrade, de Ibn Darraj Al-Qastalli (poeta nascido em Cacela em 958). Palavras daqueles que também não resistiram a Cacela, que se renderam à sua beleza. As ruas têm os nomes de quem transformou aquele sítio em versos. E então caminhamos e passamos por poetas e pelos seus versos. E pelo silêncio. Cacela é silenciosa, apenas murmura as palavras escritas no branco das suas paredes.

O sul de Cacela é feito de luz, céu aberto, branco das paredes das casas baixas, com notas de rosa ou verde – rosa das buganvílias, verde das janelas ou dos jardins à frente. O verde também vive nas árvores – nos muitos ciprestes (como eu gosto desta árvore…) em redor do cemitério e nas palmeiras que, de repente, todas juntas, parecem levar-nos para outras latitudes.

No centro da povoação, uma praça, um largo, com vestígios da fortaleza de um lado, a igreja do outro e , no centro do centro, árvores que parecem pássaros – são duas esculturas em metal. Árvores que em vez de folhas dão asas. Ramos que parecem ter sede de céu, mais do que o desejo de chão.

A singularidade de Cacela é o que faz deste sítio um ponto marcante da geografia pessoal de quem o visita. Em muitas outras coisas assemelha-se a um Algarve que se encontra do lado do sotavento: as terras férteis que a circundam oferecem pomares de muitos frutos, com cores e aromas que encontramos neste sul, campos de alfarrobas, de amendoeiras e figueiras. As técnicas e os instrumentos para da terra tirar os frutos foram trazidos há muito por romanos e árabes: noras, aquedutos. Do mar tiravam-se os bivalves e os moluscos ali abundantes. Ainda hoje.

Uma das vozes mais antigas de Cacela escreveu sobre Primaveras e vidas. Essas voltam sempre àquele lugar e ali ecoam através das palavras.

Chamam-te, escuta a sua voz.
A vida sorri-te, bebe desse vinho e saboreia-o,
é promessa de uma nova Primavera que chega.
É flor que atrai
com sua fragrância de almíscar,
bela e sensual.
Do seu caule de esmeralda libertam-se
folhas de prata e pétalas de ouro
que se entrelaçam como filamentos de seda
e se erguem como um cálice para te brindar
num inesgotável inebriamento.

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Diz à Primavera:

estende as nuvens do teu manto

e abre os teus véus

sobre os lugares onde brinquei

na minha infância.

Dois poemas de Ibn Darraj Al-Qastalli


Ana Sofia Melo

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