Paris – a primeira de todas

Esta foi a minha primeira vez, a minha primeira viagem de «longo curso» – até Paris. E Paris foi uma festa. Uma festa em família, com pais e irmãos. Este começo de blogue coincide com a memória do início das minhas longas viagens. No entanto, não é por ter começado seguindo a cronologia que este critério se manterá. O mais provável é que não. Absolutamente não. É agora uma coincidência, só para começar de uma forma organizada. E, mais importante, porque tudo o que vier a escrever aqui começou, sem dúvida, em Paris.

Eu era adolescente e estávamos nos anos 80. Os meus pais decidiram levar-nos a Paris, cidade que tanto os encantara e por isso não podiam deixar de nos fazer encantar por ela. E a viagem não podia ter sido mais emocionante – 5 pessoas num Citröen Dyane rumo à cidade-luz! Saímos durante a noite, o meu pai sempre preferiu conduzir à luz das estrelas, e os três passageiros do banco de trás dormiram em Portugal, acordaram em Espanha, adormeceram na fronteira e acordaram já em França.

As dormidas intermédias não foram nada problemáticas e já não me lembro bem onde foram exactamente. Recordo-me, isso sim, das noites já em França. Ficámos alojados numa pousada em Poissy*, na Île de Migneaux, a cerca de 25 km de Paris com o nome de L`Escale.  Chegávamos tão rápida e facilmente a Paris todas as manhãs, de comboio, que penso agora que foi a escolha ideal – fins de tarde no campo, junto ao Sena (a pousada ficava mesmo junto ao rio, com um jardim maravilhoso a toda a volta), pequeno-almoço na sala da pousada e noites sempre bem dormidas (tal era o cansaço depois de um dia cheio do novo). Lembro-me ainda hoje do aroma da baguette bem quente de todas as manhãs, dos frasquinhos de compotas deliciosas que nos ofereciam e da simpatia em Francês de todos quantos trabalhavam na pousada.

Na grande cidade tudo foi espanto e encantamento: a dimensão dos edifícios, a largura das avenidas, a beleza das pontes, a delicadeza dos jardins, a materialização das imagens conhecidas através de livros ou revistas, a melodia doce das palavras ouvidas nos mais diversos sítios em tons variáveis. O plano das visitas não podia ser melhor. Num tempo sem internet, telemóveis, revistas sobre viagens, sobre roteiros de viagens, sobre agências de viagens, os meus pais foram certeiros nas escolhas. Era uma aventura iniciática em matéria de viagens e plena de descobertas únicas, replicadas no futuro noutras geografias: o incontornável Louvre, o recentíssimo Museu d`Orsay (um dos mais belos museus em que já estive e sobre o qual tenho absolutamente de escrever), a clássica Opéra, os cosmopolitas Champs-Élysées, o surpreendente Parc de La Vilette (onde eu, com o ouvido encostado às paredes de uma das salas, pude ouvir todos os doces sons da natureza como se estivesse num bosque, em alto mar, numa praia…), as duas magníficas torres por razões diferentes – Eiffel e Montparnasse -, o artístico e mágico Montmartre, com a sua colorida Place du Tertre ,o inusitado Centro Georges Pompidou (gosto tanto dele , mas não sem um sentimento de estranhamento) e um dia inteiro, naquele palácio que é todo ele um espelho onde se reflecte a história, a beleza, o luxo, o poder, o desejo de superação e de domínio absoluto – Versailles.

Foi em Paris que andei pela primeira vez de metro e aprendi fazê-lo, até hoje. Muito por causa do meu pai, que nos ensinou a olhar para os mapas, incluindo o do metro, e a estarmos atentos às informações ouvidas. A minha escala pessoal abalou-se e reestruturou-se e Paris deixou em mim uma marca indelével. Não só por ser Paris, mas por ser a minha primeira cidade não portuguesa. Tenho-a bem vívida na memória. Já lá voltei várias vezes, em alturas diferentes da minha vida, com companhias diversas. Consegue sempre surpreender-me e encantar-me, mas a emoção primeira tenho-a comigo.

Em minha casa tenho quatro quadros com fotografias de Paris. Não fui eu que as tirei, mas senti vontade de as ter numa parede para a qual olhe todos os dias, para me lembrar da minha primeira viagem.

Hoje continuo a viajar, a espantar-me com o novo, a consultar mapas, a andar de metro e a abalar as minhas escalas. Agora sou eu que tiro as minhas fotografias e que escolho muitas das coisas que vejo.

O tema das viagens é um dos meus preferidos nas conversas. Mas eu gosto pouco de falar. Por isso escrevo.

Ana Sofia Melo

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* ver a este respeito o seguinte link : Ile Migneaux (Poissy)

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6 thoughts on “Paris – a primeira de todas

  1. Foi também para mim A VIAGEM até hoje… pela época, pelo transporte, pelas peripécias, por aquilo que visitamos e por aquilo que aprendemos (Autonomia e dar valor á cultura e história de outros povos). Gostei muito do blog e acho que não devia ficar por aqui…voos mais altos…bjs

    1. 🙂 Um dos passageiros do banco de trás…e cúmplice da aventura! Foi A VIAGEM, concordo. Palavras muito generosas, as tuas.Palavras como tu 😉
      Bjs

  2. Segundo J.G. de Araújo Jorge, poeta e cronista brasileiro, não dos mais celebrados pela crítica, mas muito amado por um a legião de leitores, Paris não se conhece, mas se reconhece. Temos tantas prévias informações sobre a cidade que quando chegamos pela primeira vez, se adultos, é como reencontrar um antigo amor sempre novo.

    1. Obrigada pelo seu comentário, que é também um convite à obra de um poeta e à recuperação de um olhar primeiro…Nem sempre consigo tê-lo, confesso…A minha curiosidade, que antecipa tantos lugares, não deixa.

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