Os países chegam até nós muito antes…

Rússia

Por vezes, os países chegam até nós muito antes de nós irmos até eles. E a Rússia chegou-me na infância, através dos seus contos tradicionais.

Lembro-me muito bem de ter em casa dos meus pais um livro de capas vermelhas com contos russos lá dentro. Nele habitavam as personagens das histórias: «O peixe de ouro», «O navio voador», «Sadko, o mercador», «A galinha milagrosa», «Emiliano parvo», «Fomá Berénikov» e «O soldado que adivinha» (estes são aqueles que mais tempo permaneceram na minha memória, contudo havia outros). Li estes contos vezes sem conta e, muito mais tarde, através de um russo, Vladimir Propp, percebi que afinal estas histórias só são muito diferentes à superfície, a sua geografia apenas as reveste de outras «roupagens». Na verdade, a matéria de que são feitos é humanamente universal e por isso os pontos de contacto são inúmeros – vão desde a estrutura, as personagens e suas funções na trama, que é mais ou menos mágica, mais ou menos maravilhosa, até aos ensinamentos que se pretendem transgeracionais na sua apropriação.

Também repousava numa prateleira do armário da sala dos meus pais, e desde aí naminha memória, um conjunto de matryoshkas, oferecido por uma amiga que tinha visitado a então União Soviética. Eu e os meus irmãos brincávamos frequentemente com aquelas bonecas que se encaixavam em si mesmas ou então se multiplicavam, numa variedade de cores que facilmente atraía crianças como nós.

Quando visitei Moscovo, encontrei muitas destas matryoshkas à venda em inúmeros locais à distância de uma vontade. Mas também encontrei das outras, das reais e feitas de matéria muito terna e maternal – as mulheres russas, aquelas com as quais me cruzei nas ruas com os filhos pela mão. E também as que vi em Sergei Posad, com um banquinho debaixo do braço, para participarem nos rituais religiosos, mas com menos dores; físicas, quero dizer. As igrejas ortodoxas russas não têm assentos para os fiéis, pelo que as cerimónias, se muito prolongadas, exigem um esforço físico admirável. As outras dores talvez se acalmem de cada vez que a fé é acompanhada por rituais autenticamente cumpridos e muitas vezes na companhia dos filhos pequenos.

Sergei Posad , a sensivelmente 75 km de distância de Moscovo, é um conjunto de templos ortodoxos, onde se concentra grande parte da história da religião na Rússia e que se reveste de uma importância semelhante à do Vaticano. Naquele complexo de igrejas e mosteiros, podemos encontrar uma feliz e deslumbrante mistura de influências arquitectónicas ocidentais com a tradição da arquitectura russa. As cúpulas douradas e reluzentes ao lado das azuis estreladas, ambas em forma de cebola, competem com o azul do céu . É difícil decidirmo-nos pelo mais belo e para onde devemos fixar o nosso olhar: se para o que está em baixo, se para o que está em cima e que emoldura o que está em baixo. Naquele espaço, cruzam-se fiéis, monges e monjas e alguns turistas. Os sacerdotes dirigem as cerimónias, que se desenrolam dentro e fora dos templos e mosteiros.

Já no centro de Moscovo, muito perto do Kremlin e da Praça Vermelha, encontrei algumas daquelas figuras dos contos russos e de muitos outros povos: o príncipe, a princesa, animais como a raposa, a cegonha, o sapo…Tinham todos saído dos livros da memória e estavam agora sobre o rio Neglínnaia, que acompanha as lojas de Okhótni Riad, por baixo da praça Manézhnaia. Personagens e pessoas muito próximas, num diaexcessivamente quente na capital russa. Muitas vezes misturavam-se – a imobilidade das esculturas e a inquietude de quem procura a água para se refrescar.

Passa-se pela praça Manézhnaia antes de chegar ao Kremlin, de um lado, e ao Museu da História Russa, do outro; em frente, a praça Vermelha. O passado do país , o presente em todos os rostos de todas a idades e das noivas de branco que aparecem de muitos lados (disseram-me que se celebram cerca de 600 casamentos por dia em Moscovo e todos os noivos vão ao Kremlin para uma sessão fotográfica); e o sem tempo das tradições também presente, a evocar a proximidade dos que estão ali desde sempre e dos que estão de passagem, como eu. Mas com a Rússia na minha memória desde muito cedo.

Ana Sofia Melo

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Ver mais em :

Fotos – viagens

Creditos em fotos  :

Vladimir Propp, Las Raices historicas del cuento, Editorial Fundamentos;

Morfologia do conto, Vega Universidade

Contos populares russos,coordenação de Viale Moutinho, Colecção «Outras terras outras gentes», Editora Nova Crítica.

Thomas Vasser et al., The 100 most beautiful treasures of Russia, Rebo Publishers (pp.84,85)

Sobre Sergei Posad:

http://www.stsl.ru/languages/en/index.php

http://www.moscow.info/suburbs/sergiev-posad.aspx

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