Escala obrigatória em Munique e um desvio opcional

Quando fui à Croácia, voando pela Lufthansa, tive de fazer escala em Munique. Escala que durou algumas horas, antes de chegarmos ao aeroporto de Dubrovnik.

As escalas são, em teoria, aborrecidas, porque não queremos estar onde nos encontramos, mas temos de; ficamos sempre muito condicionados pelo tempo de espera, quando às vezes apetece sair e visitar a cidade mais próxima. Isto quando o aeroporto possui dimensões convidativas aos itinerários paralelos e facilitam uma breve intrusão no «espírito do lugar», permitindo-nos uma fuga, ainda que breve, de um aeroporto…

Eu gosto bastante de aeroportos. Do que eles significam em termos práticos e simbólicos, dos seus rituais, dos mapas dos seus caminhos, enfim, de tudo o que faz um aeroporto. Mas eu estava em Munique, à espera da ligação para a Croácia. Depois de um café expresso e de um delicioso apfelstrudel, servidos por um caloroso empregado de mesa grego, num típico café alemão naquele espaço aparentemente sem coordenadas ( se atendermos aos rostos com os quais nos cruzamos), percorro os caminhos do aeroporto.

Caminho entre lojas de coisas banais, de produtos de lugares, papelarias, alguns produtos formatados a uma escala menor do que a habitual, devido a imperativos de bagagem, livros e revistas em todas as línguas, as conhecidas e as desconhecidas, mapas e guias para ninguém se perder no país em que se situa o aeroporto, mas também em todos os outros, malas, carteiras, sapatos e vestuário no mesmo espaço, concentrados e dentro de lojas que não têm dentro, porque todas se abrem para fora. Que também não é bem um fora, mas um espaço dentro de outro maior. E os que ainda não são passageiros, sentados e alinhados no avião, saltitam ou então circulam como que flanando, alguns deles nos tapetes rolantes. Alguns sentam-se, exaustos de uma viagem ainda a meio ou por fazer, nas cadeiras alinhadas matematicamente. Sempre à espera que uma porta se abra , pois é o caminho para casa ou para o destino lá longe.

Eu também caminhei bastante e a certa altura sentei-me. As salas permitem acompanhar todos os rituais mecânicos e técnicos que rodeiam a arte da aviação, com as suas janelas também formatadas numa escala diferente.

A sala onde esperava dava para o caminho para Dubrovnik do lado da janela, para Itália, do outro. Era uma loja, a «Fabriano boutique». Era uma loja singular, naquele espaço cheio de outros muito previsíveis. Segundo percebi, esta «ponte» para Itália só existe no aeroporto de Munique e no de Roma, o Leonardo da Vinci, para além de lojas em Milão, Florença e Roma. E então entrei. E era Itália que lá estava e a história do papel usado por artistas como Miguel Ângelo e Turner – o papel Fabriano. Um nome, uma marca e uma fábrica de um papel para artistas, que surgiu no século XIII e que oferece características excepcionais em termos de textura, absorção e perenidade. É esse papel que dá forma a cadernos, agendas, cartões vários, marcadores de livros, mapas e outros objectos de uma beleza delicada e que lembram os lugares de Itália. Entrei na loja e lá fiquei, a contemplar os objectos que são autênticas obras de arte. À entrada, passa-se por esta inscrição: «L`arte non è un lusso» .

Na montra, virada para fora, a história do papel Fabriano em linhas de texto sobre papel colorido. Algumas fotografias das antigas fábricas completam o quadro.

Estive na «Fabriano boutique» bastante tempo, até ao voo para a Croácia, mas não embarquei sem antes escrever a história de um papel com nome de cidade italiana, na região de Ancona.

Aqui está ela:

103 – China: Ts`ai Lun announces to his emperor Ho Ti the invention of paper, made with bamboo and other shrubs.

1173 – Paper is made in the Middle East mainly using old linen and hemp rags.

1260 – Some Arabs imprisoned after assaulting the barbour town of Ancona, are taken to Fabriano to teach papermaking to local craftsmen.

1264 – The papermaking production of Fabriano officially starts.

1293 – Fabriano masters invent the watermaking of sheets.

1455 – Gutemberg prints the first bible with movable type : press is born and paper consumption booms.

1496 – Aldo Manuzio prints greek books in Venice on Fabriano paper.

1502 – Raffaello sketches figures on Fabriano paper while working in Perugia.

1509 – Michelangelo uses Fabriano paper in a letter to his friend Nicolò.

1782 – Pietro Miliani groups several papermaking labs in Fabriano under is own name.

1828 – Joseph Mallord William Turner prints watercolours in Italy on dark Fabriano paper.

2002 – You pay with Euro banknotes printed on Fabriano paper.

Mais informações, ver : Fabriano Boutique

Ana Sofia Melo

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