2 de Abril de 2007 – Um feliz reencontro com dois italianos

Barcelona, Espanha

Ir a Barcelona vale sempre a pena. É uma cidade grande e densa sem o parecer, por isso caminha-se sempre com a sensação de que a pracinha que acabámos de deixar está mesmo ali, quando afinal muitos quarteirões e outras praças nos separam dela. Em Barcelona tudo preenche o olhar atento : as varandas, as montras, as fachadas dos edifícios, as árvores, os candeeiros das ruas, os vestígios do gótico e de Gaudí e os barceloneses, com o seu cantar catalão.

Dessa vez não podia deixar de ir a uma das muitas livrarias que existem na cidade. E existem muitas – grandes e com corredores de escaparates que dignificam os livros que se mostram de uma forma discreta. Não me lembro de ver livros que se impõem ao potencial leitor logo à entrada, em expositores sofisticados, coloridamente chamativos e exuberantes, ou em colunas organizadas de livros, uns por cima dos outros, que causam receio de serem tocados (tenho sempre medo de desequilibrar essas torres). Em muitas livrarias de Barcelona os livros mostram-se então discretamente nas estantes, nos expositores, apresentando-se horizontalmente, facilitando assim o toque do leitor. E a 23 de Abril, todos os anos, os livros saem à rua e andam de mão em mão.Em Barcelona e em toda a Catalunha, nesse dia de Abril, dia do santo padroeiro da cidade – São Jorge/San Jordi –, é tradição oferecerem-se livros e flores. Livros, ao homem que se ama, flores, à mulher que se ama. As ruas da cidade são invadidas por livros e flores, à venda a bons preços.

Naquele segundo dia de Abril queria muito ir a uma livraria que me fora recomendada pelo meu tio J. – La Central. Ficava na zona do Raval, que é atravessada por ruinhas típicas e estreitas, paralelas e perpendiculares de edifícios e dos seus habitantes, que cá fora charlan, tendo as coisas da vida como tema principal. No Raval vivem pessoas oriundas de muitos cantos do mundo que é o nosso, por isso anda-se por essas ruas e parece que estamos em sítios diferentes ao mesmo tempo.

Sabia que a livraria não ficava longe das Ramblas e por isso aventurei-me por uma das ruas que nelas desaguam. Estava um dia cinzento e a tarde desse dia estava a chegar ao fim. Andei. Tinha o nome da rua – Elisabets. Sabia que era no Raval e que queria muito entrar nessa livraria. Finalmente encontrei-a. De tão discreta, quase passa despercebida num fim de tarde cinzento e numa rua estreita como as outras. Ocupa agora o espaço da Capela da Misericórdia e a sua fachada é em pedra lisa. E no entanto é imensa…ocupa vários andares e tem diferentes valências – livraria, café, sala de conferências. Lá dentro, o espaço central da «Central» ramifica-se para outros espaços . A toda a volta, corredores nos quais se vêem estantes de ar familiar, pois parecem as das nossas casas, onde os livros estão como se tivessem sido colocados negligentemente, mas não. Estantes organizadas por temas, autores, línguas e literaturas de muitos cantos do mundo.Deste modo os livros deixam-se contemplar e deseja-se de imediato conhecer os corredores que os acolhem. Aqui também existem cantos para uma leitura demorada dos livros, em sofás ou cadeiras que se espalham pela livraria. Na «Central» cada qual encontra o seu espaço, de acordo com o que procura ou com o que encontra sem procurar. Cada um no seu ritmo, sem pressas de sair e com muita vontade de permanecer.

A noite ia chegando devagar lá fora, mas eu estava dentro da casa dos livros e por isso comecei a olhar e a percorrer os cantos àquela casa.

Castelhano, Catalão, Francês, Inglês, Alemão, Italiano, Neerlandês e outras línguas que eu não reconheci estavam lá presentes, corporizadas nos livros. Não procurava nada, não tinha nada em mente, gosto sempre da surpresa de encontrar. E foi o que aconteceu. Num corredor à esquerda, que dava para as prateleiras dos autores ingleses, mais ao fundo,vejo primeiro uma mesa redonda. Uma estante estreita, com a etiqueta «Italianos», a seguir. Bonitas edições, as das prateleiras, sobretudo as da Einaudi e da Mondadori – a elegância da sobriedade plasmada nas suas capas. Olhei para elas , só depois para o que estava sobre a mesinha. E aí reencontrei-os. Juntos num só livro. Um era o escritor e pedagogo que conhecia há muito tempo, o outro, um designer, escultor, pintor, filósofo e mais, que conhecia há menos – Gianni Rodari e Bruno Munari. Que associação feliz! Ambos nos transportam para mundos tranfigurados pela imaginação , através de palavras e linhas, cores, páginas em que textos e cores dão forma à fantasia e criatividade desmesuradas de ambos.

