Um viúvo às seis da manhã de todos os dias

Itália

Um viúvo às seis da manhã de todos os dias daquela viagem por Itália circulava, sozinho, pelas cidades que faziam parte de um itinerário de todos. Mas aquele horário, aquele pedaço de tempo nos sítios não estava marcado no roteiro do grupo, apenas no dele. Nem sempre conseguia tomar o pequeno-almoço nos hotéis onde pernoitava, tão cedo saía para a rua. Quando conseguia fazer coincidir o seu horário pessoal com o do normal ritmo do hotel, então optava por uma refeição leve, a primeira do dia, marcada sempre por um café e por um acompanhamento variável, todavia frugal.

Depois a rua era sua, àquelas primeiras horas solares. Caminhava pelas praças, atravessava pontes, olhava os palácios, as igrejas e as montras de fora, estas últimas ainda adormecidas e renitentes em acordar para um novo dia. Para ele mais um dia, também, vivido desde cedo e de forma solitária. Constituía um hábito antigo, um prazer que conhecia em si desde sempre e que cultivava sem esforço, em nome de um olhar sobre os lugares que dizia ser único, por ser o seu, claro, mas sobretudo por ser iluminado por uma luz que ao longo do dia não encontrava mais.

Contou-me também do deleite que sentia ao experimentar os matizes dos diferentes aromas dos sítios logo pela manhã. E havia um que procurava e ansiava sempre por encontrar e que nunca o desiludira – o do pão fresco a sair do forno, cujo perfume invadia as ruas onde as padarias e as pastelarias começavam a abrir-se para mais um dia. Bastava a certeza deste aroma para o fazer sair muito cedo do quarto de hotel, vaguear pelas ruas durante horas, até ao limite disponível para tal. Até que chegava a hora de retomar o roteiro colectivo e pontualmente juntava-se ao grupo que acabara de acordar, de tomar o pequeno-almoço no hotel, numa sala com as mesas que ofereciam, entre outras deliciosas opções, o pão que experimentara de outra forma muito antes.

Este viúvo era octogenário. De um temperamento muito calmo, sorridente quase sempre e detentor de um espírito muito jovial, juntava-se aos demais nas outras refeições do dia, o almoço e o jantar. Era, aliás, desejada a sua companhia, pois os seus relatos das deambulações matutinas captavam a atenção de quem o ouvia. Melhor, bebia as suas palavras. Não me recordo do seu nome, a minha memória visual é mais nítida – era moreno, magro, vestia-se habitualmente de calças e casaco da mesma cor, num misto de formalidade e informalidade confortáveis.

Falava também das suas anteriores viagens com o entusiasmo de quem as revive de cada vez que as relata e com a alegria da partilha. Viagens na companhia da sua mulher e todas as que fizera já na condição de viúvo. Já tinha estado em todos os continentes do mundo. Repetia alguns destinos, como Itália. Em todas as suas rotas procurava as primeiras horas de sol nos sítios. Um hábito que se tornou um ritual muito seu e muito solitário, porque nem sempre a mulher o acompanhara.

Ponte dos Suspiros, Veneza, in Walter e Donzel , Voyages en Italie, Chêne Ed.

Comecei a conhecê-lo melhor durante os almoços e jantares em Florença e Veneza. Sentávamo-nos à mesma mesa e lembro-me muito bem daquele seu passeio por Florença e das cores da cidade através dos seus olhos que a tinham olhado bem cedo, pela manhã. Os mármores, as estátuas, as cores do rio, o céu de Florença eram então outros através dos olhos dele. E os aromas irrepetíveis. O pão florentino a sair dos fornos enquanto eu dormia já exalava o seu perfume que se espalhava e se misturava com o frescor matinal daquela hora, a preferida daquele homem para conhecer uma cidade e sentir a sua vibração inicial. Dizia ele, já em Veneza, que nada igualava a felicidade que sentia ao parar numa ponte sobre um canal e dar conta que aquele tempo e aquele espaço eram seus. Percorridos numa hora mais marcada pelas ausências do que pela presença ruidosa e movimentada ao ritmo dos inúmeros grupos de turistas que circulavam mais tarde, quando o sol já estava mais alto. Por vezes acontecia passarmos por locais por onde ele passara mais cedo, então dizia-me como estes eram naquelas horas anteriores.

Durante esses jantares e almoços à mesma mesa, em alguns pontos da geografia italiana, pude também visitar outros espaços, de uma viagem à volta de um mundo sentido e vivido de uma maneira muito pessoal. Ouvia falar da Índia, da China, da Austrália e de países do continente americano com palavras repletas de cheiros, sons, cores e sabores de caminhadas matinais. Eram muitas viagens dentro de outra.

Ana Sofia Melo

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Livros:

1) Marc Walter e Alain Rustenholz, Voyages Autour du Monde, Chêne Ed.

2) Marc Walter e Catherine Donzel , Voyages en Italie, Chêne Ed.

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