A que sabe um gelado ?

Itália e Mónaco

Os gelados podem ter muitos sabores, sozinhos ou combinados com outros . E por vezes os aromas parecem de flores e não tanto de um gelado. Eu adoro gelados, gosto muito de saboreá-los na sua inteireza e de admirá-los nas suas cores e texturas, quando expostos nas geladarias. Os meus gelados preferidos são os artesanais.

E a que sabe um gelado? A fruta, a leite, a chocolate, a caramelo, a natas, a rum, a nozes, a avelãs… Para mim os gelados podem também saber a sítios e aos ambientes desses sítios. Uma vez saboreados ali, com o gosto de fruta, por exemplo, nunca mais eu experimento o sabor escolhido naquele momento, apesar de a fruta ser a mesma ou a opção pelo caramelo se repetir noutro lugar.Torna-se então difícil traduzir esse segundo sabor dos gelados…

Quando estou em viagem, comer um gelado é também sinónimo de parar e olhar. O itinerário fica suspenso durante o tempo de um gelado. Um parênteses, cheio de importância e significado, apesar de constituir uma pausa na narrativa que é qualquer viagem.

Dois parênteses, então, com a duração de dois gelados.

Piazza della Signoria

A Firenze, con David

Um gelado florentino, com sabor a uma praça povoada de pessoas desejosas de arte e beleza. A beleza das estátuas que encontramos por Florença toda, nas suas fontes, nas suas fachadas, nas suas pontes e praças.

Toda a gente à procura da arte que facilmente se encontra, porque em Florença ela está nos museus, nas galerias, na «loggia», no chão das ruas e das praças. E está também à nossa volta enquanto caminhamos, se olharmos para as colunas e as fachadas dos edifícios que nos abraçam ou para as estátuas que estão lá e nos olham, bem presentes e vivas, só não caminham.

Este gelado foi também o meu almoço naquele dia.Comprado na «gelateria» com nome de herói grego – «Perseo». Encontramos Perseu não muito longe dali, na «Loggia dei Lanzi», com a cabeça da medusa nas mãos, numa escultura em bronze de Benvenuto Cellini. Não me recordo dos sabores escolhidos, mas de certeza que eram inteiros e autênticos, como só os gelados artesanais conseguem oferecer. Uma autenticidade como aquela que tem um sumo de laranja feito com laranjas, pelas nossas mãos, em casa. Lembro-me bem do segundo sabor, ali, na praça da fonte de Neptuno, com os Uffizi e David de Miguel Ângelo muito próximos. E da vontade de olhar a beleza da arte, da ponte Vecchio e do rio Arno, durante o tempo de um gelado. O rio Arno, mesmo ao fundo do corredor dos Uffizi, contemplado da longa varanda que são as suas margens, atravessado pela ponte Vecchio, sempre no horizonte,de cada vez que nos debruçamos sobre o rio. E foi isso que aconteceu, durante o tempo e o sabor de um gelado em Florença.

A Monte Carlo, aprés la Corniche

Claude Monet, La Corniche (1884), Rijksmuseum, Amesterdão

Comi o meu primeiro gelado Häagen-dazs no Mónaco. O Mónaco foi o último destino de uma viagem , depois de atravessar o sul de França. Todo o sul de carro, pela costa do Mediterrâneo. Já tinha estado antes em cidades, pequenas vilas, praias cosmopolitas com muitos barcos e pessoas e recantos luminosos e calmos , que iriam preencher as minhas memórias de França nesse Verão. O Mónaco não estava propriamente nos planos iniciais, embora fosse uma hipótese, e tornou-se destino desejado pela sua proximidade. Então cheguei ao principado depois de percorrer a Corniche – a estrada que corre ao lado do Mediterrâneo, com azul de um lado e verde do outro (das árvores das altas encostas), desde Nice até ao Mónaco. Esta Corniche era a «baixa», «Basse Corniche», não a «Grande» nem a «Moyenne». Cada uma delas segue o Mediterrâneo, mas de altitudes diferentes. A minha Corniche tinha curvas, rectas e depois mais curvas, algumas delas apertadas. Todas elas nos oferecem ângulos diferentes do Mediterrâneo mesmo ali ao lado e levam-nos ao principado.

Monte Carlo estende-se até ao mar, num aglomerado muito concentrado de edifícios, em que se nota uma mistura dos estilos clássico e moderno. As ruas têm nomes de princesas que vivem ou viveram num palácio perto do mar, na zona mais bela do rochedo que domina a costa naquele canto do sul.Um palácio discreto, em grande parte rodeado por um jardim verde e árvores frondosas. Qualquer pessoa pode visitá-lo, embora só tenha acesso às divisões menos privadas. Caminha-se pela área que rodeia o palácio com a mesma liberdade de movimentos com que se anda nas restantes ruas do principado.

Casino de Monte Carlo

Um outro sítio emblemático do Mónaco é o seu casino. E a loja dos gelados Häagen-dazs ficava muito próxima , no meio de um jardim com canteiros muito floridos e coloridos. O primeiro gelado Häagen-dazs que comi soube a um luxo silencioso, ostensivo só nas suas formas e cores, de pessoas que entravam nos carros topo de gama e de outras que saíam para ocupar as esplanadas dos restaurantes próximos do casino. Nas esplanadas, um músico a tocar violino ou piano, para completar o quadro de um estilo de vida que percorria aquelas ruas de Monte Carlo e que se reflectia também nas lojas, nos hotéis e nos belíssimos iates que davam à marina e baía monegascas um traço vincado de sofisticação flutuante.

Ana Sofia Melo

 

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Sobre o Mónaco :

http://www.gouv.mc/devwww/wwwnew.nsf/Home

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