De repente, à volta daquela mesa, recordei os textos divertidos das «Histórias ao telefone» e de «Novas histórias ao telefone», das personagens que desafiam a ordem estabelecida e que propõem outra, graças à imaginação. Lembrei-me de textos curtos, escritos para crianças e para aqueles que não são crianças, mas que gostam de se reencontrar com os encantamentos da infância, território de todos os possíveis. Porque é isso que Rodari faz – vira do avesso a realidade e sobre ela cria personagens, espaços, histórias que estimulam a nossa imaginação. E ali estava ele, aliado a um outro artista. E numa antologia da Einaudi, na sua língua mãe, estavam os textos – poemas, contos, fábulas,le storie fantastiche…reunidos em cinco livros: «Filastroche in cielo e in terra», «Favole al telefono», «Il libro degli errori», «C`era due volte il barone Lamberto» e «Il gioco dei quattro cantoni». Alguns não conhecia ainda, as traduções portuguesas da sua obra eram escassas, e por isso este encontro foi também uma revelação.

Depois deste encontro, na minha memória começaram a inscrever-se novos textos de um e os desenhos de outro. Desenhos de pessoas, animais, árvores, coisas difusas, coisas novas, que ainda não existem, somente na imaginação. E vi o elevador que chegava às estrelas e que antes de regressar a terra dava a volta ao firmamento; as pedras do Coliseu de Roma que um homem começou a tirar e a levar para casa, porque não aceitava dividir a beleza daquele lugar com outras pessoas. No final desta história, que se conta às crianças, o homem, já velho e perto da morte, percebe que tem de ensinar a um menino pequeno o significado de «nostro» e não mais o de «mio», mas já não tem tempo de vida para o fazer. Também me lembrei daquela história do 1 que era, afinal, um 7. Um menino que era e tinha em si sete meninos, todos diferentes e que viviam em casas com moradas várias: o Paolo de Roma, o Jean de Paris, o Kurt de Berlim, Juri de Moscovo, Jimmy de Nova Iorque, Ciú de Xangai e Pablo de Buenos Aires. Cabelos e pele de cores diferentes, assistiam a filmes legendados em línguas diferentes, mas eram, afinal, o mesmo menino, pois a língua dos risos era comum. E como todos os sete afinal eram só um, quando chegaram à idade das complicações adultas, não entraram em guerra entre si. Ainda uma história, de «Histórias ao telefone», sobre um país com um S antes, ou o «despaís» (em italiano, s– é o prefixo equivalente ao português des-), isto porque nele não existiam máquinas fotográficas, mas «desfotográficas» – em vez de fotografias, tiravam caricaturas e toda a gente ria muito; ou o «descanhão», que anulava qualquer início de guerra.                                                                                                  

Histórias em prosa e em verso, ilustrações que são poemas e páginas (muitas, ao todo 713) de poemas feitos de palavras, linhas e cores…

Esse livro veio comigo, daquela mesinha na Central para ocupar um espaço numa outra – a mesinha da minha cabeceira da cama. Gosto muito de voltar a estas histórias de dois italianos que reencontrei em Barcelona. A língua transporta-me a Itália, as histórias à imaginação prodigiosa de ambos e à realidade que habita a fantasia da infância.

La riforma della grammatica

Il professor Grammaticus, un giorno, decise di riformare la grammatica.

– Basta, -egli diceva, – con tutte queste complicazioni. Per esempio, gli aggettivi, che bisogno c`è di distinguirli in tante categorie? Facciamo due categorie sole: gli aggettivi simpatici e gli aggettivi antipatici. Aggettivi simpatici: buono, allegro, generoso, sincero, coraggioso. Aggettivi antipatici : avaro, prepotente, bugiardo, sleale, e via discorrendo. Non vi sembra piú giusto?

La domestica che era stata ad ascoltarlo rispose:

– Giustissimo.

– Prendiamo i verbi. – continuò il professor Grammaticus. – Secondo me essi non si dividono affatto in tre coniugazioni, ma soltanto in due. Ci sono i verbi da coniugare e quelli da lasciar stare, come per esempio: mentire, rubare, ammazzare, arricchirsi alle spalle del prossimo. Ho ragione sí o no?

– Parole d`oro. – disse la domestica.

E se tutti fossero stati del parere di quella buona donna la riforma si sarebbe potuta fare in dieci minuti.

 

Referência : Gianni Rodari, I Cinque Libri.Storie fantastiche, favole, filastroche., Einaudi ed.

ASM

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