«Viento» en las Ramblas

Barcelona, Espanha

Imagens:  Joan Barril e Pere Vivas, Barcelona. El palimpsesto de Barcelona, Triangle Postals Ed.

Ao longo das Ramblas, em Barcelona, podemos encontrar de tudo. Naquele espaço ladeado de lojas, restaurantes, cafés, hotéis, teatros, mercados, pastelarias, galerias de arte, bares e árvores, tudo parece possível. Cruzamo-nos com rostos vindos de todas as partes do mundo que olham para nós à procura da face dos seus antípodas, vemos truques de mágicos com o palco montado mesmo ali, mais atrás estão as estátuas com respiração e olhos humanos (algumas de pé, outras dentro de caixas, outras, aos pares, enroscam-se no parceiro). Pintores, retratistas, bailarinos, músicos e vendedores de flores completam a paisagem humana das Ramblas.

Da Praça da Catalunha até à estátua de Colombo, da estátua de Colombo até à Praça da Catalunha – é um percurso feito vezes sem conta e que nunca tem a mesma paisagem. As Ramblas magnetizam, cativam e tomam-nos como se fossemos dali e não de outro sítio. E não nos cansamos de andar, por mais que andemos ali, atentos a tudo o que passa e acontece.

E foi nas Ramblas que me cruzei primeiro com «Viento» e depois com o seu criador – E.J.Malinowski. Um criador, um artista como todos os outros que faziam de mágicos, de estátuas, que dançavam, pintavam ou esculpiam ou vendiam flores. Todavia, a sua matéria é de outra ordem: na sua «montra» (leia-se bancada de madeira) nas Ramblas, dizia – «Lo vivo, lo escribo, lo publico, lo vendo. Pensamientos y poemas.». Da ordem do viver e do escrever sobre o que se vive, portanto. Um ar ascético, discreto e sombrio, devido ao escuro dominante das roupas que envergava e a um chapéu. Um olhar intenso e profundo e as palavras necessárias para estabelecer pontes com os que passam, da Praça da Catalunha até à estátua de Colombo e o seu contrário. A maior parte delas escritas, para concentrar a sua atenção no viver aquele tempo e aquele espaço. Das muitas palavras escritas sobre boas razões para oferecer um livro, registei estas:

. Se puede transportar facilmente.

. Es unisex.

. No produce alergia.

. Es personal (pero tambien trasmisible).

. Puede estar en un palácio o en una chabola.

. Combate los estados de soledad.

. No produce hábito (lamentablemente).

. Como amigo del hombre es mejor que el perro, no ladra, no come.

. Es mas barato que un yate.

. También se puede leer.

Trouxe para os meus dias dois dos seus livros de poemas – «Viento de rocas y miel sin cadenas» e «Viento 2». As dedicatórias: «A Sofia…cuando el verso golpea pecho adentro en lugar de sangre arranca vida.» e « A Sofia…desde la hondura del verso y la sencillez del viento.».

Livros com pensamentos e poemas, como prometido, e mais ainda – detalhes de uma vida dedicada à escrita à margem de mercados editoriais, procedimentos tipográficos, críticas e exegeses. Uma escrita rente ao viver e ao dizer e partilhar uma existência. Ao ler o breve texto de apresentação da contracapa fiquei a saber que Malinowski nascera em Buenos Aires em 1950 e que fizera algumas greves de fome em nome da cultura e da liberdade de expressão, num mundo que, com os seus apertados espartilhos legais, o proibia de vender livros na rua. Começou por ser um artesão em Espanha, onde vendia os seus objectos, mas depois decidira entregar-se totalmente àquilo que desde a sua adolescência o arrancava do vazio dos dias – a poesia. Tornou-se «poeta callejero». Num minuto, de uma hora na sua vida, decidiu. Parece que viveu estas palavras que depois escreveu no primeiro poema de «Viento 2»:

Ahora

Ahora es el momento de hacer lo que más quieres.

No esperes al lunes, ni esperes a mañana.

Que no aumente ante ti la caravana

de sueños pisoteados. Ya no esperes.


No reprimas por miedo o cobardía.

No postergues la vida con más muerte,

y no esperes más nada de la suerte

que no hay más que tu téson y tu energia.


Si tu sueño es hermoso dale forma

como esculpe el arroyo la ribera;

como el viento que vive y se transforma.


Y para que todo resulte a tu manera,

redacta para ti mismo tu norma

y convierte tu otoño en primavera.

Conheci este poeta em 1998. Em 2007, por altura da Páscoa, voltei a Barcelona e às Ramblas. Não reencontrei os versos de Malinowski expostos ao vento de Abril. Gosto de pensar que estaria noutro espaço, noutra «calle», algures, assinando e dedicando os seus livros.

Ana Sofia Melo

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4 thoughts on “«Viento» en las Ramblas

  1. Muito bonito, mesmo muito bonito! Um texto límpido, escorreito, com intenção, literáriamente elaborado, mas simultâneamente apelativo!
    Estou perplexo (a estupidez é minha, por certo…)!
    Muitos parabéns!
    Mário Luís

  2. Desaparición de un poeta.

    (Não reencontrei os versos de Malinowski expostos ao vento de Abril.)
    Ana Sofia Melo,

    Hoy, a media tarde ha empezado a llover sobre Barcelona. Tras tres días grises, nublados.

    Desde el piedemonte de Collserola – la montaña que cierra por el norte la ciudad – , miro como, inermes y solitarias, las calles se precipitan sobre el mar. Pero no hay mar. La implacable extensión de nubes se cierra tras los perfiles de los últimos edificios portuarios y algunos mástiles.
    ¿Ha abandonado el mar a Barcelona?

    ¿Abandonan los poetas la ciudad?

    ¿Confirman estas desapariciones la afirmación de la geógrafa brasileña, Ester Limonad?:

    “Enfim, a Barcelona que ora se nos apresenta é o resultado de diversas reformas […] Reformas de grande porte promovidas com a argumentaçâo de incrementar o orgulho e a cidadania, mas que de fato extinguem os elementos de pertencimento e de memória coletiva em nome de uma projeçâo internacional duvidosa, que expropia a cidade de seus habitantes e a converte em una cidade dividida , fragmentada em termos de possibilidades de uso e apropiaçâo social, ao tratá-la e converte-la em objeto de consumo global.”

    Quizá este otoño desapacible, triste y gris, sea el inicio del tiempo que nos permita recuperar el mar y los poetas.
    Xavier

    1. Olá, Xavier!
      Espero que sim, que Barcelona e o vento de outono consigam trazer de volta os poetas e o mar dessa cidade de que gosto tanto. Vamos acreditar que sim e que se calhar as palavras da geógrafa brasileira ainda podem ser reescritas noutro sentido, invertendo as tendências que também são visíveis noutras cidades. A globalização e o desejo de internacionalização não podem justificar tudo, sacrificando o local e a identidade dos sítios construída ao longo da história.
      Já tenho comigo o livro sobre Veneza que me sugeriu(só consegui a versão inglesa). Já li as primeiras linhas e parece-me promissor 🙂 E que bonitas fotos! Uma coleção interessante, na verdade. Mais uma vez obrigada por me ter dado a conhecer…
      Até breve!
      Sofia

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